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Ribeiro de Baixo Cabo do Mundo

Imagem extraída do documentário Ribeiro de Baixo Cabo do Mundo
Imagem extraída do documentário Ribeiro de Baixo Cabo do Mundo

“Noite escura, densa, calada. Premonições. Memórias deste e de outro mundo. No Ribeiro de Baixo o nosso dia-a-dia cruza-se com histórias e sinais que vão além do Minho pitoresco. Olha-se atentamente o monte galego do outro lado do rio. Essa fronteira, através da qual todos observam por binóculos, é atravessada entre a vida e a morte. O que procuramos? O lobo que caça? O caminhante solitário? Luzes de estântegas? Que atenção damos a um futuro hesitante? Esperamos, desaparecemos” (Ribeiro de Baixo Cabo do Mundo. Lugar do Real. AO NORTE – Plano Frontal).

O lugar do Ribeiro de Baixo, com uma história e identidade próprias, situa-se nos confins de Castro Laboreiro. A uma dúzia de quilómetros da sede da freguesia, resultava, há pouco mais de cinquenta anos, deveras complicado lá chegar.

O documentário Ribeiro de Baixo Cabo do Mundo, de 2024, com uma duração de 19 minutos, foi realizado por Nuno Mendonça, Rodrigo Queirós e Vitor Covelo e produzido pela associação AO NORTE, durante a residência cinematográfica Plano Frontal, no âmbito no âmbito do MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço.

“A residência cinematográfica Plano Frontal ocorre no âmbito do MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço em simultâneo com a residência de fotografia. O objetivo deste projeto é contribuir para um arquivo audiovisual sobre o património imaterial de Melgaço, dotar o Espaço Memória e Fronteira de obras audiovisuais  e fotográficas que retratem a história da região, promover o filme documentário e o aparecimento de novas equipas técnicas e artísticas.

Quatro equipas formadas por quatro jovens realizadores, quatro operadores de som e quatro operadores de câmara, realizarão, durante uma semana, quatro documentários sobre temas locais que lhes serão propostos. Cada equipa trabalha na montagem do seu filme após o fim da residência. Plano Frontal tem como destinatários os alunos em final de curso que frequentem Escolas do Ensino Superior de Cinema e de Audiovisuais, ou que tenham concluído recentemente a sua formação e é orientado pelo realizador Pedro Sena Nunes” (Ribeiro de Baixo Cabo do Mundo. Lugar do Real. AO NORTE – Plano Frontal).

Sobre a vocação, organização, enquadramento, história, relação com o território e atividades do MDOC- Festival Internacional de Documentário de Melgaço, anexo o pdf do artigo “MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço”, publicado no Boletim Cultural nº 11, de 2024, editado pela Câmara Municipal de Melgaço. A autora, Clara Vasconcelos, tem acompanhado, desde a criação, esta iniciativa, promovida, em boa hora, pelo Município de Melgaço e pela Associação AO NORTE.

Para aceder ao vídeo com o documentário Ribeiro de Baixo Cabo do Mundo, carregar na imagem acima.

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Três fotografias de Castro Laboreiro.

Em Castro Laboreiro (Pântano da Ameijoeira). Foto de Nuno Vieira
Em Castro Laboreiro (Castelo). Foto de Pedro Cunha
Cascata do Rio Laboreiro. Fonte – Município de Melgaço

Animação

Tenho em casa um nipófilo adepto dos animes. Costuma prendar-me com novidades e curiosidades. No passado mês de abril, estreou a série Kaiju. No. 8. O genérico de abertura é deslumbrante. Ao contrário da generalidade dos animes, quase dispensa o figurativo. Formas, movimentos, sons e cores insinuam-se, esboçam-se e atropelam-se a um ritmo estonteante, para antecipar sensações e emoções em vez de conteúdos, narrativas e significados. Uma aposta original e arriscada que tudo indica ter resultado.

