Sem deus nem soberano

Com os anos, vêm rugas, taras e entorses. Prefiro os promotores (de preferência, discretos) aos defensores (em particular, ostensivos) de causas e direitos. Hipermediatizados, em todo o lado e nenhum, cativa-nos a empatia remota, e a solidariedade retórica. Dedicada a Louis Blanqui, a canção Ni dieu ni maître, de Léo Ferré, ilustra tangencialmente estas impertinentes impressões. Seguem as versões de 1965 e 1973.
| Ni dieu ni maître Léo Ferré | Nem deus nem mestre Léo Ferré |
| La cigarette sans cravate Qu’on fume à l’aube démocrate Et le remords des cous-de-jatte Avec la peur qui tend la patte Le ministère de ce prêtre Et la pitié à la fenêtre Et le client qui n’a peut-être Ni dieu ni maître Le fardeau blême qu’on emballe Comme un paquet vers les étoiles Qui tombent froides sur la dalle Et cette rose sans pétales Cet avocat à la serviette Cette aube qui met la voilette Pour des larmes qui n’ont peut-être Ni dieu ni maître Ces bois que l’on dit de justice Et qui poussent dans les supplices Et pour meubler le sacrifice Avec le sapin de service Cette procédure qui guette Ceux que la société rejette Sous prétexte qu’ils n’ont peut-être Ni dieu ni maître Cette parole d’Évangile Qui fait plier les imbéciles Et qui met dans l’horreur civile De la noblesse et puis du style Ce cri qui n’a pas la rosette Cette parole de prophète Je la revendique et vous souhaite Ni dieu ni maître Ni dieu ni maître (Pas vrai, mec?) | O cigarro sem gravata Que se fuma na alvorada democrata E o remorso dos amputados Com o medo a estender a pata O ministério do padre E a piedade na janela E o cliente que talvez não tenha Nem deus, nem mestre O fardo pálido que é embrulhado Como um pacote para as estrelas Que caem frias sobre a laje E esta rosa sem pétalas Este advogado com pasta Essa alvorada que coloca o véu Por lágrimas que talvez não tenham Nem deus, nem mestre Estes bosques ditos de justiça E que crescem nos suplícios E para mobilar o sacrifício Com o pinheiro de plantão Este procedimento que espreita Aqueles que a sociedade rejeita Pretextando que talvez não tenham Nem deus, nem mestre Esta a palavra de Evangelho Que consegue dobrar os imbecis E que infunde no horror civil Nobreza e, também, estilo Este grito que não tem roseta Esta palavra de profeta Reivindico-a e desejo-vos Nem deus, nem mestre Nem deus, nem mestre (Não é verdade, pá?) |
Matraquilhos
Acontece-me abusar do Tendências do Imaginário como uma espécie de diário onde me atrevo a colocar trivialidades. Ontem, após demasiados anos de jejum, voltei a jogar matraquilhos. Sem a velocidade nem a destreza de outrora. Soube mesmo assim a reconquista, não menos importante do que proferir uma conferência. Na loja do meu avô, havia matraquilhos. Pequeno, colocavam-me sobre um caixote para chegar aos varões. Na realidade, cresci a jogar matraquilhos, não a dar conferências.
Como de costume

