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Inocência e Maldade

Codex Gigas / Bíblia do Diabo. Século XIII. Biblioteca Nacional da Suécia (Estocolmo). A Bíblia do Diabo é o maior manuscrito medieval conhecido. Pesa cerca de 75 quilos. Esta ilustração do diabo está na página 577.

As crianças são adoráveis. Verdade? Contam-se às dezenas os filmes, e os anúncios publicitários, em que as crianças surgem possessas e perigosas. Por exemplo, A profecia (1977), The Shining (1980), Os Filhos da Terra (1984), A Cidade dos Malditos (1995), O Sexto Sentido (1999) ou A Orfã (2007). O trailer The Power of Ideas, do Newport Beach Film Festival, envereda por esse caminho. Por trejeitos mágicos, numa espécie de vudu, uma criança provoca uma série de acidentes humanos. Há tempo para no final aludir ao Exorcista (1973). Estas imagens são chocantes. Colidem com os nossos esquemas mentais. Não estamos habituados à associação da inocência e da crueldade, nem sequer à figura do anjo demoníaco. Até os “anjos caídos”, entre os quais Lúcifer, começam bons e acabam maus, mas não se oferecem bons e maus ao mesmo tempo. Mas a inocência pode abraçar a maldade. Espreite-se, por exemplo, a duplicidade de alguns heróis dos animes.

Marca: Newport Beach Film Festival. Título: The Power of Ideas. Agência: RPA. Direcção: Johan Stahl. Estados Unidos, Abril 2019.

Doçura

“A natureza fez o comer para o viver, & a gula fez o comer muito para o viver pouco” (Padre António Vieira, Sermão da quarta Dominga depois da Páscoa, Sermoens do P. Antonio Vieira, 1692).

Dez segundos bastam para um anúncio ter história, humor e impacto. A campanha indiana da marca Pulse Candy acomoda três anúncios na duração de um anúncio normal. As doçuras Pulse Candy são uma tentação perigosa…
Estes pequenos anúncios da Pulse Candy lembram um anúncio indiano fantástico, Palace, às pastilhas elásticas Happydent. Pode aceder no seguinte artigo: https://tendimag.com/2014/08/27/dentes-brilhantes/.

Marca: Pulse Candy. Título: Astronaut. Agência: J Walter Thompson. Direcção: Shirish Daiya. Índia, Dezembro 2018.
Marca: Pulse Candy. Título: Swing. Agência: J Walter Thompson. Direcção: Shirish Daiya. Índia, Dezembro 2018.
Marca: Pulse Candy. Título: Bedroom. Agência: J Walter Thompson. Direcção: Shirish Daiya. Índia, Dezembro 2018.

A família, um valor tradicional

Ronald Inglehart and Christian Welzel, Modernization, Cultural Change and Democracy. 2005. page 63

Gráfico 01. Ronald Inglehart and Christian Welzel, Modernization, Cultural Change and Democracy. 2005. page 63

No final da Idade Média, acreditava-se que, na hora da morte, os moribundos reviviam os momentos mais marcantes de suas vidas. Esta crença não desapareceu. O anúncio Una vida por ver, da Movistar, operadora de telemóveis ibero-americana, é distinto. Não se trata de uma “revisão do passado” mas de uma “visão do futuro”, da vida que a morte amputou. Não é um rewind nem um forward, mas um retrocesso do futuro para o presente.

Que vida desperdiçou o jovem acidentado? Uma vida em família. Anos e anos, em companhia da mulher e da filha. Nem mais, nem menos. A família é encarada como um importante valor tradicional. Curiosamente, a cobertura da Movistar incide sobre um agregado de países latinos caracterizados, segundo Ronald Inglehart e Christian Welzel, pelo apego aos valores tradicionais (ver gráfico 01).

Marca: Movistar. Título: Una vida por ver. Agência: Young & Rubicam Santiago. Direcção: Diego Núñez Irigoyen. Chile, Setembro 2018.

 

O discurso do morto

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A publicidade é omnívora: tudo serve desde que se preste. Nestes anúncios da AT&T, companhia americana de telecomunicações, os mortos são convocados para sensibilizar os vivos. Que os mortos falam é coisa em que se acredita. Comprovam-no as mesas falantes. Não dançam? Não comem? Não bebem? Não aparecem? Então por que não haviam de falar?

