Dançar no inferno
Desperdiço tanto tempo com as minhas páginas que pouco sobra para seguir as alheias. Habituei-me, todavia, a espreitar dois blogues: o Azorean Torpor e o Peixinho de Prata , ambos criativos, bem escritos e com bom gosto musical.
Peixinho de Prata apresenta no último artigo a canção “Papaoutai”, do belga Stromae. Espicaçõu-me a curiosidade. No que respeita às interpretações ao vivo, o YouTube avançou com o concerto filmado no Bell Center de Montreal, em setembro de 2015. Espetacular! Lembrou-me o Jacques Brel, na dicção, na inteligência da letra e na força da energia, estática em Brel, dinâmica em Stromae.

Para aceder à canção “Papaoutai“, carregar na imagem precedente. Acrescento o vídeo oficial de “L’Enfer” e dois excertos do concerto de Montreal: “Alors on danse” e “Ave cesaria” [homenagem a Cesária Évora].
Prenda do Dia do Pai. Um anúncio japonês
No Dia do Pai, recibi uma prenda que não podia ser mais acertada: um anúncio japonês comentado.

“Numa ambiciosa campanha publicitária, o McDonald’s Japão uniu forças com três gigantes do J-Pop: as cantoras Ado e Hoshimachi Suisei e a dupla YOASOBI. O resultado é um videoclipe vibrante que combina as músicas Yoru No Pierrot, Into The Night e BIBBIDIBA, com uma animação original para criar uma harmonia explosiva.
O vídeo descreve a jornada de três personagens que, inspiradas por um concerto ao vivo, embarcam no mundo da música. Depois de vários altos e baixos, o clímax ocorre num palco vazio, o pesadelo de qualquer artista. No entanto, descobre-se que o McDonald’s, simbolizado pelas suas batatas fritas icônicas, acompanhou e partilhou os momentos da banda nas redes sociais. A genuinidade dessa jornada conquistou milhares de fãs. Embora não haja uma plateia física, todos estão unidos, assistindo à performance online.
Entre as reações do público, a animação inclui representações das próprias Hoshimachi Suisei, Ado e YOASOBI. A narrativa reflete a trajetória de Ado e Suisei, cujos rostos são desconhecidos pelo público e cujas carreiras foram exclusivamente impulsionadas por plataformas digitais, até atingirem o sucesso global. A campanha sublinha como a presença online se tornou um pilar essencial para o sucesso na indústria musical contemporânea, onde a conexão digital frequentemente substitui a interação física.” (Fernando Gonçalves).



Distâncias e proximidades
John Ferreira, amigo de adolescência, aficionado da guitarra e do piano, transformou o meu quarto e do Álvaro numa espécie de estúdio improvisado onde instalou uma coluna de som de cerca de um metro quadrado, encomendada à Sonolar. Entretanto, parti para França e ele para o Canadá, onde prosseguiu carreira como compositor, intérprete e produtor musical.
Acaba de publicar uma nova canção, Desired Fruit From Paradise, que, excetuando a letra, foi exclusivamente trabalhada por ele. Pertencem-lhe a composição, o arranjo, a generalidade da instrumentação e as vozes. Por uma vez, as guitarras elétricas cederam às acústicas. O resultado é uma melodia bem cadenciada e muito jovial, que cruza os dois lados do Atlântico. Com uma frescura, omnipresente no vídeo, a canção é dedicada a uma esposa. As mulheres são quem mais inspira poemas e canções. Creio, aliás. que não existe um equivalente masculino para a palavra musa. [Carregar na imagem seguinte para aceder ao videoclip].

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Tinha conversa agendada para antes da Semana Santa. Adiada para o dia 26 de abril (no Mosteiro de Tibães), ganhei uma folga que vou aproveitar para me divertir com inutilidades.
Com uma “velocidade de cruzeiro” que ultrapassa as quatro centenas diárias, as visualizações do Tendências do Imaginário dos últimos quatro dias, de 11 a 14 de março, proporcionam o seguinte gráfico confinado aos dez primeiros países.

Em português, o blogue “pesca” quase só em águas “latinas”, mormente lusófonas. O Brasil contribui com quase metade e Portugal perto de um terço. O desempenho do México é ocasional, completamente anómalo.

