Entre Babel e Toronto

Desde que não se castre a curiosidade, uma diferença costuma entreabrir outra. Os franceses Orange Blossom conduzem aos Light in Babylon de origem turca. Nesta perdição, reencontramo-nos, algures, sem surpresas absolutas nem estranhamentos excessivos. Raízes, vísceras ou outra coisa qualquer… Um namoro do mesmo com o outro numa folia sem princípio nem fim. A Terra é redonda, mas imensa. Com ou sem nomes em inglês, não existe mainstream que a resuma.
À semelhança dos Orange Blossom, os membros dos Light in Babylon, fundados em Istambul em 2010, têm nacionalidades diversas: Michal Elia Kamal (voz e djembe) é israelita de pais iranianos; Julien Demarque (guitarra), francês; Metehan Çiftçi (santur), turco; Jack Butler (baixo), britânico; e Stuart Dikson (percussão), escocês. “Além do árabe, turco e farsi (persa), Michal canta também em hebraico antigo (…) As composições são originais e misturam estilos balcânicos e flamencos. A sua música étnica está catalogada como World Fusion, entrelaçando as culturas do Médio Oriente com a música europeia” (Wikipedia, 18.04.2026).
Ouvidos vadios

Continuemos a (a)variar. A banda francesa Orange Blossom presta-se. Fundada em Nantes em 1993, combina trip hop e rock, progressivo e eletrónico, com música oriental. Os membros principais são o francês PJ Chabot, violino, o mexicano Carlos Robles Arenas, percussão, e a egípcia Hend Ahmed, voz. Os demais têm origem argelina, marfinense e turca. “Multiculturais”, cantam em árabe, francês, inglês, turco, espanhol e português (Meu amor se foi).
Anónimo, ca. 1500. Univ. de Liège
A Bomba e a Cruz


Aproxima-se o dia da Crucificação. Vivemos tempos de muita religião e pouca religiosidade em que a espada [ou a bomba] ameaça obliterar a cruz rumo a uma nova idade da pedra. Oremos cantando!
I am the day, soon to be born
I am the light before the morning
I am the night that will be dawn
I am the end and the beginning
I am the Alpha and Omega
The night and day, the first and last
Uma Flor num Inferno

“Chanson pour Anna”, do Daniel Guichard, é flor que, como a camélia, teima em reaparecer no inverno, estação que não nos larga. É dedicada a Anne Frank, uma flor num inferno. Acrescente-se “Reste”, uma canção de despedida, seguida por “Prends-moi dans tes bras”, um pedido de refúgio, e teremos três belos poemas que se encadeiam. Recoloco “Mon Vieux” e “La Tendresse”. Fazem também parte do meu jardim de inverno.
Imagem: Frank, dezembro de 1941
Quando era jovem

Para ver o que não se vê, é preciso ser um pouco cego; para o mostrar a quem não quer, um solitário obtusamente solidário; para não se ofuscar, semicerrar os olhos e para comunicar, congeminar interlocutores.
Quem recuperaria o Neil Diamond ainda jovem? Pois, ei-lo a interpretar ao vivo “Holy Holly”, no The Ed Sullivan Show, da CBS, em 1969, e “I Am… I Said” e “Solitary Man”, na BBC, em 1971.
Passado sem Presente
Recordo
Todos aqueles momentos
Perdidos no encantamento
Que jamais
Reencontraremos
Não existe hoje para nós
Nada mais
A partilhar
A não ser o passado
(Roxy Music. Tradução livre)

Há dias, escrevi que os testemunhos dos tempos áureos da cultura europeia acabam por proporcionar um sabor agridoce. Estou longe de ser o único, e ainda menos o primeiro, a incubar semelhante sentimento. Por exemplo, “A Song For Europe”, dos Roxy Music, aponta claramente no mesmo sentido. Há mais de meio século.
Cover & Recover
Habituei-me a ouvir a canção “A Change Is Gonna Come” pela voz do Billy Preston (The Way I Am, 1981), embora o original fosse de Sam Cooke (Ain’t That Good News, 1964). Em contrapartida, foi pela voz do Joe Cocker que conheci “You Are So Beautiful” (I Can Stand a Little Rain, 1974), original do Billy Preston (The Kids & Me, 1974). Seguem ambas, por Billy Preston.
Flor no deserto
Existem interpretações que são sucessos musicais isolados. Palpita-me ser o caso do cover pela italiana Vehlade da canção “Why Can’t We Live Together”, original de 1972 do norte-americano Timmy Thomas. Anda a soprar-me aos ouvidos há bastante tempo. Coloco-a, junto com o original, para a arquivar.
Moinhos do Coração. Regresso à Felicidade

Para o vídeo sobre a felicidade que a turma de Sociologia da Arte e do Imaginário está empenhada em produzir, a Margarida Gomes propôs o videoclip, excelente, da canção “What Are You Doing the Rest of Your Life?”, de Michel Legrand, interpretada por Anne Sofie Von Otter e Brad Mehldau. Para acompanhar, sugere a frase “Felicidade são os momentos vividos e retidos”.
O vídeo recorre às técnicas frozen action e bullet time para ilustrar o modo como os acontecimentos marcantes podem ficar recordados. Na verdade, os momentos da vida não ficam congelados na memória. Esta, viva, não cessa de os alterar e ressignificar.
Michel Legrand, falecido em 2019, com 86 anos, é um dos grandes compositores e pianistas franceses. Entre muitos prémios, recebeu o Oscar de melhor banda sonora pelos filmes Summer of ’42 e Yentl. Acresce o Oscar de melhor canção original por “The Windmills of Your Mind” do filme The Thomas Crown Affair.
Não deixo passar a oportunidade para colocar três músicas do Michel Legrand: “The Windmills Of Your Mind” (1969; “Les Moulins de Mon Coeur”, original 1955), interpretada por Sinne Eeg; “Je ne pourrai vivre sans toi”, com Maurane; e “Summer of ’42”.

