Uma vida por viver

No final da Idade Média, acreditava-se que, na hora da morte, os moribundos reviviam os momentos mais marcantes de suas vidas. Esta crença não desapareceu. O anúncio Una vida por ver, da Movistar, operadora de telemóveis ibero-americana, é distinto. Não se trata de uma “revisão do passado” mas de uma “visão do futuro”, da vida que a morte amputou. Não é um rewind nem um forward, mas um retrocesso do futuro para o presente. (A família, um valor tradicional, 27.09.2018)
Gato Preto
Pode cair o céu, pouco importa, desde que haja conserto.
15º Aniversário do Tendências do Imaginário

Este blogue completa hoje 15 anos. Atendendo aquilo que ao que o tempo representa na Internet, é um ancião, maneira simpática de dizer velho. Para comemorar, coloco o primeiro artigo, “Macabro, mas não tanto!”, publicado no dia 30 de agosto de 2011. Não é, porém, o meu primeiro post. Administrei anteriormente um outro blogspot com início anterior a 2008.
Jovens para sempre

A representação social das “idades da vida” muda substantivamente consoante os períodos históricos. A imagem da velhice conheceu, assim, altos e baixos. Desde há poucas décadas, assiste-se, por vários motivos, à sua “revalorização” e “revitalização, senão “rejuvenescimento”.
Observa-se o fenómeno em vários domínios, nomeadamente a publicidade, por exemplo nos anúncios “Unlimited Youth”, de 2016, no artigo A Juventude não tem idade, e “Years of Magic”, de 2018, no artigo A segunda juventude: os super avós. Em alguns casos, frisa-se a hipérbole, quase o delírio, como no anúncio “Aidez-nous à sauver des vies”, de 2017, no artigo A Super Avó, que lembra, precisamente, a série Super Gran, dos anos oitenta.
Atenção às partes!

O dia 3 de agosto foi fértil em artigos dignos de resgate. Empacoto três com anúncios e assuntos cativantes.

O anúncio “Protect yourself”, no artigo Pós-falocracia (2013), justifica dúvidas: é da Durex ou de uma seguradora? A favor dos preservativos ou contra filhos?
“Bike & Bier – Belgium 2014”, em A Parte e o Corpo (2014), substitui a proteção das partes pela sua divisão, com humor belga ou brasileiro.
“Religion. Does God exist?”, em A ciência, a bicicleta, a cigarra e a formiga (2015), coloca um mestre, com certezas, em apuros perante um aluno, com convicções. Aproveito para retomar algumas impertinências.
Einstein com 5 anos, ca. 1884
Anúncio português vintage 2. Lápis
Nos anos noventa, multiplicam-se os anúncios alegóricos minimalistas. “Lápis”, da Campanha de Segurança Rodoviária, ilustra, de forma paciente e didática, os riscos irrefletidos da condução sob efeito de álcool.
Conduzir pode matar!
Hoje fui à Universidade assistir à homenagem a quatro ex-colegas: Jean-Martin Rabot, José Neves, Carlos Veiga e Ivo Domingues. Em conversa de bar, o Joaquim Costa admitiu que a sua principal preocupação ao conduzir era adormecer. Estava encontrado o tema do artigo do dia.
Existem campanhas de prevenção rodoviária bastante semelhantes às antitabaco. Homólogas, recorrem aos mesmos princípios e visam os mesmos efeitos: suscitar receio, emoções e sentimentos; responsabilizar e culpabilizar. Os anúncios que seguem lembram, nesta óptica, as fotografias legendadas dos maços de cigarros.
Em “Enterrement”, do Institut Belge pour la Sécurité Routière, várias pessoas são “convidadas” a assistir à cerimónia do seu próprio funeral após um acidente rodoviário evitável. O discurso de despedida é proferido pelos próprios familiares que aceitaram aderir à encenação.
Em “La Dernière Classe”, da Sécurité Routière francesa, um condutor, distraído pelo telemóvel, mata uma jovem que atravessa uma passadeira. É (ir)responsável e culpado.
Em “Perte de Controle”, também da Securité Routière francesa, a imprudência, ou o excesso de confiança, de um jovem motociclista provoca a sua desgraça e de toda a família.
Anúncios desta índole abundam. Acrescento apenas um português apostado em ilustrar as consequências do adormecimento ao volante.
Oásis

Ousei queixar-me do vento que, teimoso, levava os meus artigos para o deserto. Nem sombra de reação! Valeu a pena perseverar uma dezena de anos. Surgiram, entretanto, alguns oásis. Na verdade, algum feedback consola.
Por inércia própria, ou alheia, continuo isolado. As saídas resumem-se a afazeres mais ou menos exigentes. A geografia biográfica resulta acanhada: frente ao computador, descubro, crio e escrevo; na varanda, fumo e francisco com a natureza; na cozinha, restauro-me, engulo comprimidos e insisto em fumar, junto ao exaustor; no quarto, escuto música e vejo documentários. Na sala, tento ler, mas à segunda página bocejo e à quinta sonho. Se jardinasse e não pecasse a fumar, não estaria longe da regra de S. Bento. Não sei o que aconteceu, mas o social e o semelhante motivam-me pouco. Neste quadro, a amizade das mensagens eletróncias amigas manifesta-se bem-vinda!
A Lígia Fernandes enviou-me, a semana passada, o anúncio “The Desk Break”, da ASICS. Já o tinha publicado no Tendências do Imaginário logo a seguir à estreia, no primeiro de outubro (ver Movimento e Poder) . Mas, como diria McLuhan, mais do que o conteúdo, o que conta é o gesto. Tanto assim que recoloco o anúncio. Já somos dois a apreciá-lo! Acresce que, graças à iniciativa da Lígia, acabei por resgatar o anúncio “Aidez-nous à sauver des vies!”, da Croix-Rouge Française, esquecido, como muitos outros, na lista de marcadores.
Apesar de comercial, considero “The Desk Break” um anúncio de consciencialização; “Aidez-nous à sauver des vies”, de sensibilização. Consciencialização / sensibilização, quem é capaz de enxergar a diferença?
Flutuar

Quando a vida é um acidente constante, “a cabeça não tem juízo… e o corpo é que paga”, o melhor é flutuar. Assim o entende o anúncio Marie finds her flow, da Lego, que culmina com um piscar de olho à sua parceira Adidas.
Acerca da importância do voo, da leveza e da levitação no imaginário, ver os artigos Leveza e turbulência na pintura de Goya; e A civilização da leveza.
António Variações, O corpo é que paga:

