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O Canto das Crianças do Inferno

Para acompanhar os filhos, os pais ganham em aprender com eles

Quando aquilo que deveria estar longe está perto e o que deveria a estar perto está longe, dá vontade de mudar de lugar, de se deslocar para outras coordenadas espaciotemporais, mesmo que seja esporadicamente. Demandar, por exemplo, o rock japonês do início dos anos setenta ou os cânticos da Grécia Antiga de há dois milénios. Comecemos pelo rock progressivo e psicadélico japonês.

O Fernando mostrou-me uma pérola rara. “É a tua cara! A música e a letra.” Adoro quando me surpreendem adivinhando os meus gostos.

Quando era jovem, acompanhava artistas estrangeiros no rock, mas depois de ouvi-los novamente depois de muitos anos, descobri que artistas e bandas japonesas como J.A. Caesar, Jax e Happy End, que enveredam por um gênero um pouco diferente, alcançam muito mais profundidade e um nível mais alto do que as bandas britânicas e americanas da mesma época. (Comentário no YouTube: @blueearth5000).

J. A. Seazer (…), às vezes ortografado Julious Arnest Cesar ou Julious Arnest Caesar, batizado Terahara Takaaki (寺原 孝明?), é um músico e compositor de bandas sonoras japonês nascido a 6 de outubro de 1948. Alcançou alguma popularidade entre os estudantes japoneses nos anos sessenta e colaborou com o realizador Shuji Terayama (…) Adquiriu notoriedade com a composição da banda sonora da adaptação animada do manga de Suehiro Maruo, Mr. Araxhi’s Amazing Freak ShoW (Wikipedia, 16.06.2025).

Retive quatro vídeos. O primeiro, “When Everybody’s Going to Die” [Quando todos estiverem a morrer], foi o que o Fernando me deu a conhecer [coloco a letra no fim”. Pertence a um EP lançado em 1970, que inclui a canção do segundo vídeo: “Hanging Tree” [árvore da forca]. Segue a canção “Wasan” do álbum Kokkyou Junreika, de 1973. Estas músicas namoram o rock progressivo e psicadélico. O quarto vídeo contempla sete músicas da banda sonora do filme Den-en ni shisu (Pastoral: To Die in the Country), realizado por Shuji Terayama em 1974. Embora todas sejam notáveis, deste conjunto destaco as duas últimas canções: “Hymn of Praise” (12:53) e “Everyone Suddenly Disappears” (17:08). Já que se fez tão rara viagem, vale a pena atardar-se.

 J. A. Seazer – すべての人が死んで行く時に / Quando todos estiverem a morrer, EP, CBS Sony.1970
J.A. Seazer – Hunging Tree 首吊りの木 / Árvore da Forca. EP, CBS Sony. 1970
J.A. Seazer – Wasan. Kokkyou Junreika, 1973
J.A. Seazer – Den-en ni shisu (Pastoral: To Die in the Country). Dir. Shuji Terayama! Pastoral Hide and Seel, song selections. 1974

*****

Quando todos estiverem a morrer
(When Everybody’s Going to Die)


Quando todos estiverem a morrer,
cantarei um hino de amor

Quando todos estiverem a morrer,
alguém cantará uma canção de embalar

Os pássaros negros que se aglomeram nas árvores mortas
Gritarão na escuridão

Quando todos estiverem a morrer,
Gritarão na escuridão

Quando todos estiverem a morrer,
ouço a voz de uma mãe

Quando todos estiverem a morrer,
há risos e choros

Das profundezas de uma garrafa enegrecida,
A voz das crianças do inferno a cantar

Quando todos estiverem a morrer,
A voz das crianças do inferno a cantar

Quando todos estiverem a morrer,
quando todos estiverem a morrer

(J. A. Seazer, 1970)

Lobo

Enquanto a curiosidade não paga, creio, taxa de entrada nos Estados Unidos, aproveite-se para visitar tão contrastado mosaico, alternando arqueologia e prospeção, relíquias escavadas na memória e revelações mais ou menos recentes.

