Archive | Novembro 2024

Esperar o amor de olhos fechados

“Les grands hommes se passionnent pour les petites choses, quand les grandes viennent à leur manquer / Os grandes homens apaixonam-se pelas pequenas coisas quando as grandes começam a faltar-lhes” (Alexis de Tocqueville, Correspondance, à G. de Beaumont, 22 mars 1857)

Gosto de gostar e cuido dos meus gostos. Existe muita gente que faz tudo para satisfazer os seus gostos e quase nada para os cultivar. Eu invisto neles. O Tendências do Imaginário peca, aliás, por assumir, desde o início, essa vocação: plantar e jardinar prazeres.
Pode esperar-se o desejado sentado, como Townes Van Zandt em If I Needed You, ou de olhos fechados, como Leo Sayer em When I Need You. Em ambos os casos, estufa-se!

De um modo geral, as canções de Leo Sayer não me empolgam. “When I Need You”, de 1976, uma versão do original de Albert Hammond, representa uma exceção. Ficou-me no ouvido quando saiu, e entendo não a deixar secar na horta.

Leo Sayer – When I Need You. Endless Flight, 1976

Esperar pelo amor sentado

“A salvação crucificou-se a si mesma” (Townes Van Zandt, Lungs, 1969)

O aumento da esperança de vida no último meio século, de 64 para 78 anos nos homens e de 71 para 84 nas mulheres, contribui para que muitos se recordem da canção If I Needed You, interpretada em 1972 por Townes Van Zandt. Da sua vasta discografia, retenho ainda Lungs, música composta em 1969 quando tomava medicação que lhe dificultava a respiração. Faleceu em 1997, com 52 anos, vítima de crise cardíaca.

Townes Van Zandt – If I Needed You. The Late Great Townes Van Zandt, 1972
Townes Van Zandt – Lungs. Single, 1969

Seul: Barbudos em nevão recorde

Coreia do Sul enfrenta segundo dia de neve intensa que já causou cinco mortes / Vaga de frio poderá estar a abrandar, mas causou mais de 140 voos cancelados, mais de mil escolas fechadas e, pelo menos, cinco mortes. Mais de 40 cm de neve acumularam-se em algumas zonas de Seul. (Público, 28.11.2024)

João em Seul. 27.11.2024. Fotografia de Fernando Gonçalves

Os meus dois barbudos estão a rapar um frio de rachar em Seul: 10º negativos e neve com mais de 40 cm.

O Fernando devia estar a caminho do Japão, onde estão 22º positivos, mas o voo foi adiado para sábado.

Que os deuses da Coreia, que são muitos, os agasalhem!

Seguem algumas das fotografias que enviaram ontem, quarta, 27 de novembro.

Imagem: Fernando em Seul. Fotografia de João Gonçalves. 27/11/2024

Fernando em Seul. 27.11.2024. Fotografia de João Gonçalves

Galeria: Fotografias do nevão em Seul – 27 de novembro de 2024

Crescer em ambiente hostil

A indústria musical australiana atravessa um momento difícil: festivais cancelados e salas de espetáculo encerradas. Segundo a Australian Recording Industry Association (ARIA), a Austrália é o décimo mercado musical do mundo, mas apenas quatro álbuns e três singles de artistas australianos alcançaram o top 100 em 2023.

Imagem: Briggs

Para contrariar esta situação, a Sprout, marca de acessórios musicais, concebeu a plataforma criativa Homegrown Sound, cuja campanha de lançamento estreia “Munarra”, o novo single de Briggs, artista indígena que funde hip-hop e heavy metal. Inspirado no seu próprio percurso de vida, Briggs pretende “ultrapassar os limites (…) contar uma história sobre o que significa crescer em ambiente hostil e emergir disso com força”. O resultado é brutal, insólito e visceral. Um dos vídeos musicais mais impressionantes de que guardo memória.

Marca: Sprout. Artista: Briggs. Título: Munarra. Agência: +61 / Bear Meets Eagle On Fire. Direção: Tom Noakes. Austrália, novembro 2024

A amamentação através dos tempos III. O primeiro milénio cristão

Igreja de Anba Bishay e Anba Bigol. Mosteiro Vermelho. Perto de Sohag. Egito. Sec. VI a VII . Fotógrafo: E. Bolman