Uma vez é um erro; duas vezes é um mau costume (Provérbio do Quebec).
A Almerinda Van Der Giezen teve a generosidade de me enviar a versão de My Way interpretada por Herman Brood, canção que nos habituámos a associar a Frank Sinatra. Herman Brood, ator e poeta, mas sobretudo músico e pintor, com um percurso singular, multifacetado e controverso, tornou-se uma figura emblemática da Holanda, bastante consolidada após o seu suicídio em 2001, com 54 anos. My Way é uma das suas interpretações mais bem-sucedidas.
O que poucos conhecerão, creio, é que a canção original que está na base de My Way é francesa: Comme D’Habitude, de Claude François, estreada em 1967 e contemplada na abertura dos jogos olímpicos de Paris. Creio, também, que poucos conhecem porque poucos o assumem. Acontece algo semelhante com a canção Autumn Leaves, cujo original, Les Feuilles Mortes, também é francês, com música de Joseph Kosma e letra de Jacques Prévert.
Em ambos os casos, a Inteligência Artificial não se engana:
A canção “My Way”, imortalizada por Frank Sinatra, é uma adaptação da música francesa “Comme d’habitude”, composta em 1967 por Claude François e Jacques Revaux, com letra de François e Gilles Thibaut. A versão original conta a história de um casal cuja rotina diária se torna monótona e sem paixão.
Paul Anka, cantor e compositor canadense, adquiriu os direitos da música em francês e escreveu uma nova letra em inglês, transformando-a em “My Way”. A nova versão foi feita sob medida para Frank Sinatra e se tornou uma das músicas mais emblemáticas da sua carreira. Apesar de ter mantido a melodia da versão original, a letra em inglês é completamente diferente e fala sobre uma reflexão de vida e realizações pessoais (ChatGPT, 05.11.2024).A canção “Autumn Leaves” é originalmente francesa. Ela foi composta por Joseph Kosma, com a letra original em francês escrita pelo poeta Jacques Prévert. A canção se chamava “Les Feuilles Mortes” e foi lançada em 1945. Tornou-se popular através de performances de cantores franceses como Yves Montand.
Mais tarde, a canção foi traduzida para o inglês por Johnny Mercer e recebeu o título “Autumn Leaves”. A versão em inglês ganhou popularidade em todo o mundo e foi interpretada por diversos artistas famosos, incluindo Nat King Cole, Frank Sinatra e Édith Piaf. A melodia melancólica e as letras poéticas em ambas as línguas tornaram “Autumn Leaves” um clássico atemporal no repertório de jazz e música popular (ChatGPT, 05.11.2024).
Agridoçuras

Continua-se a produzir boa música mais ou menos glicodoce. Perdão! No caso vertente, mais precisamente agridoce, porventura, até difícil de digerir (eg., Eye to Eye). Estou a ouvir os The Slow Motion. Fez um ano, no 12 de março de 2023, coloquei cinco canções deles num único artigo, o que é obra (https://tendimag.com/2023/03/12/rendimentos-marginais-the-slow-show/). Acrescento mais cinco. Abuso, mas é um prazer.
Exílio na concha
Por falar no Líbano, uma antiga paixão, refugiada em Paris durante a 2ª guerra civil iniciada em 1975, adorava esta canção dos Supertramp. Como somos sensíveis à música!
Assim seja!
Boa noite!
R5volution

Há muito que não me surpreendia um novo anúncio do Bruno Aveillan, o meu realizador de publicidade predileto. Um artista total, com cerca de 40 anúncios no Tendências do Imaginário. Domina a arte de fazer e a arte de criar, em particular ao nível do intertextual e do subliminar. Nem a icónica baguette falta! Quanto ao resto, em equipa que ganha não se mexe: agência Publicis Conseil e produtora Quad.
Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

As coisas que temos de aprender antes de fazer, aprendemo-las fazendo-as – por exemplo, os homens se tornam construtores construindo, e se tornam citaristas tocando cítara; da mesma forma, tornamo-nos justos praticando atos justos, moderados agindo moderadamente, e corajosos agindo corajosamente (Aristóteles. Ética a Nicômacos. Livro II, 1103b. Trad. de Mário da Gama Kury. Brasília, Editora Universidade de Brunia, 1985).

Dos temas para o cortejo histórico de Melgaço de 2024, a lenda da Senhora da Orada foi o primeiro a surgir, tendo sido adotado sem hesitação.
Convocava, antes de mais, um notável património cultural imaterial exclusivo do concelho.
Mas também envolvia vários elementos importantes do património histórico material local. A inserção no cortejo permitiria divulgá-los.
Fotografia – Miguel Bandeira
Por outro lado, reunia potencialidades de caraterização, encenação e interpretação suscetíveis de interessar, atrair e entusiasmar tanto os participantes como os espetadores.
Por último, tanto a distribuição por determinadas freguesias como a respetiva adesão e empenho não comportavam incertezas e obstáculos relevantes.