Lobo (Roland Kent LaVoie), nascido na Flórida em 1943, compositor e cantor, alcançou enorme sucesso nos anos setenta, com várias canções no topo de vendas nos Estados Unidos e na Europa. Nos anos noventa, o centro de gravidade da sua atividade deslocou-se para o continente asiático. Em 2022, com cerca de 80 anos, continuava ativo.

Alguns jovens da minha idade lembrar-se-ão, talvez, de canções tais como “I’d Love You To Want Me”, “Don’t Expect Me To Be Your Friend” ou “How Can I Tell Her”, do álbum Of a Simple Man, estreado em 1972. Por essa altura, não parava de riscar o 45 rotações com “I’d Love You To Want Me”. A estas canções, acrescento “Faithful” de uma fase “asiática” mais tardia (anos noventa).

Uma vez que o Lobo sofreu um apagão no Ocidente, pedia um feedback, um esboço de sinal [um (des)gosto ou emoji] a quem dele se recorde.

Lobo – I’d Love You To Want Me. Of a Simple Man, 1972
Lobo – Don’t Expect Me To Be Your Friend. Of a Simple Man, 1972
Lobo – How Can I Tell Her. Of a Simple Man, 1972
Lobo – Faithful. Asian Moon, 1994. 2004 Remaster

O radar com brinco de ouro

Existem músicas com mais de cinquenta anos que o nosso corpo ainda se recorda. É o caso de “Radar Love” (1973), dos neerlandeses Golden Earring, ativos entre 1961 e 2021.

Golden Earring – Radar Love. Moontan. 1973

Tão gostozinha! Sedução didática

Tenho a impressão de que aprendi mais acerca dos seres humanos a tentar seduzi-los do que a ler livros de Sociologia. Não liguem! Oito dias ligado a máquinas, a jogar às cartas com Satanás, bastaram para me afetar partes do cérebro e ficar ainda mais destravado. Retomo quatro relíquias glicodoces dos anos setenta: You’re so Tasty, Julia, Angie e Without You.
G. Klimt. Retrato de Adele I. 1907

Murray Head – You’re so Tasty. Say It Ain’t So. 1975
Pavlov’s Dog – Julia. Pampered Menial. 1975
The Rolling Stones – Angie. Goats Head Soup. 1973
Harry Nilsson – Without You (cover). Single. 1970

Casamento nos anos setenta. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

A. Cerimónia do casamento. Cortejo Histórico de Melgaço. Fotografia – Ana Macedo

O tema do casamento nos anos setenta foi o segundo a surgir para o Cortejo Histórico de Melgaço de 2024, logo a seguir ao tema da lenda da Senhora da Orada. Entre outros aspetos, manifestava-se estimulante a possibilidade de incluir o vetusto carro dos Bombeiros Voluntários de Melgaço que chegou a ser utilizado para o transporte de noivos: um Buick vermelho modelo 1928.

B. Buick dos Bombeiros Voluntários de Melgaço

Sobre a história deste automóvel pode consultar-se o artigo de Manuel Igrejas, “O Carro dos Bombeiros Voluntários de Melgaço / Um lugar onde nada acontecia XI”, publicado no jornal Voz de Melgaço e retomado no blogue Melgaço, do Monte à Ribeira (https://iasousa.blogs.sapo.pt/o-carro-dos-bombeiros-voluntarios-de-240186).

Casamento. Anos oitenta. Vila de Melgaço

Não se regatearam esforços para restaurar o Buick de modo a que estivesse pronto para desfiliar no dia 10 de agosto. Lamentavelmente, não se logrou recuperar uma peça. Foi substituído por um Mercedes vintage.

D. Chegada das noivas. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Ana Macedo

Definido o tema, a implementação e concretização coube às juntas do Agrupamento de Freguesias de Parada de Monte e Cubalhão, da freguesia de Cousso e da freguesia da Gave. Contaram com o apoio da associação CUBO D’QUESTÕES, ASSOCIAÇÃO JUVENIL, de Parada do Monte, e, naturalmente, da equipa da Câmara Municipal.

