A Química dos Abraços

Nunca apreciei o ritual do beijo de cumprimento à francesa, uma espécie de beijo ao infinito.
O beijo de cumprimento à francesa (a bise) é um gesto social bastante comum na França e em outros países francófonos. Eis como ele funciona, na prática:
Como fazer
Não é um beijo de verdade: normalmente as pessoas encostam as bochechas e fazem um leve som de beijo no ar.
Começa-se pela bochecha direita da outra pessoa (ou seja, você vira o rosto para a esquerda).
Os lábios quase nunca tocam a pele. (ChatGPT, 02.02.2021)
“La campaña El juego de los abrazos, desarrollada por La Diputación Foral de Gipuzkoa, buscó promover el bienestar emocional, fortalecer los vínculos personales y apoyar a quienes atraviesan momentos de soledad o dificultad.
El juego de los abrazos nace en un contexto marcado por el ritmo acelerado de la vida diaria, el estrés y el aumento de la soledad no deseada. Frente a ello, la Diputación propone una acción cercana, accesible y participativa que se articula en torno a una caja solidaria.
La dinámica es sencilla: sacar una tarjeta, compartir el abrazo que indica y repetir sin límite.
Según numerosas investigaciones médicas, sociales y científicas abrazar no solo reconforta, también cuida. Cuando abrazamos, el cuerpo libera dopamina, serotonina y oxitocina, conocidas como las hormonas de la felicidad, la calma y el vínculo. Gracias a ellas, un abrazo de apenas 10 segundos puede ayudar al cuerpo a combatir infecciones, aliviar síntomas de depresión y reducir la fatiga. Y si lo prolongamos hasta los 20 segundos, sus efectos se multiplican: disminuye el impacto del estrés, mejora la presión arterial y fortalece el sistema inmunológico.
Es por eso que la Diputación Foral de Gipuzkoa busca promover que este juego lúdico-familiar se convierta en el regalo de estas Navidades y más allá de ellas.
La campaña se apoya en un audiovisual de 60 segundos que consta de un relatoque pone el foco en los silencios, la distancia y la reconciliación, y que recuerda que, a veces, un abrazo es la forma más directa de volver a encontrarnos cuando las palabras no bastan.
La caja tiene un precio de 3 euros, que se destina como donativo íntegro al Teléfono de la Esperanza, entidad que acompaña cada año a más de 60.000 personas que atraviesan momentos de soledad, angustia o sufrimiento emocional.
De este modo, la iniciativa amplía su impacto más allá del ámbito familiar y comunitario, con el objetivo de contribuir a que muchas personas encuentren apoyo, escucha y acompañamiento cuando más lo necesitan.”
(Adlatina – Nuevo: la Diputación Foral de Gipuzkoa reivindica el poder de los abrazos, 02.01.2026)
Abraço digital

Não esqueças que o teu filho não é teu filho, mas o filho do seu tempo. (Confúcio)

Na tarde de sexta, 28, a família dividiu-se. O filho defendeu provas de doutoramento em Engenharia Mecânica, em Guimarães e o pai teve a conferência “Com o Filho no Colo: as esculturas da humildade e da piedade” em Braga. O abraço acabou por resultar extemporâneo. Compenso com este digital. Como não me sobra frescura, recorro a memórias musicais de estimação. [Não vai ter tempo para escutar]
Tempo de abraçar