Antiga, a lenda da Senhora da Orada tem raízes seculares. Remete para um surto de peste ocorrido no século XVI. Embora associada à respetiva capela em Melgaço, o enredo envolve populações de outros concelhos.
Segue uma reprodução integral da lenda, precedida por um breve resumo:
Em 1569, grassava a peste. Tomé, alcunhado o Vira-pipas por andar sempre alcoolizado, cuidava da capela da Senhora da Orada. Certa manhã, surpreendeu-o a ausência da imagem da Senhora. Tê-la-iam roubado? À noitinha, voltou com um amigo para testemunhar o incidente; a Senhora estava, para sua surpresa, no seu lugar. O Vira-pipas até deixou de beber, mas o fenómeno repetia-se: a Senhora ausentava-se de madrugada e regressava ao anoitecer. Temendo o ridículo, guardou segredo.
Entretanto, a uma vintena de km, em Riba do Mouro, apareceu uma dama que se empenhava a cuidar dos doentes. Vinha de manhã e despedia-se ao anoitecer. Passada a epidemia, constatou-se a inexistência de vítimas na freguesia e reconheceu-se a semelhança entre a dita dama e a imagem da Senhora da Orada.
Os testemunhos do Vira-pipas e de Riba de Mouro cruzam-se. Tudo aponta para a intercessão milagrosa da Santa. Como agradecimento, o povo de Riba de Mouro compromete-se a vir todos os anos em clamor à capela da Senhora da Orada.
Lenda da Senhora da Ourada
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Esta lenda envolve um património material histórico notável.
Em primeiro lugar, a capela, um monumento nacional de estilo tardo-românico, cuja construção teve início em 1245, em local onde, presumivelmente, já existia um eremitério, referido em documento de 1220. Em 1166, a Orada já é mencionado numa “doação a favor do Mosteiro de Fiães pela Condessa Froila [Fronilla]”:
Fotografia: Miguel Bandeira
A Condeça Dona Fronilla deu a este Mosteiro, & ao seu Abbade João em Janeiro do anno 1166, a quinta de Cavalleiros junto de Melgaço, cousa boa, particularmente de vinhas : & entendemos que com ella lhe daria tambem a Igreja de Nossa Senhora da Oráda alli pegado, que os Frades dizem foy Mosteiro de S. Bento, & fundado quando se edificou o de Feaens, de que veyo a ser Priorado : outros dizem (o que tenho por mais certo, & alguns sinaes mostra para isso) que foy de Cavalleiros Templarios, de que esta quinta tomou o nome, & era passal seu. Pouco ha se lhe vião ruínas de cellas, claustros, & canos de pedra, pelos quaes lhe vinha agua (P. Antonio Carvalho da Costa, Corografia Portugueza, e Descripçam Topografica do Famoso Reyno de Portugal,Tomo Primeiro, 1ª edição em 1706, 2ª edição, Braga, Typographia de Domingos Gonçalves Gouvea, 1868. p. 259).
Válter Alves, a propósito da proveniência e significado do nome Orada, releva um número apreciável de referências à palavra em documentos dos séculos XII e XIII [As origens da Orada (Melgaço) – algumas notas para discussão, Melgaço, entre o Minho e a Serra: https://entreominhoeaserra.blogspot.com/2023/08/as-origens-da-orada-melgaco-algumas.html%5D.

Próximo da capela, com uma vista ampla sobre o rio Minho, ergue-se o Cruzeiro da Orada: “Datado de 1567 ele é um ex-voto dos melgacenses daquela era, ali colocado naquele ano de peste, para agradecer a Deus ter poupado Melgaço aos seus horrores ou a pedir um Pai nosso por alma dos ceifados por ela nestas redondezas” [Obras completas de Augusto César Esteves. Vol. I. Tomo 2. Melgaço: Câmara Municipal de Melgaço, p. 552]. Repare-se que a construção deste cruzeiro precede dois anos a data apontada na lenda.
Perto, situa-se a pequena capela de São Julião. “As primeiras referências ao edifício datam da primeira metade do século XIII e indicam que, neste local, ou anexo a ele, existia uma gafaria, que funcionava como local de acolhimento no caminho entre a vila de Melgaço e a ermida de Nossa Senhora da Orada” (https://servicos.dgpc.gov.pt/pesquisapatrimonioimovel/detalhes.php?code=73898). Destinado a leprosos (denominados também gafos ou lázaros), ter-se-ia chamado Hospital de São Gião (A Gafaria de Melgaço. melgaçodomonteàribeira, 06.04.13: https://iasousa.blogs.sapo.pt/99284.html).