F. Chuva de arroz. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Abraçaram o desafio com entrega, criatividade e sentido de oportunidade. Previa-se, inicialmente, um cortejo com os carros dos noivos e dos convidados engalanados a preceito. Adicionou-se a encenação da própria cerimónia do casamento, com espera da noiva, padrinhos, meninas das alianças, celebração, beijo da noiva, chuva de arroz e arremesso do ramo. Nem sequer faltou a pose para as fotografias.

G. Baile. Casamento nos anos sessenta. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Produção: Ana Macedo

A apresentação culminou com o baile, uma valsa bem dançada, empolgante e envolvente, a que até o padre aderiu (sugere-se o vídeo publicado pela Voz de Melgaço: https://www.facebook.com/jornalvozdemelgaco/videos/1023897019126966?locale=pt_PT). Fechou, assim, com chave d’ouro o casamento nos anos setenta e, por coincidência, o próprio Cortejo Histórico.

H. Baile. Casamento nos anos setenta. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Produção: Miguel Bandeira

Além do entusiasmo e do espírito de iniciativa, convém sublinhar a criatividade e o sentido de oportunidade dos organizadores e dos participantes. Quando se aguardava um casal jovem, tipo Barbie e Ken, surgem vários casais perto das bodas de ouro, que, com à-vontade e alegria contagiantes, representaram, vestiram as personagens, com uma competência e um brio raros em muitos profissionais do teatro. Uma última palavra para o guarda-roupa, os adereços e a caraterização. vestuário e os adereços. Deveras adequados, em alguns casos configuravam autênticas relíquias.

I. Adereços da noiva. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Os organizadores, os participantes e o público não esquecerão, certamente, tão cedo o casamento nos anos setenta em Melgaço. Ultrapassando as expetativas, consubstanciou uma iniciativa simpática, no sentido etimológico da palavra: teve a virtude de atrair, juntar e mover vontades.

J. Baile. Pormenor. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Seguem:

  • Uma galeria com fotografias provenientes, sobretudo, de Ana Macedo, Miguel Bandeira e Município de Melgaço
  • Um exemplo de notícia de casamento nos anos setenta;
  • O texto que serviu de base para a apresentação durante o cortejo;
  • Um artigo sobre os ritmos sazonais e os estilos de vida dos melgacenses residentes e emigrantes por volta dos anos setenta.

Galeria de imagens: Casamento nos anos setenta. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