No anúncio The Face of Distracted Driving / It Can Wait, inteiramo-nos como Caleb e Forrest encaravam a sua vida e que aparência teriam caso não tivesse ocorrido o acidente, por uso indevido do telemóvel, que os vitimou.

Marca: AT&T. Título: The Face of Distracted Driving / It Can Wait: Caleb. Agência: BBDO New York. Direcção: Errol Morris. Estados Unidos, Maio 2018.

Marca: AT&T. Título: The Face of Distracted Driving / It Can Wait: Forrest. Agência: BBDO New York. Direcção: Errol Morris. Estados Unidos, Maio 2018.

A Super Avó

Mai 1968

Paris. Maio 1968

“Sejam realistas, peçam o impossível” (slogan de Maio 1968). Já não sou realista; contento-me com o desejável. Se rir é apanágio do homem (François Rabelais), partilhar é próprio de todos os animais, incluindo o homem. Dê, mas olhe a quem! Para salvar vidas, não precisa dos poderes da Super Avó (Super Gran), A fazer fé na Cruz Vermelha Francesa, basta vontade e dinheiro.

Anunciante: Croix-Rouge Française. Título: Aidez-nous à sauver des vies. Agência : Altmann + Pacreau. Direcção : David Bertram. Junho 2017.

Super Gran. Reino Unido, 1985-1987.

De bicicleta até ao fim do mundo

Katie Melua Piede by piece

“I’ve seen things you people wouldn’t believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die.” (Blade Runner, Tears in Rain).

Vi muitos anúncios de consciencialização: moralistas, solidários, sentenciosos, cómicos, grotescos, depreciativos, cruéis, tétricos, estúpidos, mas não dei conta de nenhum anúncio cínico. Le Cicliste, da Police cantonale de Fribourg, colmata a lacuna. Pedalar com presunção e euforia pode ser funesto; 50% dos ciclistas morrem por culpa própria. Quanto mais parvo ao pedal, mais depressa se chega ao outro mundo.

Para acompanhar, Katie Melua, 9 million bicycles.

Marca: Police Cantonale Fribourg. Título: Le Cicliste. Agência: Helvetics. Direcção: Jérôme Piguet & Raphael Sibilla. Suíça, Abril 2017.

Katie Melua, 9 million bicycles. Piece by piece. 2005.

Era uma vez a morte

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William Blake. Death on a pale horse, c 1800.

Às vezes, as ideias nascem por cesariana. Há quem sonhe com a própria morte. Vejo-me tão trespassado que até me custa acordar. Mas os oráculos garantem que é bom sinal: “Sonhar com a própria morte tem um significado positivo por isso não se preocupe e fique com medo, pois, sonhar com morte é sinal de prosperidade e saúde, vida longa, é sinal de que algum acontecimento grande poderá acontecer em sua vida” (http://significadodossonhosonline.net/significado-dos-sonhos-com-morte.html). Pior do que sonhar com a própria morte é viver a própria morte. É o que sucede com o simulacro do anúncio Your Funeral do Institut Belge pour la Sécurité Routière: arautos fúnebres e almas atónitas. Uma emoção do outro mundo.

Quando andava na escola primária alguns professores gritavam tão alto que nem se ouvia o sino. Além da acústica, preponderava a mecânica pedagógica: palmatória, régua, cana. Há quem sustente que o melhor método para inculcar uma ideia a alguém é bater-lhe com a cabeça na parede. Chama-se a esta forma de sensibilização propedêutica de choque. Não sei a que propósito vem este arrazoado. Há quem tenha falhas de pensamento e há quem tenha excessos. No meu caso, tenho fumarolas vulcânicas.

O anúncio Insoutenable, da Sécurité Routière francesa, faz jus ao título. Uma história bem contada de um acidente rodoviário, talhada para um voyeurismo abutre. Mikhail Bakhtin falava em realismo grotesco. Insoutenable releva de um hiper-realismo grotesco, no sentido de Wolfgang Kayser. Provoca náuseas. A cabeça contra a parede! Não sei se este género de anúncio é um novo tipo de vacina. De qualquer modo, Insoutenable conquistou um Leão de Ouro no Festival Internacional de la Créativité de Cannes, categoria Cyber, em 2011. Não será má ideia levar o gosto à revisão.