O tempo já não é teu e meu. É alheio. Abraça, abraça, que o abraço, esse, este, ainda é nosso.
A canção “Le Temps” estreou em 1964, tinha Charles Aznavour 40 anos. Neste vídeo respeitante a uma interpretação de 1994, tinha 70 anos. Faleceu aos 94 anos no dia 1 outubro de 2018.
Le temps (Charles Aznavour)
Le temps qui va
Le temps qui sommeille
Le temps sans joie
Le temps des merveilles
Le temps d’un jour
Temps d’une seconde
Le temps qui court
Ou celui qui grondeLe temps, le temps
Le temps et rien d’autre
Le tien, le mien
Celui qu’on veut nôtre
Le temps, le temps
Le temps et rien d’autre
Le tien, le mien
Celui qu’on veut nôtreLe temps passé
Celui qui va naître
Le temps d’aimer
Et de disparaître
Le temps des pleurs
Le temps de la chance
Le temps qui meurt
Le temps des vacancesLe temps, le temps
Le temps et rien d’autre
Le tien, le mien
Celui qu’on veut nôtre
Le temps, le temps
Le temps et rien d’autre
Le tien, le mien
Celui qu’on veut nôtreLe temps glorieux
Le temps d’avant-guerre
Le temps des jeux
Le temps des affaires
Le temps joyeux
Le temps des mensonges
Le temps frileux
Et le temps des songesLe temps des crues
Le temps des folies
Le temps perdu
Le temps de la vie
Le temps qui vient
Jamais ne s’arrête
Et je sais bien
Que la vie est faiteDu temps des uns
Et du temps des autres
Le tien, le mien
Peut devenir nôtre
Le temps des uns
Et le temps des autres
Le tien, le mien
Peut devenir nôtre
Le tempsLe temps des uns
Et le temps des autres
Le tien, le mien
Peut devenir nôtre
Le temps des uns
Et le temps des autres
Le tien, le mien
Peut devenir nôtre
Le tempsLe temps, le temps, le temps
O tempo que resta
O desencanto com as novas tecnologias está a ganhar expressão. Muitos anúncios recorrem a encenações que, paradoxalmente, geram um efeito acrescido de realidade. São mais reais do que o real. O anúncio El Tiempo Que Nos Queda, da Ruavieja, dá-nos a ver um filme sob forma de reportagem. O desencanto com as novas tecnologias está a aumentar. Está em jogo a amizade e o amor. As novas tecnologias podem sobreaquecer-nos, mas é um sobreaquecimento que arrefece. Ao abraço virtual falta-lhe o corpo a corpo: o calor humano. O tempo não é infinito, não temos todo o tempo do mundo. O tempo que dedicamos a uma actividade falta a outras actividades.
“É uma contradição, não há lugar para dúvida. A gente afirma que os seus seres mais queridos são o mais importante. Mas a distribuição do seu tempo não mostra isso. Isto tem a ver com o modo como funciona o nosso cérebro. Estamos programados para evitar pensar no tempo que nos resta para viver. Temos, assim, a sensação de que sempre teremos a oportunidade de fazer as coisas que nos fazem felizes” (anúncio El Tiempo Que Nos Queda).
Marca: Ruavieja. Título: El Tiempo Que Nos Queda. Agência: Leo Burnett España. Direcção: Feliz Fernandez de Castro. Espanha, Novembro 2018.
Assenta bem uma dose de contradição. “As novas tecnologias podem sobreaquecer-nos, mas é um sobreaquecimento que arrefece. Ao abraço virtual falta-lhe o corpo a corpo: o calor humano”. Quem conheceu o desenraizamento sabe que o ser humano é um devorador de símbolos. Uma lembrança, um objecto, uma voz, uma fotografia, não é preciso muito para nos sobreaquecer. A imagem propicia calor humano. Os abraços virtuais multiplicam e aceleram o contacto entre pessoas distantes. É uma das vantagens da emigração actual. O corpo não é apenas carne.
Tese e antítese dá Um Dia de Domingo, de Gal Costa.
Music video by Gal Costa performing Um Dia De Domingo. (C) 2013 Universal Music Ltda.
Abraços
Esgotam-se as fontes de carinho. De tanto correr, secam. Convertem-se em cruzes. Um gesto, um olhar, uma palavra… Um abraço. Como são imateriais os abraços da saudade! Solos de alaúde sem cordas… Na Idade Média também conheciam o prazer do abraço. Tanto corpo contra tanto corpo! Seguem um solo de alaúde com cordas e três abraços medievais. Um lembra o Beijo de Klimt. Todos davam belos postais ilustrados.
- Codex Manesse Herr Conrad von Altestetten. C. 1340.
- Master of Guillebert de Mets. Decoração marginal. 1425
- Giacomo Jaquerio (c. 1375-1453). A Fonte da Vida (detalhe).
Aproximar o próximo
Deparei-me, na Internet, com este anúncio português em versão inglesa. Não encontrei a versão portuguesa. Mas a crer no slogan de fecho “O próximo mais próximo”, ela existe algures. O compasso lento das imagens justifica o minuto e meio de duração e lembra, por vezes, o estilo de Bruno Aveillan. Nem sempre é possível dar um abraço. A distância interpõe-se. E não há modo de o substituir, nem sequer pela audição ou pela visão. Não há corpo que o sustente. Um abraço pede a pele, pede a carne.
Marca: Unitel. Título: Bring your closest ones closer. Agência: Ogilvy & Mather. Portugal, Novembro 2014.