Notícia de casamento no jornal Voz de Melgaço de 1971

O casamento nos anos setenta. Texto para a apresentação durante o cortejo

Quem não conheceu Melgaço nos anos setenta dificilmente o conseguirá imaginar. Correspondeu a uma época de mudanças e excessos.
O concelho nunca antes teve tantos emigrantes. A partir de meados dos anos sessenta, aos homens juntaram-se as mulheres. Nesta conjunção, nunca vieram tantos emigrantes de férias, que, agora em família, Agora em família, se concentram no verão, principalmente no “querido mês de agosto”. A sua presença alcançou o auge de densidade, mobilidade e visibilidade.
Entretanto, Melgaço despedia-se de uma economia assente na agricultura, com as antigas hierarquias a descoser-se sem que novas as substituíssem claramente. Em termos de estrutura e organização, os anos setenta configuraram um período de transição propício à indefinição, à turbulência e à competição social.
O ciclo anual oscilava entre duas fases com tipos e ritmos de vida contrastados. Tudo crescia e acelerava no verão para abrandar e esmorecer abruptamente em seguida durante o resto do ano. Uma tempestade de verão! Tudo parecia rebentar pelas costuras: os bancos, as repartições, os comércios, as feiras, os cafés, as praças e as estradas. Agendam-se e afunilam-se os compromissos e os afazeres de todo o ano em meia dúzia de semanas: negócios, contratos, obras, atos religiosos, casamentos, batizados e até os namoros! Não havia dia ou noite sem festas nas proximidades. Depois de um prolongado e monótono inverno, o inverso, a inquietude. Tudo urge e se multiplica. Aspira-se à ubiquidade: estar em todo o lado ao mesmo tempo. Omnipresença, efervescência, aceleração e velocidade.
Entre as festividades, os convívios e as cerimónias, destacam-se os casamentos. Faustos e fartos, proliferavam. Propiciam um momento de reencontro de parentes e amigos, a residir dentro ou fora do concelho. Oferecem-se, ainda, como um palco apropriado para a afirmação, a distinção e a ostentação social, tanto dos noivos e das suas famílias como dos convidados, de preferência muitos e com prestígio. Tudo frisava o exagero: o vestuário, o cortejo, o banquete, as prendas… Criaram e cresceram empresas que não tinham mãos a medir: restaurantes, cabeleireiras, esteticistas, floristas… Até lojas especializadas em prendas!
Os casamentos impõem-se como um espetáculo notável. Registam-se, apreciam-se e comentam-se os convites, a cerimónia, as roupas, o vestido e o ramo de noiva, os padrinhos, o valor das prendas, as fotografias, o cortejo, a quantidade, qualidade e matrícula dos carros, o destino da lua-de-mel, o local, a ementa, a animação e a generosidade do banquete.
“Primeiro de agosto, primeiro de inverno”. Por volta da Nossa Senhora da Assunção, é altura de fazer as malas. Melgaço esvazia-se e entorpece. A agitação e a estúrdia cedem à contenção e à modorra.
Os anos setenta um intervalo no decurso de uma história que não se repete. Tudo o que sobe desce. Incha, desincha e passa. Tamanha excitação e extravagância são difíceis de sustentar. A situação, sobretudo, económica e financeira, do País foi periclita, a relação entre os emigrantes e a sociedade de origem altera-se e a demografia, principalmente o envelhecimento, não dá tréguas. Em suma, uma dinâmica que resulta menos de feição a excessos e euforias.

(Albertino Gonçalves)

Artigo sobre os ritmos sazonais e os estilos de vida dos melgacenses residentes e emigrantes por volta dos anos setenta

Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Introdução

00. Lenda da Senhora da Orada. Fotografia: Miguel Bandeira

A convite da Câmara de Melgaço, participei na organização do Cortejo Histórico de 2024. O anterior, de 2023, cumpriu e prometeu. Importava prosseguir, introduzindo alguma distinção e inovação. Um desafio aliciante, tanto mais que as colaborações com o município de Melgaço resultaram geralmente compensadoras e reconhecidas. Regra na minha terra, exceção fora.

O trabalho de conceção do modelo do cortejo foi compartilhado com o pessoal da área da cultura do município, nomeadamente o Abel Marques, a Diva Amaral e a Patrícia Domingues. Uma equipa habituada a trabalhar em conjunto. Tem acontecido com os Serões dos Medos, está a acontecer com o próximo Boletim Cultural.

“Na primeira edição do Cortejo Histórico, em 2023, foi apresentada uma visão macro, com uma viagem no tempo de milhares de anos (Recorde-se que o Cortejo Histórico retratou uma espécie de friso cronológico, uma linha temporal da ocupação humana do território, sendo selecionadas cinco épocas que deixaram marcas históricas e que representam as raízes culturais do concelho – O Paleolítico, a Idade do Bronze, a Antiguidade Clássica – Romanização, a Idade Medieval e a Idade Contemporânea.)”

Vídeo: Cortejo histórico de Melgaço [de 2023] percorre as ruas da vila. Altominho TV. Colocado no YouTube em13/08/2023

Na primeira edição do Cortejo histórico, o objetivo consistiu, portanto, em encenar épocas da história humana com um rico património local. Proporcionou uma experiência deveras útil para o seguinte.

A primeira e principal inovação assentou numa mudança de perspetiva e numa deslocação de foco: menos História em Melgaço e mais História de Melgaço. Não apostar tanto em ilustrar ou exemplificar realidades gerais à escala local, mas recuperar e divulgar histórias e lendas caraterísticas do próprio concelho, pertencentes à sua memória coletiva, algumas vividas e ou transmitidas pelas gerações precedentes. Em suma, motivos e assuntos em que os melgacenses se reconhecem e com os quais se identificam. Por exemplo, em vez da “Idade Média”, tão marcante em Melgaço, as lendas da Senhora da Orada ou da Inês Negra, ambas exclusivas do concelho. Esta nova fórmula apresentava-se como mais propícia ao envolvimento e à criatividade dos participantes.

