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O meu carro é barroco

A pretexto das aulas de Sociologia da Arte e do Imaginário, tenho refeito, aumentado e melhorado, alguns materiais de apoio. É o caso do vídeo O Meu Carro É Barroco que contempla os anúncios a automóveis mencionados no texto “Dobras e fragmentos: a turbulência dos sentidos na publicidade de automóveis”, publicado em 2009, no livro Vertigens. Para uma sociologia da perversidade (Coimbra: Grácio Editor, p. 47-63). Após tantos anos, resulta possível a leitura do texto acompanhada pelo visionamento dos anúncios. Graças às novas ferramentas, com maior nitidez e resolução. Porventura, um regalo para a vista, o ouvido e a mente.

My Car Is Baroque, by Albertino Gonçalves. 1st edition: 2007. Expanded edition: January 22, 2026

Flores cantantes. Singing Flowers

“Para melhor está bem, está bem, para pior já basta assim”. Bom ano!
“For better, that’s fine, for worse, that’s enough already”. Happy New Year! (Portuguese song).

Euflorie. Let Flowers Do The Talking. República Checa, ca. 2004

O enterro da cabeça na areia

Com a modernidade, a cultura descobre-se cada vez mais dependente da economia e da política. Como diria Pascal, “sabe-se isso em mil coisas”: nas teorias, nos usos e nos costumes. Se outrora a postura das elites culturais era o contraposto, agora é o disposto, a fatalidade e o desgosto convertendo-se em vontade e vaidade. E o catavento emerge como figura totémica. O cenário complica-se quando os agentes culturais permanecem provincianos (agacham-se em bicos de pés) e paroquiais (encolhem-se e enredam-se em casulos e teias intramuros).

“Pequenos deuses caseiros”, gravitam ao redor de olimpos terrenos. Cortesãos, apressam-se a beijar as mãos estendidas pelos senhores providenciais. Ser é (a)parecer e agradar. Agitam as asas como quem promete voo, mas não saem do chão. Nos momentos de verdade, enterram a cabeça na areia.

Não me tomem muito a sério. Escrevo para o lado que estou virado, consoante o estímulo que acaba de me impressionar. Por exemplo, a curta-metragem animada “The Ostrich politic”, de Mohamad Houhou. Para exacerbar, o tempo apresenta-se com ar seco e luz crua.

The Ostrich politic – Animation Short Film. Realizador: Mohamad Houhou.  GOBELINS, L’ecole de l’image. Paris, 2018. Tem legendas em português.

Por quem Deus nos manda avisar!

Estamos em vias de celebrar o nascimento do Menino e acabam de cair no sapatinho quatro anúncios que se querem de consciencialização:

  • Ameaçam-nos ambientes, presépios, de desorientação (Vodafone);
  • Os amigos imaginários existem e são, porventura, benéficos (Disney);
  • Mas a presença dos pais é insubstituível (Ikea);
  • E ter um irmão pode fazer a diferença (Waitrose).
Anunciante: Vodafone. Título: The Open Line. Agência: The Elephant Room. Direção: David Stoddart. Reino Unido, novembro 2025
Anunciante: Disney. Título. Best Christmas Ever. Agência: adam&eveDDB/London. Direção: Taika Waititi. Reino Unido, novembro 2025
Anunciante: IKEA. Título: Esta navidad, el mejor regalo es estar presente. Agência: McCann (Madrid). Direção: Alauda Ruiz de Azua. Espanha, novembro 2025
Anunciante: Waitrose. Título: The Perfect Gift. Agência: Wonderhood Studios/London. Direção: Molly Manners. Reino Unido, novembro 2025

Abanar o esqueleto

Skeleton Dance. Nuremberg chronicles f 264r (imago mortis). 1493. Latin copy in Sao Paulo

Na semana passada, proporcionou-se mostrar The Skeleton Frolic aos alunos de Sociologia da Arte e do Imaginário. Trata-se de uma animação, desenhada por Ub Iwerks em 1937, que integra a série Color Rhapsodies da Columbia Pictures. Entretanto, o Fernando lembrou-se de The Skeleton Dance, o “original inspirador”. Desenhado também por Ub Iwerks, inaugurou, há quase um século, em 1929, a série Silly Symphonies criada por Walt Disney.

The Skeleton Dance. A Silly Symphony. A Walt Disney Comic. Drawn by Ub Iwerks. Directed by Walt Disney. Music by Carl W. Stalling. 1929
The Skeleton Frolic. Color Rhapsodies. Columbia Pictures. Directed by Ub Iwerks. 1937

Agonístico

Ocidentalização do oriente ou ocidente orientalizado? Ou um oriente, animada e delirantemente, bel(ic)o?
A canção “Let’s just crash” (2nd Opening Theme of TV Anime GACHIAKUTA), de Mori Calliope estreou ontem, dia 3 de novembro de 2025.
Um mimo filial, espécie de vacina contra a fossilização do espírito.

LET’S JUST CRASH – Mori Calliope (2nd Opening Theme of TV Anime GACHIAKUTA). Director : Yohei Kameyama, 03.11.2025

Fantasmas do Mês dos Medos

O anúncio mexicano “Todo por Cheetos”, da Pepsico, inaugura brilhantemente e com sentido de oportunidade o mês dos medos. Associado à série Merlina, da Netflix, foi supervisionado por Tim Burton.

