Pornografia alimentar

Bocadas, umas grotescas, outras delicadas. Um prazer glutão ao ritmo do hino da alegria. Quase uma orgia num autocarro. Um banquete rodoviário. A gula em movimento.
Indecisão

Começar a semana com uma música é uma boa prática. Para a música do lado A, Lonely Boy, falta-me energia; para a música do lado B, Nocturne, falta-me a tranquilidade. O mais avisado é não começar a semana.
Arabescos

O arabesco, de origem islâmica, é um entrançado decorativo com predomínio de formas geométricas. Na origem, não contemplava figuras humanas (ver figuras 1 a 3). Encontram-se obras precursoras no Império Romano e na Grécia Antiga (ver figuras 4 a 6). Os grotescos aproximam-se dos arabescos (ver https://tendimag.com/2012/02/12/desgravitar-sem-conta-peso-e-medida/).

1. Santa Sofia de Constantinopla. Séc VI. 
2. Painel decorativo. Sé. IX. 
3.-Grande mesquita de Kairouan. Tunísia. 
4-Pella. Grécia. Séc. IV aC. 
5.-Mosaico romano. Séc. III. 
6.-Mosaico romano. Termas de Diocleciano. Roma.-Séc. III.
O arabesco inspira a música. A composição Arabesque, de Claude Debussy, é uma referência. Os Coldplay publicaram, recentemente, uma canção intitulada Arabesque.
A música na publicidade

Quando a música e, eventualmente, a dança são estrelas, o resto perde brilho. São exemplo os anúncios Dairy Dancing, da Pump e Little Angels, da Hyundai. O motivo e a marca podiam mudar, o impacto e a promoção mantinham-se. Repare-se, por último, que a música produz um efeito de união: em Dairy Dancing, as pessoas sintonizam-se; em Little Angels, a música pacifica e gera comunhão dentro e fora da família.
Os gatos de Gustavo Rosa


Gustavo Rosa (1946-2013) é um artista plástico brasileiro. Admiro o humor dos seus desenhos singelos e coloridos. Tudo cabe nos seus quadros: pessoas, animais, coisas… Dizem que se assemelha a Aldemir Martins, Di Cavalcanti e Fernando Botero. No meu entendimento, os desenhos de Gustavo Rosa assemelham-se aos desenhos de Gustavo Rosa. Sobretudo, os gatos. São inconfundíveis. Segue uma pequena amostra.
Galeria de imagens: os Gatos de Gustavo Rosa
Um mandamento novo

As pessoas de diferentes culturas não só falam diferentes linguagens como, facto possivelmente mais importante, habitam diferentes mundos sensoriais (Hall, Edward T., 2003, La Dimensión Oculta, Buenos Aires, Siglo XXI, ed. original 1966 , p. 8).

Jean Michel Folon. The Topsy-Turvy Economy. 1978. 
Jean Michel Folon. Aguarela sem título.
O Covid-19 criou um mandamento novo: afastai-vos uns dos outros. Apela a um socialização responsável. A publicidade aderiu à sensibilização. Seguem dois anúncios da Heineken em que a cerveja rima com convívio desaproximado.
Os especialistas do gosto

Quem gosta mais de ti do que tu? Quem gosta mais do que tu gostas? Quem te estuda e prevê? Centros de investigação, empresas de marketing, agências de publicidade, políticos, sociólogos, psicólogos, semiólogos… A missão? Conhecer para seduzir, conhecer para antecipar. Bernard Cathelat e o CCA (institut d’étude des Socio-Styles de Vie)) são um bom exemplo : dedicam-se à cartografia e à infografia dos comportamentos e das tendências sociais. E vendem os resultados (Cathelat, Bernard, Socio-Life Styles Marketing, the new science of identifying, classifying and targeting consumers, Probus Publishing, Chicago, 1994). O livro A Distinção (1979), de Pierre Bourdieu, oferece-se como uma bíblia do estudo dos gostos e dos estilos de vida.
Num catálogo online, os produtos piscam-te o olho, parecem escolhidos a pensar em ti. Numa loja de roupas, há peças que estão à tua espera. Parece bruxedo, uma nova espécie de “feiticismo da mercadoria” (Karl Marx, O Capital, 1867). Jean Baudrillard fala em “estatuto miraculoso do consumo” (A Sociedade de Consumo, 1970). O Youtube sugere alternativas, “expressamente para nós”. Os cookies ajudam. Já dizia a rainha santa Isabel: “são bolachas, Senhor!”. Que conforto haver especialistas capazes de gostar por nós. Nada novo sob o sol da inteligência, trata-se de uma verdade gasta, mais gasta do que as calças de um cowboy. Ferrugem da sociologia litúrgica. Ninguém esconde, ninguém disfarça. O anúncio espanhol ADN, da empresa Adolfo Dominguez, proporciona uma ilustração desinibida. A verdade despida.
“ADN combina dos tipos de inteligencia. Un algoritmo que crea un perfil con tu estilo al completar un test online. Y un equipo de estilistas que saben lo que te queda bien”.
Umbigos flácidos

Dizem que o mundo está líquido, como a lama. Pois, deixá-lo estar. Mas duvido. Continuo a dar cabeçadas. E se está mole, depressa fica vertebrado: atente-se na experiência do confinamento; até aos cemitérios e às urnas chegou o decreto de Estado. Isto anda mole? Se essa é a vossa opinião… Quando brilham os faróis, escurecem os pirilampos. A ser verdade, esta história da moleza tem consequências. Sem verticalidade nem consistência, não há lugar para pessoas firmes e hirtas, “feitas de uma peça só”. Onde vamos pendurar a honra? Neste mundo de plasticina estaladiça e identidades fugidias, hesita-se em firmar compromissos com quem quer que seja, cara de roleta ou pés de barro. Numa sociedade sem honra nem narrativa, assiste-se ao milagre da multiplicação dos umbigos flácidos. Só quebra quem não torce. Kurt Cobain partiu.
Mocidade académica. O amor burocrático

Com tantos regimentos, regras, normas, modelos e procedimentos, criar resume-se a um jogo de colorir imagens. Um projecto é um projecto, conforme o regulamento. As referências bibliográficas, também. Nada como encurralar o pensamento em 2 000 palavras… Esta é a arte, esta é a bênção. Tudo deliberado, consignado e disponível em documento próprio, para instrução de alunos com experiência académica e percursos profissionais notáveis. Se pretende saber, saiba connosco, saiba como nós! Percorra o caminho batido.
Na escola primária, há mais de cinquenta anos, entoava-se, no início, a seguinte canção:
Vamos cantar com alegria
E começar um novo dia
Para nós o estudo só nos dá prazer
Faremos tudo, tudo para aprender.
Não há muitas opções: ou se ensina o caminho ou se aprende a caminhar (Antonio Machado). É sensato confinar os alunos numa redoma de regras e normas? Para colher réplicas? Para conseguir a quadratura do círculo? Apesar da minha costela anarquista, admito a necessidade de normas e de regras. Incomoda-me o excesso de amor e de zelo burocráticos. Regulamente-se, regulamente-se até ao cinzento final. “Pim!”















