O Amor e a Morte na Casa da Cultura

Chuva, frio e uma sensação única: o mesmo vento que me afastou do mundo traz-me de volta ao ninho. Era uma vez… o amor e a morte, a união e a separação, as formas e as sombras, os que ficam e os que partem. Memórias profundas e liminares. Apesar da concorrência do FC Porto-Benfica, a audiência do “serão dos medos” duplicou o previsto. Iniciado às 21:00, o “serão dos medos” durou quase até à meia noite. O encanto não teria sido o mesmo sem os testemunhos generosos, de uma oralidade prodigiosa e contagiosa, de duas pessoas maiores: as castrejas Angelina Fernandes e Palmira Fernandes. A sessão não se prolongou para “evitar o escuro das horas tardias”. Mas, pelos vistos, com a iluminação atual o risco é bem menor. E as pessoas deixaram-se estar em inspirada conversa. Uma iniciativa que, graças à dedicação dos amigos da Casa da Cultura e da Câmara de Melgaço, parece ter nascido para vingar. Era uma vez, não eRa? eRa, um grupo francês.
Galeria de fotografias: Coisas do Outro Mundo, Serões dos Medos, Casa da Cultura, Melgaço, 21 de outubro de 2022. Fonte – Município de Melgaço: https://www.facebook.com/municipiodemelgaco/photos














O destino, a voz, o violino e o assobio

Acho que a curiosidade descuidada seria aquilo de que o mundo necessita agora” (Andrew Bird).
Sexta, dia 21 de outubro, vou participar na primeira edição dos Serões do Medo na Casa da Cultura em Melgaço (ver https://correiodominho.pt/noticias/noite-dos-medos-esta-de-volta-a-vila-de-melgaco/139827). A conversa versará, primeiro, sobre as esculturas tumulares, em seguida, sobre as visões noturnas, tais como acompanhamentos e procissões de defuntos. À partida, temas pouco apelativos. No entanto, não concebo nada de mais vivo e presente na vida e no espírito dos vivos do que a experiência e o imaginário da morte. Possivelmente a componente mais criativa e imaginativa dos seres humanos. Pelo menos, para a morte rementem as obras mais notáveis da história da arte: as pirâmides do Egipto, a Pietá de Michelangelo, o Cristo de Velasquez, o Pensador de Rodin, Guernica de Picasso… Quem edifica, visita e cuida dos cemitérios, quem encomenda, talha e coloca as esculturas, quem as cobre de sentimentos e significados são os vivos. O mesmo sucede com as visões noturnas. Esculturas tumulares e aparições dizem muito acerca dos vivos, praticamente nada dos mortos. Acalento a esperança que, finda a conversa, a audiência desfrutará do conforto de ter ouvido falar menos da morte e dos mortos e mais da vida e dos vivos, que, porventura, ficarão a conhecer um pouco melhor. A pretexto da morte, descobre-se a beleza e, sobretudo, o amor, omnipresente como o principal rival da morte.

Amanhã, vou para Melgaço. Em princípio, não vou ter acesso doméstico à Internet. Despeço-me, assim, por uns dias. Costumo escolher as músicas a pensar na sensação e no sentimento que desejo que me provoquem. Outras vezes, mais raras, escolho-as para expressar o que me vai na alma. Em que lado se situará este excerto de um concerto de Andrew Bird?
Andrew Bird
Franz Ferdinand e o anime Cyberpunk

Os admiradores de anime revelam-se um público interativo. Reagem! No mesmo dia em que foi colocado o artigo “David Sylvian, Japan e os anime”, recebi o vídeo de abertura dos créditos do anime Cyberpunk: Edgerunners, estreado em setembro no canal Netflix. Lembra vagamente a Pop art e as viagens psicadélicas. O lettering é notável. A música, This Fire, é dos Franz Ferdinand. Além do referido vídeo dos créditos do anime Cyberpunk, acrescento dos vídeos musicais deveras criativos dos Franz Ferdinand: Love Illumination; e Take Me Out.
David Sylvian, Japan e os anime