03. Lenda da Senhora da Orada. Fotografia: Miguel Bandeira

Encontrado o conceito e o modelo, impunham-se dois pré-requisitos: cada tema devia comportar uma ligação com uma ou várias freguesias; todas as freguesias deviam ser contempladas. Nestas condições, foram retidos sete temas, distribuídos da seguinte forma pelas juntas de freguesia:

  • Visita da Rainha D. Filipa de Lencastre ao Convento de Fiães em 1837; tema proposto e realizado pela própria freguesia de Fiães;
  • Lenda da Senhora da Orada; pelas União das Freguesias da Vila e Roussas. pela União das Freguesias de Chaviães e Paços e pela freguesia de Cristóval;
  • Tomás das Quingostas; pela freguesia de São Paio;
  • A Revolução da Maria da Fonte; pelas freguesias de Penso e Alvaredo;
  • Termas do Peso no início do século XX; pela freguesia de Paderne e pela União de Freguesias de Prado e Remoães;
  • Castrejas com mulas de carga; pela União de Freguesias de Castro Laboreiro e Lamas de Mouro;
  • Casamento nos anos setenta; pela União de Freguesias de Parada do Monte e Cubalhão e pelas freguesias de Cousso e Gave.
04. Revolução da Maria da Fonte. Fotografia: Município

A realização dos temas coube às juntas de freguesia. Na prática, foram elas que, em pouco tempo, fizeram o cortejo, eventualmente em parceria com instituições, associações ou grupos locais. Acrescentaram ideias, exploraram soluções, mobilizaram recursos humanos e materiais. Com entrega e mestria, sempre com o acompanhamento e o apoio da Câmara Municipal. A festa é, antes de mais, de quem a faz!

A composição e a dinâmica do Cortejo impressionam pela proximidade e pelo convívio entre os participantes de todas as idades, pela interação, genuína e cordial, entre gerações. Sobressai, contudo, o protagonismo dos mais velhos.

Na atualidade, os mais velhos, com ou sem a bênção dos governantes centrais e regionais, oferecem-se como uma das riquezas do concelho de Melgaço.

Pode-se saltar o parágrafo a itálico. Trata-se apenas de um desabafo.

Prestes a terminar esta prosa sisuda, não resisto a desconversar. Melgaço consta entre os concelhos mais envelhecidos do País. Há apenas três décadas, as estruturas e organizações de apoio eram poucas e com reduzida cobertura territorial.  A situação inverteu-se graças a uma política local avisada e sustentada que assumiu como prioridade a qualidade de vida dos mais velhos. Em poucos anos, os serviços dedicados aos idosos passaram de deficitários a excedentários. Hoje, as instituições, públicas, sociais ou privadas, acolhem muitos utentes proveniente de outros concelhos. Apraz-me ter participado, no início dos anos 2000, na implementação da rede social concelhia e na elaboração do primeiro diagnóstico social e sequente plano de desenvolvimento social que elegeram a população idosa como prioridade da ação social local. Mas nem tudo depende da vontade local. A decisão remonta frequentemente a outros patamres. Atente-se, por exemplo, na rede viária e nos cuidados de saúde. Sem atender ao desempenho do Centro de Saúde local, recordo que o hospital de Viana do Castelo está a 100 Km e a 90 minutos de distância. Sucede que a necessidade de cuidados de saúde aumenta com a idade.

Por seu turno, a autoestrada A28 termina em Cerveira e a A3 em Valença. O caminho de ferro rematou em Monção. Parece que os investimentos decisivos têm a sina de abortar antes de chegar a Melgaço. A notoriedade do Tomás das Quingostas, bandido social que se opôs ao governo de outrora, talvez não seja mero acaso.