Na distribuição por cidades (e vilas), intriga a posição, não esporádica, de Carnaxide. Resulta tentador esboçar uma “análise ecológica”, que consiste em sondar a relação entre variáveis não diretamente mas mediante a respetiva distribuição no espaço. Com 25911 habitantes no censo de 2011, um sétimo de Braga, o que terá Carnaxide de especial? Porventura, a SIC. Surpreendo-me a conjeturar que o Tendências do Imaginário talvez interesse mais aos meios de comunicação social do que às universidades.
Enfim, de Braga e Guimarães provêm, respetivamente, 13 e 10 visualizações. “Santos da casa não fazem milagres” ou, mais prosaicamente, a proximidade satura ou, paradoxalmente, distancia? De qualquer modo, são valores pouco abonatórios.
Empecilhos
Problemas com empecilhos? Experimente tirar-lhes as pilhas!
Mastectomia do Amor

Após a publicação do artigo Mastectomia da Liberdade, retomo a visualização do documentário The 25 Most Famous Paintings in the History of the World (2025). Aguarda-me um eclipse semelhante. No quadro “O nascimento de Vénus”, do Sandro Botticelli, a deusa do amor surge igualmente despeitada. O amor, tal como a liberdade, também é submetido a “mastectomia”.

Justificam-se alguns apontamentos sobre o modo como funciona este tipo de “censura”:
a) As plataformas recorrem principalmente à Inteligência Artificial (IA) para detetar e analisar os conteúdos;
b) A IA tem a capacidade de “aprender”, desenvolvendo capacidades e apurando o desempenho;
c) Em alguns casos, eventualmente mais duvidosos, a IA pode ser complementada pela “revisão manual” (feita por pessoas);
d) Os conteúdos são rejeitados por inconveniência (pornografia, ódio…) ou violação de direitos de autor;
e) As plataformas não alteram os conteúdos; removem o conjunto, restringem o seu uso ou, em situações extremas, suspendem a conta do utilizador proponente;
f) As plataformas explicam, ou dispõe-se a explicar, os motivos que justificam a decisão;
g) Se o utilizador eliminar ou alterar os conteúdos “críticos”, rejeitados, o vídeo poderá ser aceite; o processo implica, portanto, alguma forma de autocensura;
h) É possível contestar as decisões tomadas pelas plataformas; os argumentos apresentados pelo utilizador são frequentemente aceites.
O resto pode ficar para depois
Pare, veja e oiça! Só isso. O resto pode ficar para depois. Estas coisas desaparecem depressa do radar.
Imitar ou igualar?

“Gostamos muito mais daqueles que tendem a imitar-nos do que daqueles que se empenham em igualar-nos. Porque a imitação é um sinal de estima e o desejo de ser igual aos outros um sinal de inveja” [Madeleine de Souvré, marquise de Sablé (amiga de Blaise Pascal). Maximes, 1678].
Imagem: Daniel Dumonstier – Portrait of Magdeleine de Souvre (1599-1678) Marquise de Sablé, 1621
O sucesso dos anúncios da John Lewis justificou “efeitos colaterais”. Tem inspirado versões alheias, autodenominadas Alternative John Lewis Adverts, que parodiam o seu estilo tradicional, independentemente do conteúdo da mensagem. Embora não pertençam à marca, criativas e esmeradas, evidenciam um sentido apurado de oportunidade. A invocação e eventual confusão com a marca oferecem uma embalagem deveras compensadora.
Seguem três exemplos: Send Me a Sign (2024); The GoKart (2022) e, mais antigo, Give Yourself (2019), que possui a virtude de enaltecer a reciprocidade.
Sensibilidade à mudança

Será que as diversas formas de capital, designadamente o capital financeiro, estão mais atentas às mudanças sociais do que os governos? Nada a estranhar.
O anúncio “Gamer Loan”, do Banco del Pacífico, pela agência ParadaisDDB Ecuador, recebeu o Gran Effie da edição dos Effie Awards Latin America, bem como um Leão de Ouro no Cannes Lions Festival of International Creativity, ambos de 2024.
Paris: Esculturas e Jogos Olímpicos
Há muitos tempo que não me impressionava um anúncio com o conceito, o ritmo e o efeito do “Honor History, Create History”, da empresa chinesa Alibaba Cloud. Propõe uma conexão de ordens de realidade distintas através de uma série vertiginosa de decomposições, recomposições e justaposições. Simplesmente extraordinário! Lembra um anúncio antigo, igualmente chinês: “Statues”, da Skoda, de 2006. Não o encontro através dos motores de busca. Afortunadamente, guardei-o nos arquivos.