Orientalização do Ocidente? A questão já se colocava, há meio século, a Fernando Namora (ver https://tendimag.com/2022/01/23/estamos-no-vento/). O entusiasmo pelos manga e pelos anime constitui um dos sinais. Continuo, no entanto, desde os anos setenta, a estranhá-los. Estou em crer que, no meu caso, a orientalização do ocidente tenha revertido numa oxidação da razão com a respetiva camada de ferrugem. Mas admito que a explicação mais plausível remete para a falta de exposição: quem não prova, não entranha.
Constato, contudo, que os anime, dignos de culto, evidenciam qualidade, criatividade e recursos. E aproveitaram a pausa da pandemia. A nova temporada do anime Golden Kamuy oferece-se como exemplo.
David Sylvian, e o grupo Japan (1974-1982), tornaram-se, ajudados pelo nome, particularmente populares no Japão. Adotadas pelos anime, algumas das suas músicas viram a audiência disparar. É o caso da canção For The Love Of Life, tema final do anime Monster. Acrescento Ghosts; condiz com a conversa que vou dedicar às “coisas do outro mundo” (Melgaço, 21 de outubro).
O Amor e a Morte
La vie est une cerise / La mort est un noyau / L’amour un cerisier [A vida é uma cereja / A morte um caroço / O amor uma cerejeira] (Jacques Prévert. Chanson du mois de mai. Histoires et d’autres histoires. 1963).

Ando absorto com as esculturas funerárias. Quanto mais percorro os cemitérios, mais os sinais de vida se sobrepõem aos da morte. Principalmente, o amor, a realidade mais viva da vida humana, a única que, pelos vistos, pode triunfar sobre a morte.
Junto o anúncio Apariciones, de 2002, da Cruz Vermelha da Argentina. Raro, não o encontrei com melhor resolução. Vale o conceito e a canção, Sanvean – I am Your Shadow, da Lisa Gerrard.
A Leiteira, DALL-E e Vermeer

Dall-E é uma nova aplicação capaz de alterar ou expandir autonomamente quadros. A Nestlé ilustra-a aplicando-a no anúncio Outpainting, com um belo efeito, à célebre pintura de Johannes Vermeer: A Leiteira (c. 1660). Maravilhas das sempre novas tecnologias!
“Quem disse que os robôs não têm imaginação? DALL-E [bem batizado: WALL-E + Dali] representa a inteligência artificial que adquirirá certamente importância no futuro. Já tinha deslumbrado os internautas quando foi lançado ao produzir imagens de incrível precisão e beleza artística. Mas o tempo passa e as ideias avançam! DALL-E decidiu expandir seu campo de atuação, para deleite dos curiosos e das vanguardas!
Até agora, o princípio era o seguinte. Esta inteligência artificial baseia-se no estudo de milhares de obras já existentes para poder criar novas imagens a partir de instruções textuais. Os resultados, muito estéticos e coerentes, já ofereciam uma renderização digna dos melhores pintores.
Desta vez, DALL-E regressa com um recurso completamente novo que talvez abale a criação digital contemporânea. Intitulada “Outpainting”, esta funcionalidade permite adicionar elementos dentro de uma imagem. É a inteligência artificial que imaginará por si mesma os elementos a adicionar. Este poder criativo dota-a de uma grande liberdade que pode conduzir a resultados inusitados e poéticos! O ambiente inicial da obra é assim transformado ou embelezado com um novo visual. E ainda não é tudo! Pensa que as performances incríveis desta inteligência artificial se limitam a pinturas de grandes pintores? Pois não. Este recurso também deve funcionar para fotografias. Este software pode ser uma ajuda substancial de edição.” (Arts in the City, DALL-E: a inteligência artificial que pinta imagens misteriosas: https://www.arts-in-the-city.com/2022/09/08/dall-e-lintelligence-artificielle-qui-peint-des-tableaux-mysterieux/. Consultado em 17.09.2022).
A princesa noiva e a velha grávida

Estou a escrever sobre velhas grávidas impúdicas, de preferência, risonhas [pertence a um conjunto de textos que não dá para publicar no Tendências]. Para compensar a carga grotesca e a penúria de escrita, recorro à músicas, sobretudo, músicas harmoniosas como as compostas por Mark knopfler para filmes dos anos oitenta.
Canções frias

Gosto do Klaus Nomi, um cometa extraordinário que teve uma breve passagem pela música antes de ser vítima da sida em 1983. Quase todas as suas canções estão contempladas no Tendências do Imaginário. O que não me impede de continuar a procurar versões com melhor qualidade. Encontrei três respeitantes a outros tantos covers: The Cold Song, da ária What Power Art Thou?, da ópera King Arthur, de Henry Purcell (1691); Can’t Help Falling in Love, de Elvis Priesley; e Death, da ária Dido’s Lament, da ópera Dido and Aeneas, de Henry Purcell (1689). Com votos de frescos sentimentos!
Massa cósmica

Há muito que não me deparava com um anúncio apostado na estetização de alimentos. Em tempos, foi moda. Este Pasta is born, dedicado às massas Barilla, não desmerece. Coloco duas versões: a primeira segundo o critério do realizador (director’s cut), a segunda adotada para o anúncio propriamente dito. Serve para partilhar uma ideia de quão diferentes podem ser.













