07. Tomás das Quingostas. Fotografia: Ana Macedo

Mas deixemo-nos de lamentações que sabemos inconsequentes.

Dez dias antes do cortejo, admitia estar ansioso em relação ao Cortejo Histórico. Inquietava-me o resultado e a receção (https://tendimag.com/2024/07/30/metamorfoses-em-berco-de-pedra/). Confesso-me duplamente satisfeito. Com a entrega e o brio das freguesias e dos participantes e com a afluência e o entusiasmo do público, na tarde mais tórrida do ano.

Propomo-nos dedicar sete artigos ao Cortejo Histórico de 2024. Um por tema. Serão publicados à medida que a respetiva documentação for considerada suficiente, sem seguir necessariamente a ordem cronológica do Cortejo.

As fontes resumem-se principalmente a duas: os arquivos do Município e as imagens captadas por um casal amigo, a Ana Macedo e o Miguel Bandeira. O apelo a partilhas não resultou.

Enfim, que tenha conhecimento, a comunicação social, a dita cobertura mediática, não correspondeu, salvo duas exceções: o jornal Voz de Melgaço, com um excelente vídeo dedicado ao baile do casamento (https://www.facebook.com/jornalvozdemelgaco/videos/1023897019126966?locale=pt_PT), e a Rádio Vale do Minho, com uma trintena de fotografias tiradas antes do desfile iniciar (https://www.radiovaledominho.com/lendas-e-momentos-historicos-desfilaram-pelas-ruas-de-melgaco-veja-as-fotos/). Como nunca percebi quais eram os critérios dos órgãos de informação, não me pronuncio sobre este desinteresse.

Acesso ao vídeo Cousso, Gave e Parada do Monte fecharam com notas de Valsa ‘casamenteira’ o Cortejo Histórico de Melgaco, pela Voz de Melgaço, colocado no Facebook em 10 de agosto de 2024

Em algumas pesquisas e na redação de um ou outro texto, beneficiámos da colaboração do Válter Alves e do Américo Rodrigues.

A Ana Macedo, historiadora, é investigadora no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade / UM e, aposentada, professora na Academia Sénior de Braga. Tive a honra de orientar a sua tese de doutoramento em Estudos Culturais.

O Miguel Bandeira, geógrafo, é professor no Instituto de Educação da Universidade do Minho, investigador no Centro de Estudos Comunicação e Sociedade / UM e, atualmente, pró-reitor da Universidade do Minho.

Cortejo Histórico em Melgaço. Colheita e o restolho

Penso escrever neste blogue um ou vários artigos, com fotografias, vídeos e textos, sobre o Cortejo Histórico do passado sábado, dia 10 de agosto, em Melgaço. Adianto esta galeria de fotografias, da autoria de Ana Macedo, colega e amiga bracarense, para apelar às pessoas que partilhem online as fotografias e os vídeos que eventualmente possuam. Embora a página do Município (https://www.facebook.com/municipiodemelgaco) já contemple acima de 120 fotografias, nunca serão de mais. Os UHF ou o Zé Amaro podem ser fotografados quase todos dias em muitos lugares. O Cortejo Histórico e os seus participantes, não! Trata-se de uma ocasião única.

Galeria. Cortejo Histórico em Melgaço 2024. Fotografias de Ana Macedo

No rescaldo do Cortejo Histórico, proporciona-se um pouco de música popular portuguesa. A Brigada Victor Jara é presença assídua no Tendências do Imaginário. Apraz-me acrescentar três canções: Rema, Charamba e São Gonçalo, do álbum Tamborileiro (1979).

Brigada Victor Jara – Rema. Tamborileiro, 1979
Brigada Victor Jara – “Charamba” (Açores). Tamborileiro, 1979
Brigada Victor Jara – São Gonçalo (Açores). Tamborileiro, 1979

Gostar de quem não gosta de nós

Cada vez me convenço mais que resulta mais gostoso gostar do que ser gostado, o que não é o mesmo que gostar de quem não gosta de nós. Pode acontecer, mas não necessariamente. Pelos vistos, sucede com o brasileiro Hyldon na canção “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda, de 1975. Trata-se de um cantor, compositor e instrumentista particularmente popular nos anos setenta, sendo considerado um dos precursores da música negra brasileira.