Por razões práticas e simbólicas, os edifícios religiosos e as gafarias costumavam localizar-se junto a nascentes e cursos de água. Entre as capelas da Nossa Senhora da Orada e de São Julião existe uma nascente cuja importância justificou a construção de uma fonte imponente na segunda metade do século XVIII. Terminada em 1780, foi financiada por João Pedro de Sá, juiz de fora de Melgaço, com o apoio de vários donativos de famílias aristocráticas locais. Com uma planta retangular e corpo de cantaria de granito, o espaldar, de estilo barroco, apresenta-se generosamente decorado. Conhecida como fonte de São João, foi transferida em 1903 para a atual Praça da República.

O antigo e o atual lugares da fonte de São João, a capela de São Julião, a capela e o cruzeiro da Orada estão interligados por um percurso curto, fácil e agradável, que ganharia, no meu entendimento, em ser promovido como um trilho temático.

A devoção à Nossa Senhora da Orada estende-se de Norte a Sul de Portugal, do Alto Minho ao Algarve. Existem, por exemplo, santuários em Vieira do Minho e São Vicente da Beira, igrejas em Sanfins, Sousel e Borba, capelas em Cabeceiras de Basto e Ferreira do Zêzere e uma ermida em Albufeira. A capela da Senhora da Orada de Melgaço é, contudo, a mais antiga.
Fotografia – Município
Também coexistem diversas lendas. Mas muito distintas da lenda de Melgaço. Por exemplo, Vieira do Minho e São Vicente da Beira partilham uma mesma lenda, que envolve meninas inocentes e serpentes:
Uma jovem surda-muda que de um dia para outro começou a crescer-lhe a barriga, tudo fazendo crer que estava grávida (…) Como não era casada, a jovem foi fortemente condenada pela comunidade e pelos pais, que não hesitaram em castigá-la severamente. A jovem, que por ser muda, não se podia defender, foi expulsa de casa dos seus pais e levada para um bosque fora da povoação, onde se situa hoje o santuário da Senhora da Orada. Neste degredo e perante o desespero, a jovem suplicava noite e dia pela proteção divina. No meio desta angustiante súplica de oração, apareceu-lhe Nossa Senhora que mandou a jovem procurar um recipiente e um pouco de leite e se debruçasse sobre ele. Nesse instante saiu pela boca uma enorme cobra, que tinha sido ingerida pequenina quando a jovem bebeu água num riacho. (…) Para a jovem, e depois para a comunidade, isto foi considerado um milagre. A rapariga foi perdoada e regressou para casa. Querendo saber como poderia agradecer tal benesse, Nossa Senhora voltou a aparecer à jovem surda-muda e pediu-lhe que lhe construíssem uma capela onde tinha acontecido o milagre (José Carlos Ferreira, Francisco de Assis, Património de Vieira, Vieira do Minho, Câmara Municipal de Vieira do Minho e Empresa do Diário do Minho, Lda, 2007, pp. 212 – 213).

Na Festa das Papas de Gondiães, em Cabeceiras de Basto, a narrativa que justifica a celebração resulta homóloga à da Senhora da Orada de Melgaço. O motivo é o mesmo, a salvação da peste, também se admite a intercessão divina e se assime um compromisso anual. Só que o santo é outro, São Sebastião, por sinal o mais invocado contra a peste. Por outro lado, o enredo resulta pobre, praticamente inexistente, e a ação de graças consiste, em vez de um clamor, num banquete, ao ar livre, oferecido a todos aqueles que comparecem no dia do santo, 20 de janeiro. Em Ferreira do Zêzere, no dia da festa da Senhora da Orada também se oferecia um jantar, custeado pela confraria, mas limitado aos pobres.
Em suma, a lenda da Senhora da Orada, além de original, vincula-se a um contexto e a um património histórico e cultural singulares, únicos.


