Com as mãos vazias e o coração cheio

Lhasa de Sela oferece-se como um dos meus encantos. Deixou-nos sem uma voz e uma presença insubstituíveis faz 15 anos, com 37 anos de idade. A Almerinda Van Der Giezen acaba de me enviar esta interpretação da canção “J’arrive à la ville”, na sua cidade de adoção, Montréal, em 2005. Uma bênção!
Moi aussi
Moi aussi
J′arrive les mains vides
Au sud du nord
Au nord du sud
J′ai un passé
Mais j’m′en sers pas
(Llasa de Sela)
Com o Filho no Colo. Evento no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa

Há três anos na forja (desde a conferência “O Olhar de Deus na Cruz: O Cristo Estrábico”, em novembro de 2022), a conversa “Com o Filho no Colo: As Esculturas da Humildade e da Piedade” aproxima-se. Ocorrerá no dia 28 de novembro, às 16 hora. O Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, que a acolhe no respetivo auditório, é uma das instituições organizadoras. Destaca-a no programa de eventos mensal. Para aceder à notícia detalhada, carregar numa das imagens ou no link: https://www.museuddiogodesousa.gov.pt/event-item/com-o-filho-no-colo-as-esculturas-da-humildade-e-da-piedade/

Um (v)eu entre vazios

Nous ne croyons plus que la vérité demeure vérité si on lui enlève son voile ; nous avons assez vécu pour écrire cela [Já não acreditamos que a verdade permaneça verdade se lhe retiramos o seu véu; temos vivido o suficiente para escrever isso] (Friedrich Nietzsche, Le Gai Savoir, 1882)
Com 91 anos, Charles Aznavour canta “Hier Encore” em Yerevan, capital do seu país natal, a Arménia. Nunca é tarde para demandar o ninho, com ou sem penas.
Tempo de abraçar

O tempo já não é teu e meu. É alheio. Abraça, abraça, que o abraço, esse, este, ainda é nosso.
A canção “Le Temps” estreou em 1964, tinha Charles Aznavour 40 anos. Neste vídeo respeitante a uma interpretação de 1994, tinha 70 anos. Faleceu aos 94 anos no dia 1 outubro de 2018.
Le temps (Charles Aznavour)
Le temps qui va
Le temps qui sommeille
Le temps sans joie
Le temps des merveilles
Le temps d’un jour
Temps d’une seconde
Le temps qui court
Ou celui qui grondeLe temps, le temps
Le temps et rien d’autre
Le tien, le mien
Celui qu’on veut nôtre
Le temps, le temps
Le temps et rien d’autre
Le tien, le mien
Celui qu’on veut nôtreLe temps passé
Celui qui va naître
Le temps d’aimer
Et de disparaître
Le temps des pleurs
Le temps de la chance
Le temps qui meurt
Le temps des vacancesLe temps, le temps
Le temps et rien d’autre
Le tien, le mien
Celui qu’on veut nôtre
Le temps, le temps
Le temps et rien d’autre
Le tien, le mien
Celui qu’on veut nôtreLe temps glorieux
Le temps d’avant-guerre
Le temps des jeux
Le temps des affaires
Le temps joyeux
Le temps des mensonges
Le temps frileux
Et le temps des songesLe temps des crues
Le temps des folies
Le temps perdu
Le temps de la vie
Le temps qui vient
Jamais ne s’arrête
Et je sais bien
Que la vie est faiteDu temps des uns
Et du temps des autres
Le tien, le mien
Peut devenir nôtre
Le temps des uns
Et le temps des autres
Le tien, le mien
Peut devenir nôtre
Le tempsLe temps des uns
Et le temps des autres
Le tien, le mien
Peut devenir nôtre
Le temps des uns
Et le temps des autres
Le tien, le mien
Peut devenir nôtre
Le tempsLe temps, le temps, le temps
Quão Real É O Real? O Universo Da Neurotopia

How Real Is Real? Confusion, Disinformation, Communication é o título de um livro de Paul Watzlawick publicado em 1975. “Quão real é o real?” Não sei. Desconheço qualquer original da canção seguinte, com “voz de Charles Aznavour”. Parece, no entanto, ser real no vídeo musical que segue. Um “tributo”! Quão real é o real? Não sei, mas parece-me teimar em ser real o desejo.