Com o corpo debilitado durante uma meia dúzia de anos, acabei por abusar das “células cinzentas”, teimosamente operacionais. Tornei-me um hiperativo mental, a saltar de assunto em assunto, vários ao mesmo tempo, sem os acabar. Faltava a corda para os desafios que abraçava. Subsistia, contudo, uma vantagem: entregar-me (quase) apenas ao que gostava: investigar, muito; escrever, bastante; divulgar, pouco. Acumulei descobertas, que não escrevi, e apontamentos, que não publiquei. Num estilo impaciente, apertado e abreviado, com a imagem a sobrepor-se à letra.
Algo recuperado, por inércia ou histerese, esta hiperatividade mental não diminuiu. Continuo a multiplicar as pesquisas, sem cuidar de as concluir nem de partilhar os resultados.
O Tendências do Imaginário é um bom testemunho deste estado pouco recomendável. Passaram quase três meses desde a publicação do segundo artigo da série A amamentação através do tempo, dedicado ao primeiro milénio pagão. A Baixa Idade Média oferecia-se com a meta almejada, contemplando, portanto, o românico, o gótico e parte do renascimento. Recolhi, em conformidade, informações e imagens. Arrumei-as numa fila à espera de ocasião propícia, eventualmente o dia de São Nunca. Sábado, fui ao Mosteiro de Tibães. Os fantasmas dos monges copistas e iluminadores, o entusiasmo da Aida Mata, a dedicação da Anabela Ramos e a curiosidade do Alberto Gonçalves despertaram-me um raro rebate de consciência. Não partilhar as imagens da “Virgem do Leite” do primeiro milénio cristão configurava um desperdício, senão um pecado de soberba e preguiça. Partilho-as, portanto, despojadamente, em jeito de penitência. Perdi o treino à comunicação e a escrita oferece-se como um prazer que me custa. Mas, com franqueza e sem maneirismo, o que mais me incomoda é a sensação de estar a despachar questões dignas de mais cuidado e atenção.

O primeiro milénio da era cristã revela-se estranhamente parcimonioso no que respeita a imagens, conhecidas, com a Virgem a amamentar o Menino. Esta exiguidade estende-se, aliás, à generalidade das imagens marianas, quando não cristãs, o que surpreende atendendo à expansão do cristianismo, mormente a partir do século IV, na sequência dos éditos de Milão, que o legaliza em 313, no tempo de Constantino, e de Tessalónica, que o promove a religião oficial exclusiva do Império Romano, em 380, no tempo de Teodósio I.

O culto da Virgem levou, porém, algum tempo a consolidar-se, devendo aguardar a sua consagração dogmática como Mãe/Portadora de Deus (Theotokos) no Primeiro Concílio de Éfeso, em 431.

É provável que, pelo menos a partir dessa data, as imagens com a Virgem se tenham multiplicado, principalmente no Imperio Romano do Oriente, onde a presença cristã era notável e as artes não só se mantiveram como se desenvolveram. Só que esta implementação não “ficou para a História”. A grande maioria das imagens foi destruída pelos movimentos iconoclastas dos séculos VIII (726 a 787) e IX (814-842), responsáveis por uma autêntica razia das imagens religiosas, associadas à idolatria. Estes movimentos foram decretados pelos imperadores que, no Império Romano do Oriente, eram também os chefes da Igreja Ortodoxa. Sublinhe-se que, durante o primeiro milénio, Constantinopla foi o principal centro de produção de arte cristã.

Afresco com a Virgem e o Menino. Catacumba de Priscila. Roma. Final do século II, início do século III
Mulher a amamentar um menino. Possivelmente a Virgem Maria. Catacumba de Priscila. Roma. Ca. 260

Não admira que na fase inicial desta indagação apenas tenha surgido um par de afrescos pressupostamente com a Virgem a amamentar o Menino, ambos descobertos na catacumba de Priscila, em Roma, datados por volta dos séculos II e III. O primeiro afresco suscita-me poucas dúvidas. Parece ser um fragmento de uma cena com a Adoração dos Reis Magos.

Adoração dos Magos. Afresco da Catacumba de Priscila. Roma. Séc. III
Adoração dos Magos. Decoração de um Sarcófado. Museus do Vaticano. Séc. III

Aponta nesse sentido a semelhança com outro afresco da catacumba de Priscila e com a decoração de um sarcófago, ambos do século III, cujo motivo é, precisamente, a Adoração dos Reis Magos, com a Virgem e o Menino na mesma posição e uma figura de pé a apontar para a estrela.

Cenas com Sofia, Maria e Cristo ou da vida de uma mulher cristã defunta. Catacumba de Priscila. Roma. Ca. 260

O segundo afresco, com uma mulher a amamentar uma criança, justifica mais reservas. Orantes, com os braços abertos levantados, são frequentes nas catacumbas romanas. Na composição do afresco, tanto pode aparecer Sofia, no centro, Cristo com amigos, à esquerda, e a Virgem com o Menino, à direita, como um conjunto de cenas da vida de uma mulher defunta (ver um exemplo semelhante respeitante ao túmulo de uma criança na imagem seguinte).