Curiosamente, a lenda da Senhora da Orada de Melgaço alude explicitamente apenas à freguesia de Riba de Mouro. Se é verdade que esta população honrou o compromisso, cumprindo ano após ano, século após século, a promessa (até meados dos anos cinquenta), este destaque pode induzir em erro. Como o reconhece o Padre Bernardo Pintor, pároco da freguesia, já naquele tempo, os clamores à Senhora da Orada abundavam dentro e fora do concelho de Melgaço.
| À Senhora da Orada afluíam clamores de penitência de várias freguesias. (…) No primeiro quartel do nosso século ainda se realizavam os clamores das freguesias mais próximas da vila. Com várias intermitências vieram a terminar durante o segundo quartel deste século. De todos esses antigos clamores, houve um que ultrapassou o meio deste século. Foi o de Riba de Mouro, freguesia do antigo concelho de Valadares e agora de Monção. As freguesias de Melgaço realizavam os seus clamores na Quinta Feira da Ascensão, dia santo de guarda e feriado municipal, e Riba de Mouro sempre teimou em ir à Senhora da Orada na Segunda Feira do Espírito Santo com o seu clamor independente, a que se associava muita gente da vila em gesto de simpatia. No mesmo dia realiza-se em Rouças a festa de Santa Rita, cujo santuário se desenvolveu nos últimos tempos atraindo o povo da Vila. Riba de Mouro, terra distante, começou em 1954 a fazer o clamor da Senhora da Orada no Santuário de Santo António de Val-de-Poldros, da mesma freguesia, continuando ainda a promovê-lo, embora em data diferente.´ A peste a que se refere Frei Agostinho de Santa Maria deve ser qualquer das epidemias da segunda metade do século XVI. Três grandes epidemias grassaram em Lisboa e se estenderam ao país inteiro: a de 1568-69 que deu origem à festa da Senhora da Saúde que ainda se realiza em Lisboa com carácter oficial, a de 1579 e a de 1598-99 que de novo se ateou no fim de 1599 e se prologou até 1602. De todas a maior foi a primeira e a menor a segunda.” (P.e M. A. Bernardo Pintor, Melgaço Medieval, s.l., [Comp. e imp. nas ofic. gráf. Augusto Costa & C.a, L.da], 1975, pp. 117-118) |
A peste não era, naturalmente, o único motivo para a realização de clamores. Os santos costumam prestar-se a diversos usos. São polivalentes.
“A Imagem da Senhora (…) que agora exise he muito devota, & de perfeytissima escultura, tem ao Menino Deos sobre o braço esquerdo, & tem cinco palmos de estatura; he de madeyra com as roupas estofadas de outo. He muito milagrosa, & como tal he buscada, & invocada da devoção dos fieis, os quaes por sua intercessão alcanção de seu Santissimo Filho, o que justamente pretendem. A este Santuario, desde o dia da Ascenção do Senhor até a festa do Espirito Santo vão em romarias as mais das Freguesias da Villa de Monçaõ, & do seu termo, a offerecer o residuo do cirio Paschal, & acompanha a procissão ao menos huma pessoa de cada Casa, com os seus Parochos, & isto por voto antigamente fizeraõ em tempo de huma grande peste, de que ficou preservada a mesma Villa, & as Freguesias do seu termo, as quaes fizeraõ o referido voto; & tambem muytas Freguesias do termo de Valadares, & todas as do termo de Melgaço , vaõ em procissaõ à Senhora e no mesmo tempo, humas por devoçaõ, & muytas por voto, com clamores, & procissaõ ao mesmo Santuario, para implorar da Senhora favores do Ceo. E tambem em tempo que se necessita de Sol, ou de chuva, vaõ muytas Freguesias em procissaõ com ladainhas, a pedir à Senhora os soccorra; o que com evidencias experimentão, porque esta misericordiosa Senhora lhes alcança logo os bons despachos de tudo o que pedem” (Frei Agostinho de Santa Maria (1712) – Santuário mariano, e história das imags milagrosas de Nossa Senhora… Tomo IV, Oficinas de António Pedrozo Galram, Lisboa, 1712, p. 251).

Esta devoção e esta polivalência observada por Frei Agostinho de Santa Maria em 1712, prossegue, como sustenta Válter Alves, nos séculos seguintes:
“Diga-se que a devoção à Nossa Senhora da Orada continuava viva e socorremo-nos de alguns episódios que o comprovam. Em anos de crise agrícola, o concelho vinha em procissão à capela pedir proteção e implorar socorro divino. Assim aconteceu em 1760, devido ao rigor da chuva, bem como em 1768, ou em 1778 por causa da estiagem. Lá foi também depois do sismo de 31 de Março de 1761, onde toda a comunidade foi descalça, com cordas ao pescoço e coroas de espinho na cabeça” (As origens da Orada (Melgaço) – algumas notas para discussão: https://entreominhoeaserra.blogspot.com/2023/08/as-origens-da-orada-melgaco-algumas.html).
Na primeira metade do século XX, ainda era concorrida a romaria. Por vezes, os ânimos exaltavam-se em demasia, como aconteceu nesta espécie de “luta sacerdotal pelo pálio” durante um clamor proveniente da freguesia de Roussas.