“Plongez dans Les Couloirs du Temps, une chanson réaliste et poétique où l’amour d’une vie renaît au détour d’un souvenir. Entre nostalgie et espoir, cette ballade cinématographique mêle accordéon, guitare et piano, pour offrir une émotion intense et intemporelle. Laissez-vous emporter dans ce voyage musical où chaque note résonne comme un écho du passé. (…) Bienvenue dans l’univers de Neurotopia. Plonge chaque jour à 18h dans un monde où l’imaginaire numérique prend vie à travers la musique. Des créations générées par IA, entre émotions, rêves et explorations sonores.” (https://www.youtube.com/watch?v=DrxmBCVYTww)
Ainda não sei qual é a sorte que nos assiste, mas já existe quem se preste a visar os nossos desejos e o nosso imaginário. Estamos amalgamados na “hiper-realidade”, num (ir)real mais real do que a realidade.
Noiva Lunar

Margaux Sauvé, fundadora, compositora e vocalista da banda franco-canadiana Ghostly Kisses, parece-me caracterizar-se como uma figura noturna. Pela aparência (sombria, sóbria, recatada e recolhida), pelo próprio nome da banda (inspirado num poema de William Faulkner) e pelo conteúdo das suas canções (os álbuns de estúdio intitulam-se: Ghostly Kisses, 2019; Heaven, Wait, 2022; e Darkroom, 2024).
Não vou colocar, como costumo, uma amostra de canções, mas uma performance com duração de 20 minutos; a melhor seleção e a melhor interpretação que encontrei. Inicia com uma versão deliciosa da canção clássica francesa “J’ai demandé à la lune” e despede-se com uma admirável “Empty Note”. Pelo meio, “The city holds my heart”, “Don’t know why” e “Call my name”.
Nós precoces

Existem duas fundações cujos anúncios normalmente aprecio: a tailandesa Thai Health Promotion Foundation e a internacional Save the Children. O anúncio “La fiesta de Itzel”, da Save the Children México, é extenso e lento. A duração e o ritmo apropriados para desembocar num final inesperado e perturbador. Tanto mais perturbador que o fenómeno não se circunscreve ao México.
A Noiva Estelar

A “noiva penada” dos Serões dos Medos lembrou-me duas “noivas cantoras”: uma estelar; a outra, lunar. A primeira, Karen Elson, é uma modelo cantora que “assombrou a música”. Uma versão inglesa da francesa Carla Bruni. Casou, consagrada por um xamã, em 2005, com Jack White, dos White Stripes, numa canoa no rio Amazonas. Os títulos das músicas não enganam: “O fantasma que anda”, “A verdade está na sujeira” (uma “noiva cadáver” é protagonista do vídeo oficial); “Maravilha Cega”, “Sombra quebrada”…
A outra noiva, a lunar, fica para o próximo artigo.
Restolho dos Serões dos Medos

A quarta edição dos Serões dos Medos (sexta, 24 de outubro) quase encheu o auditório da Casa da Cultura de Melgaço (com capacidade para 195 pessoas). De ano para ano, cada vez mais jovens e forasteiros. Uma iniciativa original, imaginativa e ousada, a assumir a população, simultaneamente, como protagonista e público. Em suma, um enxerto que pegou no programa mais alargado da Noite dos Medos.

Mal começo a falar, após a exibição do vídeo de apresentação, um frisson de assombro e espanto apodera-se da audiência: uma “alma do outro mundo”, uma noiva penada translúcida, hasteada à minha esquerda, de tamanho natural, põe-se a estremecer teimosa e ostensivamente…
Não tive outro remédio, senão prosseguir o discurso, como se nada fosse.
Imagem: Noiva Penada. Noite dos Medos. Melgaço
Estive demasiado tagarela. Ainda mais do que de costume. Talvez por causa 1) da cafeína da coca-cola que os meus tios me ofereceram, b) de eventuais fluídos de papagaio provenientes da mediunidade da Mariana, sentada, eloquente e bem-disposta, ao meu lado, ou c) da intenção de aliviar a carga sobrenatural com disparates do tipo:
“há uns tempos, não me largavam os pesadelos com entes falecidos. Antes de deitar, bebia café com leite acompanhado com pão e queijo. Por obra e graça de um sexto sentido, antecipei a refeição uma hora. Desapareceram os pesadelos e as visitações do Além”.
Como nas edições anteriores, sem tempos mortos entre as 21 horas e perto das doze badaladas, confesso que acabei por sentir o espírito maligno do tabaco a chamar por mim. No fim, felicitei o Abel Marques pela organização, com destaque para o vídeo de abertura e o efeito da “boneca animada”. Disse-me que não foi de propósito. Pois, pois… acode-me o testemunho contado durante a sessão por um primo:
“O meu avô residia no lugar da Lavandeira e namorava no lugar dos Bouços, ambos da freguesia de Prado, a uma distância de perto de dois km, por carreiros estreitos, num tempo em que não havia eletricidade. Numa noite de luar, quando regressava a casa, a meio do caminho, no lugar da Barronda, sente-se agarrado pelo ombro, faz força para se soltar e vê no chão a sombra de algo que pairava no ar. Desata a correr, sem se atrever a olhar para trás. No dia seguinte, volta ao mesmo local: a boina baloiçava numa silva”.


Até para o ano, se os astros assim o entenderem! Entretanto, na próxima sexta, 31 de outubro, será a vez da Noite dos Medos.

