Comoção
“E que comover vem do Latim commovere, “mobilizar, mover conjuntamente”, formado de com-, “junto”, mais movere, “mexer, deslocar, mover”. Uma pessoa comovida é alguém que foi retirada do seu estado natural pelo esforço de outros” (https://origemdapalavra.com.br/palavras/comover/).
Amigo desde a adolescência, John Ferreira, pianista e guitarrista, proprietário de um estúdio de gravação no Canadá, enviou-me dois vídeos de Lara Fabian. No primeiro, interpreta a canção Je Suis Malade [do coração], um cover de Serge Lama (ver ambos: https://tendimag.com/2020/08/30/serge-lama/). O segundo vídeo, com a canção Je t’aime, é um exemplo de comoção num concerto de música, de sensibilização e mobilização recíprocas por parte da artista e da audiência. Lamechice?
O protagonismo do traseiro

Com o anúncio Say It Witcha Booty, a marca de jeans G-Star RAW aposta no magnetismo do traseiro de todos os géneros. Atendendo às personagens e à exposição, predomina o feminino. Quanto aos olhares, não sei! A atração dos homens pelo traseiro das mulheres é proverbial. O inverso é menos evidente. A atenção ao traseiro masculino parece em vias de rivalizar com o foco no rosto, nos olhos e nas mãos. Pelo menos, um número significativo de mulheres confessa, na Internet, a sua fixação no traseiro masculino.
“Recentemente vi uma entrevista de uma actriz, que recordava o momento em que conheceu o noivo. Dizia ela que tinha ficado a olhar fixamente para o rabo dele. Disse também que preferia, mil vezes, ver um homem afastar-se do que aproximar-se de si, só para poder olhar para o rabo. Isto, para realçar a importância que dá ao rabo de um homem.” (https://www.homemsemblogue.pt/2014/01/elas-e-os-rabos-deles.html).
Que acrescentar? Nada. Talvez que a cotação estética, sensual e sexual do homem está em alta. Certo é que esta convicção se tornou viral, na rede e no público. Mantenho-me prudente. A experiência ensinou-me que quanto maior é o disparate maior é a credulidade. Quanto mais uma mensagem não se encaixa nos esquemas de perceção dos destinatários menores tendem a ser as suas defesas e o seu ceticismo. Por vezes até parece que se pretendes “pregar uma peta”, o mais avisado não é envolver o boato, a farsa, num manto de plausibilidade mas ofuscá-lo com um farol de improbabilidades. Quanto mais estapafúrdia for a mentira maior tende a ser a adesão.
A separação do amor

Aquando da inauguração do museu de Castro Laboreiro, um balanço inesperado inquietava os responsáveis: os donativos da população local manifestavam-se aquém das expetativas. Um problema de adesão?




Galeria: Núcleo Museológico de Castro Laboreiro. Melgaço.
Certo dia, a funcionária, de madrugada, ao abrir o museu depara-se com um embrulho plantado, no segredo da noite, na soleira da porta da entrada. Era uma peça digna de exposição, uma dádiva anónima, uma fatia discreta de uma identidade enraizada. O fenómeno repetiu-se. O motivo, afinal, não era o alheamento, mas a reserva e o recato tão caraterísticos dos castrejos.

Confinado em casa por doença durante os últimos onze meses, recebi durante todo o período uma escassa dúzia de visitas. Por causa da pandemia, as pessoas mais do que preservar-se entendiam preservar-me. Em contrapartida, surpreendeu-me esta nova prática que se tornou um hábito retomado por familiares e amigos. Recebia uma chamada: “Deixei uma lembrança à tua porta, trá-la para dentro porque pode estragar-se ao sol”. Aguardava-me, na maioria dos casos, um belo cabaz com fruta e legumes. As pessoas depositavam, sorrateiramente, à minha porta um pouco de si. Em tempos de separação, o cabaz é um traço-de-união, um barco, o “barco do amor”.
Amor adesivo
Há seres que de tanto se aproximar acabam colados. E de dois, se faz um. Acontece com CarlaLuís, no anúncio dos vinhos Alma Mora, e Brangelina, no anúncio da bebida Paso de los Toros. A mitologia grega habituou-nos a estas fusões: centauros, sereias, tritões… Nestes dois anúncios, a cola é o mel, o mel do amor. São ambos mais melosos do que um lago de gelatina. Nada como o golpe de misericórdia, o raio de Zeus que desfaz Brangelina e refaz Braulio e Angelina: “Cortá con tanta dulzura”. Por momentos, a atenção concentra-se na música Bailar pegados, canção espanhola interpretada por Sergio Dalma no Festival da Eurovisão de 1991. Sobra a sensação de que parte do segundo anúncio se inspira no primeiro. Mas, no mundo da vida, mais vale inspirar do que expirar.
Marca: Alma Mora. Título: CarlaLuís. Agência: La Comunidad. Direcção: Juan Cabral. Argentina, Novembro 2013.
Marca: Paso de los Toros. Título: Brangelina. Agência: Corporación JWT . Direcção: Javier Palleiro. Uruguai, Abril 2014.
Sergio Dalma. Bailar Pegados. Festival da Eurovisão de 1991