Hyldon – Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda. Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda, 1975
Hyldon – Na Sombra de Uma Árvore. Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda, 1975
Hyldon – Estrada Errada. Deus, a Natureza e a Música, 1976

Ninfas

“A zona mais erótica é a imaginação” (Vivienne Westwood)

Acabei de ser entrevistado sobre “o nu na sociedade contemporânea”. A ver o que dá! Para quem tiver curiosidade, a transmissão ocorrerá no programa A Voz do Cidadão, da RTP1, sábado às 14 horas. Proporcionou-se uma breve alusão, como exemplo do erotismo pretensamente artístico no cinema dos anos setenta, ao realizador, fotógrafo e escritor David Hamilton. Filmes, tais como Laura, les ombres de l’été (1979) e Bilitis (1977), obtiveram, a seu tempo, um sucesso apreciável, sendo, inclusivamente, estimados obras de culto. A sua lente, “esfumada”, convoca, a raiar a obsessão, mulheres adolescentes, “ninfas”.

Nascido em Londres em 1933, suicidou-se, supostamente, em 2016 em Paris. Até aos últimos anos de vida, foi alvo de várias acusações de abusos sexuais. Filmes, livros e fotografias foram, aliás, proibidos em alguns países.

Autodidacta, iniciou a sua carreira de fotógrafo já depois dos 30 anos, trabalhando para revistas de moda – e vendo o seu trabalho chegar a publicações como a Vogue ou a Photo.

O facto de eleger como “objecto” da sua câmara jovens adolescentes, ninfas virginais que fotografava em poses sensuais e eróticas, sempre com um filtro brumoso e em décors que deviam algo ao imaginário hippie, entre camas e prados floridos, elevaram-no a ícone da fotografia mundial. Passou inclusivamente a falar-se de um “estilo hamiltoniano” para classificar esta estética fotográfica – que Hamilton viria também a explorar no cinema, realizando meia dúzia de filmes entre 1975 e 1983, o mais citado dos quais é Bilitis (1977).

Simultaneamente, houve quem se indignasse e o acusasse de pornografia – e países como a África do Sul, por exemplo, censuraram os seus álbuns. As suas fotografias foram muitas vezes colocadas no centro do debate sobre as fronteiras entre a arte e a pornografia. (Público. Ípsilon. “Morreu David Hamilton, o polémico fotógrafo das “ninfas””,  26 de Novembro de 2016: https://www.publico.pt/2016/11/26/culturaipsilon/noticia/morreu-david-hamilton-o-polemico-fotografo-das-ninfas-1752784)

Recordo ter assistido ao filme Bilitis, em Montparnasse, na companhia de um amigo, por sinal, jesuíta! Provavelmente, poucos terão ouvido falar de David Hamilton e ainda menos visto os seus filmes. Em contrapartida, a música do filme, composta por Francis Lai, creio ser bastante conhecida. Seguem um trailer e a banda sonora do filme Bilitis.

Bilitis (trailer). Realizador: David Hamilton. 1977
Bilitis. Música do filme, de David Hamilton, composta por Francis Lai. 1977

O fóssil e a acendalha

Túmulo Borlando. Cemitério Monumental de Staglieno. Génova. 1920

Eros e Thanatos. Instintos de vida e morte. O amor é vida. Que a vida não o esqueça.
Norte-americana, com formação em canto operático, Minnie Riperton iniciou a sua carreira em soul, rythm e rock, aos 15 anos. A canção “Lovin’You”, do álbum Perfect Angel, foi um dos grandes sucessos da década de setenta. Morreu de cancro da mama, em 1979, com apenas trinta e um anos.
Os fósseis podem funcionar como acendalhas?

Minnie Riperton. Inside my love. Adventures in Paradise. 1975
Minnie Riperton. Lovin’You. Perfect Angel. 1974
Minnie Riperton. Light my fire (com José Feliciano). Minnie. 1979