Sarcófago de Cornelius Statius, uma criança. Evocação da sua vida.140 a 150 d.C. De Roma. No Museu do Louvre

Perante esta exiguidade, que fazer? O mesmo que, há alguns anos atrás, adotámos para as imagens de Cristo: alargar horizontes, demandar outros territórios e outras cristandades, além dos Impérios Romanos do Ocidente e do Oriente e das igrejas Católica Apostólica Romana e Ortodoxa Bizantina. Sondar, por exemplo, a Síria, a Palestina e o Egipto, conquistados pelos muçulmanos no século VI, em particular as igrejas Ortodoxas Copta e Síria, com foco especial nos mosteiros de Apa-Jeremias, em Sacará, e Santa Catarina, no Monte Sinai.

Escavações no Mosteiro de Apa-Jeremias, em Sacará (1908-9, 1909-10)
Mosteiro de Santa Catarina no Monte Sinai

Com este “desvio”, sobem de duas para nove as imagens encontradas com a Virgem a amamentar o Menino anteriores aos iconoclasmos dos séculos VIII e IX [Na galeria seguinte, carregar em cada imagem para a aumentar e ler a respetiva legenda].

Galeria 1: Imagens com a Virgem a amamentar o Menino no primeiro milénio

Quatro apontamentos complementares em jeito de conclusão:

1) A figura da Virgem do Leite não foi criada na Idade Média Central e ainda menos pelo estilo gótico. Existem antecedentes desde o século II;

2) A produção de imagens com a Virgem a amamentar o Menino foi muito superior aos exemplares conhecidos;

3) Durante o primeiro milénio, as imagens com a Virgem a amamentar o Menino afastam-se pouco de outras congéneres, tais como a Ísis Lactans ou as Deusas Mães, por exemplo, celtas e galo-romanas;

4) A sobrevivência de muitas imagens cristãs deve-se à sua localização em territórios não pertencentes ao Império Bizantino, designadamente sob domínio muçulmano, durante os períodos iconoclastas dos séculos VIII e IX.

A busca de imagens com a Virgem a amamentar o Menino proporcionou, naturalmente, o conhecimento de imagens apenas com a Virgem e o Menino. Eventualmente menos divulgadas e de difícil acesso, coloco, na galeria 2, uma seleção com 26 exemplares.

Galeria 2: Imagens apenas com a Virgem e o Menino no primeiro milénio

Nesta galeria, dez imagens provêm do Egipto e nove de Roma. Três repartem-se pela Ucrânia, Geórgia e Alemanha, regiões não pertencentes ao Império Bizantino durante os iconoclasmos. Apenas duas imagens são oriundas de Constantinopla/Istambul, por sinal posteriores ao último movimento iconoclasta (datadas por volta do ano 1000). Enfim, a única imagem restante, do século VI, encontra-se na Basílica de Santo Apolinário Novo, em Ravena. Esta cidade constitui um caso singular. Trata-se de uma das principais concentrações atuais de arte bizantina, nomeadamente do período de transição entre o romano e o bizantino. Boa parte dos mosaicos cristãos mais antigos abrigam-se nas basílicas de São Vital e Santo Apolinário Novo. Escaparam por pouco à purga do primeiro movimento iconoclasta, que, decretado por Leão III, em 726, atingiu o auge, sob Constantino V, a partir do Concílio de Hieria, em 754. “Providencialmente”, três anos antes, em 751, os lombardos conquistaram Ravena, libertando-a do controlo bizantino.

Ironia das ironias, coube, naquele tempo (séculos VIII e IX) aos muçulmanos e aos “bárbaros” “proteger” a arte cristã do zelo purificador da cristandade “ortodoxa”.

“E esta, hein?” Arte com drones

De Seul, na Coreia do Sul, os meus rapazes enviaram-me estes dois pequenos vídeos. Primeiro, pensei que era uma nova espécie de holograma. Mas não! Geram este efeito espantoso com drones mais que sincronizados. “E esta, hein?”

Espetáculo com drones. Seul. Coreia do Sul. Novembro 2024. Carro. Filmado por Fernando Gonçalves
Espetáculo com drones. Seul. Coreia do Sul. Novembro 2024. Tigre. Filmado por Fernando Gonçalves

O rinoceronte, o mosquito e o texugo

Potência e agilidade, robustez e leveza, não costumam namorar. Mas existe, porventura, uma mezinha, um segredo, que providencia o casamento. A crer no anúncio No Sweat, a Apple consegue a proeza da “força sem esforço”, graças ao novo microchip M4.