Portugal desenvolveu uma modalidade de prevenção rodoviária original: a prevenção rodoviária musicada. Escute-se a canção Vem Devagar Emigrante, de Graciano Saga.

Anunciante: Institut Belge pour la Sécurité Routière. Título: Enterrement. Agência: 20something Annonceur. Bélgica, Abril 2014.

Anunciante: Sécurité Routière. Título: Insoutenable. Agência: Lowe. França, 2010.

Graciano Saga. Vem Devagar Emigrante. 1994.

Distração Fatal

att-the-unseenThe Unseen, da AT&T, é um anúncio de prevenção rodoviária. Especial. Alerta sobre os riscos decorrentes de usos abusivos dos próprios produtos: atender ao telemóvel ou escrever mensagens enquanto se conduz. Não é a primeira vez que a AT&T recorre a este esquema (ver Close to Home, It Can Wait, 2015). É uma opção em expansão. Estamos perante uma nova modalidade, engenhosa, de publicidade de consciencialização.

O anúncio é primoroso. Os contextos, os protagonistas e os comportamentos são gizados e caracterizados ao mais ínfimo pormenor. Normais, as pessoas são encantadoras. O pai leva as filhas à escola. A mãe dá pela falta do cão. Liga ao marido. Este não atende, “it can wait”. Estaciona o carro para falar. Um rapaz “aparece” no banco de trás. Conversam. O rapaz desaparece. “Só”, o pai atende o telemóvel enquanto conduz. Atropela uma criança, aquela que lhe tinha aparecido no carro. “ You’re never alone on the road”. “Distracted Driving is never OK”. A aparição da vítima releva de uma espécie de premonição. Constitui o momento fulcral do anúncio. A premonição, crença arreigada na nossa história e na nossa cultura, não funcionou como aviso mas como prenúncio de morte. Em suma, um anúncio com impacto.

Marca: AT&T. Título: The Unseen. Agência: BBDO New York. Direcção: Frederic Planchon. USA, Setembro 2016.

A Sociedade da Prevenção

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Macabro, mas não tanto! (30 de Agosto de 2011)

Este anúncio (Death), produzido pela agência Fitzroy, de Amesterdão, foi recusado pela Hyundai que o considerou demasiado chocante para a marca. A Hyundai não se opôs, porém, à circulação viral. Trata-se de um anúncio proibido na televisão mas tolerado na internet.

Marca: Hyundai Veloster. Título: Death. Agência: Fitzroy, Amsterdam. Direcção: Tom Rijpert. Holanda, Agosto 2011.

“Macabro, mas não tanto” é o título do primeiro artigo do Tendências do Imaginário. Uma entrada pelo tema da morte no imaginário contemporâneo.

Georges Balandier e Michel Maffesoli sublinham a importância da noção de projecto como mote de uma modernidade disposta sacrificar o presente em nome de uma promessa.

Um dos principais motes da sociedade actual é a prevenção, postura pouco pós-moderna. Multiplicaram-se, em poucas décadas, os dispositivos votados à prevenção. Na saúde, nos mercados, na educação, na comunicação, nas novas tecnologias, no crime, na violência, nos corpos… A prevenção (i)mobiliza-nos. E acena com a morte. Se não fores previdente, corres o risco de morrer! Os espantalhos e os fantasmas da morte assombram as campanhas contra o tabaco, o alcoolismo, a toxicodependência, a sida, a obesidade ou o sedentarismo. Impressiona o prenúncio de morte repetido nos maços de tabaco. A morte ergue-se como o grande argumento de salvação.

Marca: Heineken. Título: When You Drive, Never Drink. Agência: Publicis (Itália). Itália, Setembro 2016.

Regressemos ao anúncio Death, um anúncio de sensiblização da Hyundai, para ilustrar a segurança do automóvel. A morte é protagonista. Nesta semana, visualizei sete anúncios novos associados à prevenção rodoviária. Cinco convocam a morte: três jovens atropelados em passadeiras; duas vítimas mortais em choque de viaturas. Acresce um despiste de uma mota em que o condutor não morre mas fica paraplégico. Estes anúncios foram produzidos por entidades oficiais. Todos acenam com a figura, terrível, da morte e, eventualmente, da incapacitação. A presença da morte é incontornável? Nem por isso. Lançado este Setembro, o anúncio da Heineken, When you drive never drink, com Jackie Stewart, conjuga a promoção da marca com a prevenção rodoviária, sem qualquer alusão à morte. Não é caso único.

