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Jornada. Por e contra D. Quixote

Na conferência Com o Filho no Colo 1. 28.11.2025. Fotografia: Alfredo Machado

Há mais de meia dúzia de anos que não falava duas horas em pé e com expressão gestual desenvolta. O Alfredo Machado captou o momento. Este reparo peca provavelmente por vaidade, mas vaidade humilde e, pesem as voltas da vida, agradecida.
Um pouco de quixotismo pode ajudar a sonhar, tentar e perseverar (desde que com a companhia do Sancho Pança). Jacques Brel sublinha-o na canção “La Quête”. Já Manuel Freire grita, a contramão da “Pedra Filosofal, “Abaixo D. Quixote”.

[Carregar nas imagens para as aumentar e aceder às respetivas legendas].

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Jacques Brel – La Quête. 15 ans d’amour, 1968
Manuel Freire – Abaixo D. Quixote. Pedra Filosofal, 1993. Original: EP de 1973. Poema de José Gomes Ferreira
Manuel Freire – “Pedra Filosofal” (primeira versão) do disco single ZipZip. 1970. Poema de António Gedeão

A Busca
La quête

(Jacques Brel)

Sonhar um sonho impossível
Rêver un impossible rêve

Carregar a tristeza das partidas
Porter le chagrin des départs

Queimar com uma febre possível
Brûler d’une possible fièvre

Ir aonde ninguém vai
Partir où personne ne part

Amar até o dilaceramento
Aimer jusqu’à la déchirure

Amar, até demais, até mal
Aimer, même trop, même mal

Tentar, sem força e sem armadura
Tenter, sans force et sans armure

Alcançar a inacessível estrela
D’atteindre l’inaccessible étoile

Esta é a minha busca
Telle est ma quête

Seguir a estrela
Suivre l’étoile

Pouco me importa a minha sorte
Peu m’importent ma chance

Pouco me importa o tempo
Peu m’importe le temps

Ou minha desesperança
Ou ma désespérance

E, depois, lutar sempre
Et puis lutter toujours

Sem perguntas, nem descanso
Sans questions ni repos

Danar-se
Se damner

Pelo ouro de uma palavra de amor
Pour l’or d’un mot d’amour

Não sei se serei esse herói
Je ne sais si je serai ce héros

Mas, meu coração estaria tranquilo
Mais mon coeur serait tranquille

E as cidades se salpicariam de azul
Et les villes s’éclabousseraient de bleu

Porque um infeliz
Parce qu’un malheureux

Ainda arde, apesar de ter queimado tudo
Brûle encore, bien qu’ayant tout brûlé

Ainda arde, até demais, até mal
Brûle encore, même trop, même mal

Para alcançar até se esquartejar
Pour atteindre à s’en écarteler

Para alcançar a inacessível estrela
Pour atteindre l’inaccessible étoile

Pedra d’água

Se no artigo anterior, a liberdade e o amor surgem como rivais, hoje apetece-me corrigir a mão. A liberdade ama-se e o amor salva do pior dos tiranos: nós mesmos. Uma canção que me faz sentir a liberdade é a Pedra Filosofal, poema de António Gedeão, interpretada por Manuel Freire. Dir-me-ão que não incide sobre a liberdade mas sobre o sonho. Pois, sem sonho não há liberdade, fica-se prisioneiro, não do amor, mas da realidade.

Junto com a Pedra Filosofal, vem a magnífica Menina dos olhos d’água, interpretada por Pedro Barroso.

António Gedeão

Manuel Freire – Pedra filosofal / Pedro Barroso – Menina dos olhos d´água

Esta (des)conversa inspira-se em Ernst Bloch, autor erudito e complexo, ídolo dos movimentos estudantis dos anos sessenta. As obras mais reputadas são Espírito da Utopia (1918) e O Princípio Esperança (3 vols., 1954-1959). Os meus textos inspiram-se sempre em algo ou alguém. Poucas novidade acrescentam. Neste caso, andei na adolescência às voltas com um livro menos conhecido de Ernst Bloch: Thomas Münzer, Teólogo da Revolução (1921).

Em 1978, fiz um trabalho dedicado precisamente ao Thomas Münzer (1490-1525), com o título Thomas Munzer, a sutana e o martelo. Münzer foi um teólogo “revolucionário” do século XVI. Crítico de Lutero, acabou por liderar a “guerra dos camponeses” na “Alemanha” (1524-1525). Pregava as os seus textos nas portas das igrejas e assinava: “Thomas Münzer à martelada”. Almejava criar o Reino de Deus na Terra. Foi decapitado em 1525. Friedrich Engels dedica-lhe um pequeno livro: As guerras camponesas na Alemanha (1850).

O trabalho, de uma trintena de páginas, possuía uma introdução extensa sobre a abordagem das ideologias. Graças a ele desemboquei em obras interessantes, tais como O messianismo no Brasil e no Mundo (1965), da socióloga brasileira Maria Isaura Pereira de Queiroz, ou Ideologias: inventário crítico dum conceito (1978), do José Madureira Pinto. Emprestei o trabalho a uma doutoranda grega e nunca mais lhe pus a mão.

Junto a tradução em português do livro Thomas Münzer, Teólogo da Revolução, de Ernst Bloch(Editora Tempo Brasileiro, 1973).