Genérico de abertura do anime Kaiju. No. 8. Abril de 2024. Música: Abyss, dos YUNGBLUD

As caraterísticas do genérico de abertura de Kaiju. No. 8 lembram-me um vídeo com anúncios a automóveis que produzi há décadas (Dobras e Fragmentos – A turbulência dos sentidos na publicidade de automóveis, 2007). Resultou uma colheira “bem apanhada”. Destaco, especialmente, o anúncio See How It Feels, da BMW (2007). Tempos em que bibia a beleza do mundo!

Seguem o anúncio See How It Feels, da BMW; o vídeo Dobras e Fragmentos – A turbulência dos sentidos na publicidade; e o texto homónimo correspondente ligeiramente ligeirament diferente do publicado no livro Vertigens (mais imagens e a cores).

BMW (See How it Feels, WCRS, Londres, 2007
Dobras e Fragmentos. A turbulência dos sentidos na publicidade de automóveis. Por Albertino Gonçalves. 2007.

ISI Riders. A ciência na era da comunicação generalizada

“Demasiada luz ofusca”
Blaise Pascal

ScienceComecei uma crónica que ficou obesa. Adquiriu dimensão de artigo. Por cautela, cortei-a às postas para a publicar num formato amigável. Estou a ficar alérgico à palavra artigo: causa-me urticária e, às vezes, gastroenterite. Na modernidade retardada, um artigo que se preze deve aspirar à honra de uma revista com fator de impacto. Assim ditam os categóricos. Acodem-me algumas imagens insidiosas: o cientista como mendicante, como homem-sanduíche ou como funcionário do espírito.

Escrevo artigos sobre temas que me interessam, em revistas que aprecio, normalmente por convite. Apego-me a estes pequenos nadas: autonomia, escolha e colaboração. Não deixo de ponderar que, num blogue razoável, um texto meu colherá mais leitores em cinco dias do que um artigo, também meu, numa revista com fator de impacto em cinco anos. Continuo a ruminar: por que motivo um artigo publicado numa revista portuguesa vale quase nada e a sua tradução numa revista estrangeira com fator de impacto vale quase tudo? Anda aqui mão de Conde Andeiro.

Os donos do poder e da ciência estão a transformar a investigação num espécime sem corpo, só cabeça, a modos como o bilionário do romance I Will Fear No Evil, de Robert A. Heinlein. Um cientista parece cada vez mais um jogador de basquetebol. É um encestador de papers. É o gesto, a arte, que define o artista.

Porquê tamanha fixação em organizações como a ORCID ou em bases de dados como a SCOPUS? Será que alguém quer filtrar e acelerar a informação na comunidade científica? Ontem sonhei com a Nova Jerusalém da ciência: vi tribos de cientistas a convergir em filas para a cidade sagrada: o mercado global do saber hiper-normalizado. Uns entusiasmados, outros calados, outros recalcitrantes. Adivinha-se algum ranger surdo de dentes, mas, deste jeito, só sofrem os maxilares.

Em Portugal, há um ditado novo: se queres semear, começa pela cúpula. Para promover alguns, desvaloriza-se o resto. O poder é um bom fertilizante. Faz crescer dependências. E os jogos do poder são uma seiva mais viciante do que as máquinas dos casinos. O mocho já foi símbolo da sabedoria, a honra cabe agora ao cuco. À semelhança da maçã de Prévert, a ciência não é para pintar, é para fazer. O contrário é uma falácia.

O Passeio de Picasso

Numa base bem redonda de porcelana real
posa uma maçã
Face a face com ela
um pintor da realidade
em vão tenta pintar
a maçã tal como ela é
mas
ela não vai deixar

e o pintor atordoado perde de vista seu modelo
e adormece
É então que Picasso
enquadrando-se ali como em toda oportunidade
cada dia como em sua casa
vê a maçã e o prato e o pintor adormecido
Que ideia de pintar uma maçã
diz Picasso
e Picasso come a maçã
e a maçã lhe diz Obrigado
e Picasso quebra o prato
e sai dali sorridente
e o pintor arrancado de seus sonhos
como um dente
se encontra só novamente diante da sua tela inacabada
com os terríveis caroços da realidade
bem no meio da sua louça despedaçada.

Jacques Prévert, 1949