A Cor dos Caras Pálidas
Os caras pálidas são uns troca-tintas. Mudam de cor como quem muda de pele. Não são unos. Nem puros. Nada são em permanência. E depois? É preciso ser claramente coisa alguma? Ser-se, como se diz, igual a si próprio? Arriscado é combater o racismo com os argumentos do racismo. Este anúncio faz sentido com sentido de humor. Eventualmente, como paródia de si mesmo.
Anunciante: Anti Racism. Título: Dear White fella: Colours of racism. Agência: M&C Saatchi. Direcção: Chris Palmer. UK, 2001.
Um furo no céu
O céu deve ter um buraco. Caem estrelas na terra. Em plena febre futebolística, continua a brilhar um anúncio do tempo do mundial da África do Sul. A criança não resiste ao sono. As jornadas são assim: à chegada, o repouso, o repouso do guerreiro. Soberbo!
Marca: Orange. Título: Being there. Agência: Marcel (Paris). Direcção: Drake Doremus. França, 2013.
Um traço de giz
Há muitos patinhos feios. E poucos cisnes. O inferno mora em todo o lado. “São os outros”, diria Jean-Paul Sartre. Em casa, na escola, na rua… Mas há um traço de giz que pode marcar a diferença. Pode desenhar a ilha que nos habita. A ilha da excepção. A ilha do tesouro. A ilha da vocação. A todos o inferno, a cada um o seu pedaço de giz.
JuBaFilms. With a piece of chalk. Alemanha. 2012.
A Donzela e o Unicórnio
Nem sempre é fácil encontrar uma imagem que condiga com uma música. Nessas circunstâncias, nada como esquecer a música e optar por uma imagem que nos agrade, se possível com um grão de exotismo. A música “In The Beginning Was The Word”, de Lisa Gerrard e Marcello de Francisci (Departum, 2010), segue, desta sorte, rodeada por unicórnios medievais: uma iluminura do Livro de Horas de Nassau (ca. 1470-1490) e uma galeria com as seis tapeçarias de La Dame à la Licorne, uma para cada sentido, mais a que sobra para o desejo (finais do séc. XV: Museu de Cluny, Paris).
Lisa Gerrard e Marcello De Francisci. In the beginning was the word. Departum. 2010.
- 01. Dame à la licorne. Le goût. Cluny. Paris. Fim séc. XV.
- 02. Dame à la licorne. L’ouie. Cluny. Paris. Fim séc. XV.
- 03. La dame à la Licorne. La vue. Cluny. Paris. Fim séc. XV.
- 04. Dame à la licorne. L’odorat. Cluny. Paris. Fim séc. XV.
- 05. Dame à la licorne. Le toucher. Cluny. Paris. Fim séc. XV.
- 06. Dame à la licorne. À mon seul désir. Cluny. Paris. Fim séc. XV,
A Suspensão da Espécie
Este anúncio da Durex lembra os filmes do James Bond (“Condom 007”) e dos gangsters (“Condoms Traffic”). Uma vez localizados, somos pronta e discretamente servidos. O SOS Condoms não surpreende. Foi precedido pelo pacote completo. O cliente localiza-se e recebe a contracepção mais os acessórios.
Vem a propósito a notícia recente de que existem, em Portugal, “empresas que obrigam mulheres a comprometer-se a não engravidar durante cinco anos”. Esta austeridade pode integrar a mesma galeria que os míticos direito à pernada e cintos de castidade. Abre-se e fecha-se. Virgindade, ontem, maternidade, hoje, a violência sobre as mulheres repete-se. Que fazer? Continuar a apelar aos nossos brandos costumes? As chagas de Ourique martirizam este País. Às vezes, penso se não somos mais medievais do que os medievais da Idade Média.
Marca: Durex. Título: SOS Condoms. Agência: Buzzman Middle East. Emirados Árabes Unidos, 2013.