Apesar da proibição formal pelo governo desde 1940, os clamores continuaram a realizar-se nas áreas mais rurais e tradicionais. Em 1950, o clamor de Riba de Mouro à Senhora da Orada ainda é notícia. Digna de nota é, neste contexto, a prévia autorização da realização de clamores no ano seguinte por parte do Arcebispo Primaz de Braga (reproduzo a página inteira do jornal porque inclui dois temas passíveis de interessar: “Apreensão do rebanho de Portelinha” e “Pelo Hospital”; carregar na imagem seguinte para aumentar).

Entre os séculos XIV e XVIII, os dois cavaleiros do Apocalipse mais proeminentes foram a Peste e a Morte. Como cantam os Aguaviva, a Morte era a única a vencer a Peste. Um “castigo de Deus” que só a interferência sagrada podia aliviar. O ser humano nunca viveu tão rodeado e obcecado pela Morte. Aliás, o medo da Morte chegou, porventura, a ofuscar o do Diabo. Assim o revela, pelo menos, a arte daquela época.
Tal como as fotografias e os postais constituíram o principal recurso para caraterizar ambientes, personagens, adereços e atividades respeitantes às Termas do Peso, no caso da lepra e da peste socorremo-nos de pinturas e gravuras da época.
Galeria com imagens da peste



















Sobre a peste e a lepra pouco há acrescentar que estas imagens não expressem: promiscuidade, desespero e triunfo da morte. Algumas até o cheiro pestilento, nauseabundo e inevitável, conseguem sugerir. O último grande surto de peste, a “gripe espanhola” (a variante pneumónica), ocorreu há um século, em 1918 e 1919. A peste e a lepra ainda existem em alguns países, mas já são curáveis.

No cortejo histórico praticamente nada faltou. Incluiu leprosos e pestíferos, de todos os feitios, géneros e idades; médicos e curandeiros; guardas, clérigos e devotos; transeuntes, carregadores, condutores e cadáveres. Com carroça para transporte das vítimas, defumadores e ervas, amuletos, crucifixos e livros sagrados

A caraterização dos corpos degradados e da indumentária andrajosa não podia ser mais apropriada e expressiva. Acrescem os movimentos, as posturas e os gestos: deriva dos leprosos, condução penosa da carroça, vigilância dos guardas, cuidado dos monges e dos médicos, marcha arrastada dos pestíferos, queda de um idoso, curas, milagres, súplicas e um clamor devoto, adaptado pelo padre Rogério Rodrigues.

E a Santa, a Senhora da Orada? Um regalo do céu. Imaculada, graciosa e misericordiosa, zela pelo aflitos, imperturbável, sob um tórrido sol pagão. Com o Menino no colo, encantador, muito compenetrado e bem-comportado. À espera ou em movimento, sempre no momento e no sítio certos, discretos e atenciosos, a Mãe e o Filho iluminam o caminho e apaziguam as almas.

Quando sobra brio, vontade e inspiração, os desafios tornam-se estímulos e a obra faz-se. As juntas da União das Freguesia da Vila e Roussas, da União das Freguesias de Chaviães e Paços e da freguesia de Cristoval entraram com o pé direito nesta nova versão do Cortejo Histórico.
Por seu turno, os participantes souberam identificar-se com a lenda da Senhora da Ourada e partilhá-la. Incorporaram e vestiram as respetivas personagens como se estivessem mergulhados no flagelo de uma fatalidade irreversível. Apenas uma nota dissonante, por sinal gratificante: um brilho de alegria nos olhos e um sorriso de satisfação nos lábios. Quando se junta uma pitada de profissionalismo com a frescura voluntariosa do amador costuma soprar uma brisa agradável.
Despeço-me com uma galeria de fotografias e a convicção de que a maior recompensa de um autor, especialmente de um artista, é a sua obra.
Galeria com fotografias da Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024



















































Elegia transpirada

Enquanto aguardo as últimas fotografias do Cortejo Histórico de Melgaço, escuto música. Recordo Richard Wright, teclista dos Pink Floyd, que se eclipsou faz 15 anos. Não desapareceu, partiu para o outro lado da lua. Editou dois álbuns a solo, Wet Dream, em 1978, e Broken China, em 1996, com as canções Breakthrough, Summer Elegy e Reaching For The Rail.