Marca: Apple / MacBook Pro / M4 chip. Título: No Sweat. Agência:  TBWAMedia Arts Lab. Direção: Megaforce. USA, outubro 2024

Descobrir relíquias

Com a Elvira durante o magusto no Mosteiro de Tibães. 23.11.2024

Entregue a mim mesmo, costumo esquadrinhar as estantes dos CD e dos Vinis em busca de uma relíquia. Um modo de revisitar o passado. Hoje, retive o álbum com os concertos para clarinete e fagote de Mozart. O que me terá cativado para o adquirir em 1980? Mais do que a peça exemplar de fagote, o adagio do clarinete, interpretado, nessa edição da Deutsch Grammaphon, pela Orquestra Sinfónica de Boston, dirigida por Seiji Ozawa.

Segue a interpretação do referido adagio, agora, pela Iceland Symphony Orchestra, com Arngunnur Árnadóttir no clarinete.

Wolfgang Amadeus Mozart – Clarinet Concerto in A major, K.622. Adagio. Iceland Symphony Orchestra. Conductor: Cornelius Meister. Clarinet: Arngunnur Árnadóttir. Reykjavík, September 10th 2015.

O feitiço das castanhas

O feitiço das castanhas

Projetava colocar hoje uma música do Mozart, mas fui a um magusto no Mosteiro de Tibães. Encontrei velhos amigos e até antigos alunos. Regresso jovial e prazenteiro, inebriado pela positividade simbólica das castanhas. Tenho vindo a colocar artigos que, por qualquer motivo, convocam a Alemanha. Pois lembrei-me dos Scorpions, o grupo rock alemão com maior reputação internacional no século passado, cujas baladas se prestam a uma dança com uma parceira imaginária.

Scorpions – Still Loving You. Love at First Sting, 1984. Live at Rock in Rio 1985
Scorpions – Wind Of Change. Crazy World, 1990
Scorpions – Send Me An Angel. Crazy World, 1990
Scorpions – You And I. Moment of Glory, 2000

Nuvens de lã

Todos viajam nesta casa. A São já está na Holanda e os rapazes, o João e o Fernando, ainda no avião rumo à Coreia do Sul e ao Japão. No que me respeita, nem sequer demando as terras por onde andou o rei pasmado (Gonzalo Torrente Ballester). Fico de guarda, mas não conto carneiros. Vejo, antes, a sua lã transformar-se em nuvens que choram, na extraordinária curta-metragem de animação AFTER DE RAIN, produzida por um grupo de alunos da MoPA (Motion Picture in Arts – Arles, França).

Para a Sara

Um pastor vive sozinho num vale isolado, acompanhado apenas pelo seu rebanho de ovelhas e pelo seu cão fiel. O pastor tem uma aptidão notável: tosquia as ovelhas e cria nuvens com a lã, que por seu turno se desfazem em chuva, mantendo o vale verdejante e fértil. Mas quando o pastor morre, o vale torna-se árido e as ovelhas necessitam ser tosquiadas. Cumpre ao cão encontrar uma solução…
Com imagens extravagantes, uma narrativa escorreita e um fundo musical impecável, esta curta-metragem oferece uma bela parábola sobre natureza, equilíbrio, lealdade e herança. Encanta os olhos e ouvidos com formas suaves e arredondadas e cores lindamente claras, representando personagens e cenários com sensibilidade, graça e atenção aos detalhes e gestos para comunicar emoções. Por exemplo, na maneira como o pastor acaricia o cachorro, na forma como este abana o rabo ou na sua tristeza e perplexidade quando o pastor morre. Mas também há humor fino e bem-disposto, como quando as ovelhas incham por causa da lã demasiado crescida…
AFTER THE RAIN excela ao nível do modo como conta a história. Embora a sua duração seja inferior a nove minutos, possui a profundidade, a inteligência e a sabedoria caraterísticas de narrativas muito maiores. Como a maior parte das grandes histórias da literatura infantil, explora o arquetípico e o simbólico, colocando emoções e dilemas universais ao serviço do esclarecimento moral e emocional (Omeleto, 2020; tradução muito livre).

AFTER THE RAIN. Curta-metragem produzida pelos alunos da Escola de Animação Francesa MoPA Valerian Desterne, Juan Olarte Zuniga, Carlos Osmar Salazar Tornero, Lucile Palomino, Juan Pablo de la Rosa Zalamea, Celine Collin and Rebecca Black, 2019. Colocado por Omeleto no YouTube em janeiro de 2020.