O Gozo da Maldade
Este anúncio dinamarquês é uma história sem palavras. Gosto de histórias sem palavras. São fáceis de traduzir. Esta é composta, exclusivamente, por maldades, por sinal, gratuitas. Somos assim, apreciamos maldades estúpidas, que não trazem proveito a ninguém. O nosso olhar abre-se de gozo, para logo se fechar numa piscadela ao diabo. O condutor do descapotável é mau, pelo prazer da maldade. O condutor do eléctrico é mau, pelo prazer da vingança. Pelos vistos, não há melhor promoção do que tamanho gozo na maldade.
Marca: As Oslo Sporveier. Título: Make way for the tram. Agência: New Deal. Direcção: Rof Sohlman. Noruega, 1993.
A Força
Se tens a força, poupa o fôlego. A força é uma miragem da humanidade. Pode estar dentro de ti, pode estar fora. Até se pode concentrar num lego. Por sua vez, o recurso a ícones populares é uma tentação do minimalismo. Que a força esteja contigo!
Marca: Lego. Título: Happy Birthday Lego Star Wars. Internacional, 2014.
E porque há forças e forças, Sérgio Godinho:
Macabro
Não gosto de dançar com cadáveres. Não é que sejam cadáveres; estão vivos. Mas, pelo sim, pelo não, já os depositaram na morgue.
Seguem duas canções dos Agua Viva (Apocalipsis, 1971). A primeira porque “me queda la palabra”, a segunda porque “los niños muertos no crecen”. Nunca imaginei, 43 anos depois, ouvi-los com os mesmos ouvidos.
Agua Viva. Me Queda la Palabra. Apocalipsis. 1971.
Agua Viva. La Niña de Hiroshima. Apocalipsis. 1971.
Amai-vos uns aos outros
Este anúncio da Freeview lembra-me a gata. Os pássaros, os ratos, as lagartixas e as moscas morrem de amores. E trá-los para casa para a família os abençoar.
Uma gata muito livre e muito sábia, que costuma dar alguns conselhos enquanto se ajeita no colo:
– Não peças ao Estado: entras num labirinto e sais num pântano.
– Se o Estado te pede um trabalho, olhos de gato e pernas de rato. O negócio, só por milagre, não resulta em ruinoso investimento.
– Quando comunicas, sabe qual é o teu público. Se local, comunica para os locais; se nacional, para os nacionais, se estrangeiro, para os estrangeiros. À partida, nenhum destes públicos vale mais que o outro. Quando muito, pode ou não ser adequado aos teus propósitos.
– Quando estudas e comunicas o local, é, normalmente, o local quem paga. Quando estudas e comunicas o nacional, é, normalmente, o nacional quem paga. Quando estudas e comunicas o estrangeiro, quem é que paga? Nenhuma destas três fontes deve secar as outras. E qual é o retorno? Não repitas estas perguntas. Serás considerado populista ou “terrorista”. Há quem gaste o dinheiro do povo e não tenha que prestar contas.
– Evita ser um eunuco linguístico. Na tua terra, na tua cultura, com a tua gente, fala a tua língua. Repara no teu blogue: escrito em Português, é acedido por 21,7% de internautas provenientes de Portugal, 37,8%, do Brasil e 40,5% de países não lusófonos. Como seria se fosse escrito em inglês? Não sei como seria, mas não seria certamente o teu blogue. Se calhar, seria o blogue de um conde andeiro qualquer.
– Não existe uma hierarquização? É velha a tendência para inclinar a escada para o lado que convém. De preferência, com a ajuda do vento. Em Portugal, há muitos cataventos.
Já agora, termino com uma brincadeira, com uma farsa: um dia virá em que os nossos nomes serão convertidos para língua estrangeira; será mais fácil dar-nos ordens!
Palavras de uma gata mimada que não exporta pássaros, nem ratos, nem lagartixas, nem moscas. Nem sequer, pêlos.
Marca: Freeview. Título: Cat and Budgie Love. Agência: Leo Burnett. Direcção: Ne-O. UK, Fevereiro 2014.