Mano a mano, pasito a pasito, a publicidade leva o Tendências do Imaginário um pouco por todo o mundo. Inclino-me, contudo, a contornar as geografias que tresandam a ódio (por todos os contentores e conteúdos, incluindo as vacinas) e a excesso de higienização (com overdoses de salvadores e detergentes). Não me cativam as misérias alheias sublimadas em emblemas pessoais de trazer ao peito.

Prefiro dirigir o olhar, cansado e limitado, para os centros e eixos passíveis de decidir o (meu) futuro, com ou sem candidatos a prémios da paz. Pelo caminho, sobram paladinos genuínos da generosidade, cujas maçãs caem menos vítimas de ventos adversos e mais por apodrecimento interno. “Hoje é domingo, ai que preguiça! Hoje é domingo, não vou à missa!”

Anunciante: Pepsico. Produto: Cheetos. Título: Todo Por Cheetos. Agência: Isla Ciudad de México. Canção: “La Llorona”, interpretada por Chavela Vargas. México, outubro 2025

Entroncamento auspicioso

Carrefour. La relación Precio Calidad. Argentina, 2025

Um dia, faz 43 anos, no Carrefour (encruzilhada), o preço e a qualidade encontraram-se, encetando uma história de amor feliz sem fim à vista, a não ser que, por capricho do mercado, o ponto de encontro, o Carrefour, feche as portas, como aconteceu em Braga, deixando saudades, pelo menos, aos francófilos.

Anunciante: Carrefour. Título: La relación Precio Calidad. Agência: Mercado McCann. Direção: Watta Fernández. Argentina, setembro 2025

Anúncios de arrepiar

Brinquemos aos disparates!

Se existem profissionais cuja capacidade de aprendizagem admiro são os médicos. Mas, até entre os mais dotados e afoitos, a aprendizagem pode enredar-se num qualquer nó. Talvez seja o caso do “sistema” [informático], mais mecânico do que orgânico. Por trágica ironia, quando se começa a dominar o “sistema”, logo o dito cujo cuida de mudar.

Por seu turno, os sociólogos comprazem-se a desatar nós. Desconstroem-nos, “reformando ilusões”. No conhecimento sociológico proliferam, portanto, as pontas soltas. Entre enlaces e desenlaces, o diálogo entre médicos e sociólogos pode ser edificante. Mesmo quando é questão do senso comum sábio acerca dos malefícios mais que evidentes do tabaco.

Imagem: Kamal Gurung, Lalitkala Fine Art Campus. Kathmandu, Nepal

Tenho sugerido que a publicidade de consciencialização varia geograficamente. O Ocidente tende a apostar no sério realista assustador, o Oriente, no humor delirante persuasivo.

O anúncio português “Heavy Silence”, sobre o risco de afogamento, segue a regra; já o anúncio tailandês “Park”, sobre os perigos do cigarro eletrónico, afasta-se da tendência oriental. A fantasia e o riso congelam dando lugar ao drama. Pelos vistos, a adesão dos jovens ao cigarro eletrónico assevera-se particularmente alarmante.

Anunciante: APSI (associação para a promoção da segurança infantil). Título: Heavy Silence. Agência: Havas Worldwide Portugal. Portugal, julho 2022
Anunciante: Thai Health Promotion Foundation. Título: Park. Agência: Grey Thailand. Direção: Suthon Petchsuwan. Tailândia, agosto 2025

Contra infestação

Cautela! Os intrujões andam imparáveis. A pretexto do nosso bem! Não apenas na Internet. Só vejo televisão quando a “atualidade” se presta: “cimeira decisiva”, “guerra aos incêndios”… Importunam-ne os comentadores residentes omniscientes ou os painéis que descambam em propaganda. Semelhantes intrometidos, estranhos ou conhecidos, são mais difíceis de identificar do que os vírus” bloqueados pela Telstra.

George Grosz, O Agitador. 1928

A nova campanha da Telstra, “Blocking Villains”, apresenta (…) um imperador intergaláctico que tenta aplicar golpes nos australianos, mas seus planos são frustrados pela segurança da rede da Telstra. A campanha (…) visa destacar os esforços da Telstra para bloquear ameaças cibernéticas e proteger os clientes de golpes. (…) A campanha utiliza a narrativa de uma invasão alienígena por meio de crimes cibernéticos para demonstrar a capacidade da rede da Telstra de bloquear golpes. (IA)

Marca: Telstra: Título: Blocking Villains – Scamageddon 90s. Agência: Bear Meets Eagle On Fire with +61. Direção: Randy Krallman. Austrália, agosto 2025
Marca: Telstra: Título: Blocking Villains – Scamalanche 15s. Agência: Bear Meets Eagle On Fire with +61. Direção: Randy Krallman. Austrália, agosto 2025

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Marca: Telstra: Título: Blocking Villains – Deceiver Lever 30s. Agência: Bear Meets Eagle On Fire with +61. Direção: Randy Krallman. Austrália, agosto 2025