Desenha-se uma nova tendência: contemplar o lastro da morte, uma vez que a morte de uma pessoa afeta familiares, amigos e próximos. No anúncio Dernière Classe, da Sécurité Routière, dirigido por Bruno Aveillan, a morte aflige os vivos. Faz sentido: “A morte é um problema dos vivos. Os mortos não têm problemas” (Norbert Elias, La Soledad de los Moribundos, México, Fondo de Cultura Económica, 1989, p. 10).

Anunciante: Sécurité Rodoviaire. Título: La Dernière Classe. Agência: La Chose. Direcção: Bruno Aveillan. França, Agosto 2016.

Nas sociedades modernas, a morte é afastada da vida corrente. Atente-se na localização, no entorno e no desenho dos cemitérios ou na crescente “solidão dos moribundos”. O testemunho do ato de morrer é cada vez mais burocratizado e filtrado. A experiência da morte atrofia-se ou eufemiza-se (Louis-Vincent Thomas, Civilisation et divagations. Mort, fantasmes, science-fiction, Payot, 1979). Nos últimos séculos, cavou-se a “separação entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos” (Philippe Ariès, Essais sur l’histoire de la mort en Occident, Paris, Seuil, 1975). Esta tendência acentua-se a partir do século XIX. Não deixa de intrigar que esta tendência ao isolamento discreto da morte coabite, hoje, com uma profusão de imagens da morte na arte, no cinema, nos vídeos musicais, nos videojogos, na publicidade, na banda desenhada, nas tatuagens… Uma dança macabra. Dos muros dos cemitérios e das igrejas medievais para os ecrãs da nossa disponibilidade mental. A morte alcança uma visibilidade simbólica desmedida. Às vezes, faz lembrar um comboio fantasma.

Distracção fatal

Campanha contra a droga

Campanha contra a droga

A publicidade anda necrófila. Volta e meia, repete o mote: “Se insistir, morre!” A Maria João enviou-me o anúncio suíço “Anastase: The Magic Trick”, da Polícia de Lausanne. Escrever mensagens e ouvir música  num smartphone na rua é fatal. Como ilustração, um jovem é atropelado por um carro. “Abracadabra! Se tu também queres realizar este truque incrível [a morte], basta um telefone móvel, alguns excertos de música, uma aplicação sms e, sobretudo, um pouco de inatenção”. Com humor negro, ficamos elucidados: o abuso do smartphone mata. Como o álcool, a droga, a obesidade, o tabaco.

Campanha contra o alcool

Campanha contra o alcool

Desconversemos.

O uso indevido do smartphone mata. E o resto, não mata, nem morre? Eis uma pitada de absurdo lógico.

A política, o desporto, o amor, o sexo, o sol, os medicamentos e os hospitais, não matam? Até o ridículo.

A OMS, que se presta a estes alertas, bem podia discriminar uma lista exaustiva com tudo quanto mata. Morreríamos mais felizes, para sempre!

Campanha contra a obesidade

Campanha contra a obesidade

Scotland Against Narcotics

Scotland Against Narcotics

O meu rapaz, que detesta absurdos lógicos, corrige: sustentar que o uso indevido do smartphone mata não significa que a ligação seja linear nem geral. Basta meia dúzia de vítimas para se poder afirmar que o “smartphone” mata. Assim, relativizada, a sentença de que o smartphone mata tende a esvaziar-se. O que incha, desincha e passa. O uso do smartphone na rua não mata, pode matar. Matar, sem mais nem menos, é um concentrado votado à propaganda.

Segundo a Polícia de Lausanne, na Suíça, em 2013, “1100 pessoas foram gravemente feridas ou faleceram devido à distracção. Entre os peões, 66% reconhecem que telefonam ou ouvem música durante as suas deslocações a pé”. Algumas informações têm o condão de desinformar: das 1100 pessoas, quantas morreram? Para além do smartphone, que outras fontes de distracção estão contempladas? Os números prestam-se a diversas embalagens.

Anunciante: Police de Lausanne. Título: Anastase: the magic trick.  Direcção: Raphael Sibilla & Jerôme Piguet. Suíça, Maio 2015.