Archive | Julho 2024

Anedotário: Pelos Cabelos

Nada como ser careca para não perder cabelos

Ontem, fui cortar o cabelo só, com os meus tamanquinhos, não acompanhado.  A primeira vez em anos. Um pequeno passo para a autonomia, a passagem do cabo Bojador rumo ao da Boa Esperança. Fui só porque não consegui arranjar companhia. Há necessidades que vêm por bem.

No dia, 22 de setembro de 1922, assinalei o regresso ao meu barbeiro. Desta vez, uma reconquista.

“Costuma dizer-se que o homem a ser fiel a alguém, então é ao barbeiro. Volvidos três anos, consegui regressar ao meu jardineiro de cabelos preferido. E sinto-me outro. Nem arquivo, nem sabedoria; nem restaurado, nem novo. Apenas com a minha calvície a parecer a clareira de uma floresta bem cuidada.” (O jardineiro de cabelos: https://tendimag.com/2022/09/16/o-jardineiro-de-cabelos/).

Durante décadas, dispus-me a ir de Braga a Melgaço para cortar o cabelo! Creio não ser um caso isolado de fidelidade ao “jardineiro de cabelos”. No que respeita a este tipo de desvario, não sou um caso isolado.

Deu-me para perder tempo a escrever trenguices. Ainda bem que tenho tempo para perder e prazer em fazê-lo. Apenas arrisco abusar do vosso. Neste aspeto, também não sou o único a olhar para o céu.

Não, não sou o único
Não sou o único a olhar o céu

E quando as nuvens partirem
O céu azul ficará
E quando as trevas abrirem
Vais ver, o sol brilhará
Vais ver, o sol brilhará

Enfim, ao desperdiçar gozosamente tempo a esculpir nuvens, receio resultar algo inoportuno em relação aos meus ex-colegas que se encontram, como dizem, acelerados na reta final. Antigamente, eramos supostos ser corredores de fundo, agora parecem ser quase todos sprinters.

Xutos & Pontapés – Não Sou O Único. Circo de Feras. 1987. Ao vivo nos International Portuguese Music Awards 2022, em Providence, Rhode Island, Estados Unidos.

O Rei Vai Transparente

Fonte – http://incakolanews.blogspot.com/2011/01/on-copper-etfs-emperors-and-new-clothes.html

Vídeos que convocam a nudez, estilizada ou não, como os seguintes são cada vez mais raros na publicidade e na comunicação social. Migraram para as redes sociais e páginas especializadas da Internet. Trata-se de uma mudança de mentalidade e de sensibilidade, de uma contradança acelerada a que o homem eletrónico nos habituou.

Anunciante: Greenpeace. Título: La Poire. Internacional, 1990

Neste contexto e com esta dinâmica, não admira que estes três anúncios sejam difíceis de encontrar, sobretudo La Poire, de 1990, e Anti Dioxine, de 1997. Para exibir o primeiro, recorri ao arquivo pessoal; o fabuloso arquivo da Culturepub valeu-me no segundo. Procurei e procurei, principalmente o Antidoxine, cujo acesso, em dois tempos, não é amigável: primeiro, carrega-se na imagem do artigo; em seguida, abre-se o vídeo na Culturepub. Nem sequer no arquivo da Greenpeace International o encontrei. O que se compreende. Diferente dos demais, Anti Dioxine não mostra, como diria um tio, as “partes pudibundas”. Sugere algo pior. Dá asas à imaginação. Ora, os neurónios em voo não são de fiar.

Anunciante: Greenpeace. Título: Anti Dioxine. Internacional, 1997

Andam deveras zelosos os guardiões da ética. E muito atarefados, também. A amplitude e as subtilezas do mal não param de alastrar. Neste cenário adverso, toda a ajuda é pouca!

Há quatro ou cinco séculos, as famílias respeitáveis retocavam ou amputavam as pinturas e as esculturas para furtar as crianças a semelhantes obscenidades. Hoje, os bebés mergulham, porventura demasiado cedo, nos ecrãs e folheiam histórias duvidosas. Até a literatura infantil requer pente fino. A começar pelos títulos. Proponho, por exemplo, a alteração de O Rei Vai Nu, de Hans Christian Andersen, para “O Rei Vai Transparente”. Assim, toda aquela multidão não “vê” o rei nu mas transparente! Esta solução possui, aliás, a virtude de se coadunar com o linguajar e as preocupações atuais.

Anunciante: Greenpeace. Título: Sunshine. USA, 2007

Enfim, o único intuito com que partilho estes vídeos indecorosos é de ordem meramente profilática, em jeito de vacina ou para homeopatia. Não se brinca com estas coisas!

Menopausa, inteligência artificial e ar-condicionado

Modo Menopausa. LG Dual Inverter + IA, junho 2024

A LG acaba de anunciar a fase beta do Modo Menopausa, solução para identificar e responder prontamente aos fogachos ou ondas repentinas de calor corporal enfrentados por mulheres na fase do climatério. A partir da integração entre inteligência artificial, a tecnologia de conectividade ThinQ e smartwatches, a iniciativa funciona por meio de um aplicativo instalado no smartwatch, combinando o dispositivo com um aparelho de ar-condicionado da marca, o modelo LG Dual Inverter +AI.
Criado pela AlmapBBDO, o app monitora a temperatura corporal, os batimentos cardíacos e a oxigenação do sangue em tempo real, identificando casos de fogachos ao longo da noite e enviando um comando imediato ao aparelho para resfriar o ambiente de maneira rápida. Após 10 minutos em uma temperatura mais baixa, o ar-condicionado retorna à temperatura originalmente definida pelo usuário como padrão.

Anunciante: LG Brasil. Produto: Ar-condicionado Dual Inverter + AI. Título: Modo Menopausa. Agência: Almap BBDO. Brasil, junho 2024

Cerca de 29 milhões de brasileiras estão na fase do climatério, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isto representa 7,9% da população feminina do país. Dessas mulheres, um terço experimentará ondas de calor moderadas a graves durante a menopausa, afetando significativamente sua qualidade de vida.
Embora a menopausa seja uma etapa inevitável na vida de muitas mulheres, o tema ainda é frequentemente evitado nas conversas. Uma recente pesquisa conduzida pela empresa de higiene e saúde Essity no Brasil revelou que 7 em cada 10 entrevistadas (69%) concordam que a menopausa ainda é um tabu. (meio&mensagem, LG usa IA com ar-condicionado para ajudar mulheres na menopausa: https://www.meioemensagem.com.br/womentowatch/lg-usa-ia-com-ar-condicionado-para-ajudar-mulheres-na-menopausa).

A roda da vida

“As três grandes épocas da humanidade são a idade da pedra, a idade do bronze e a idade da reforma” (Jean-Charles, La foire aux cancres, 1962).

O tempo passa. De fio a pavio. Coloquei recentemente canções sobre o entardecer da vida, em francês e em espanhol. Abundam, também, em língua portuguesa. Segue uma meia dúzia, direta ou indiretamente, de um ou de outro modo, dedicadas ao avanço da vida.

Jorge Palma, Sérgio Godinho – O Primeiro Dia. Juntos, 2015. (Sérgio Godinho, Pano-Cru, 1978). Ao vivo no Theatro Circo Braga, 2015.
Manuel Freire – Pedro Só. Canção do filme “Pedro Só”, de Alfredo Tropa, 1972
Carlos do Carmo – Canção da Vida.  E ainda… – Obrigado! (Ao vivo), 2021
Caetano Veloso – O Homem Velho. Velô. 1984. Music video 2012
José Afonso – Minha Mãe. Baladas e Canções, 1964
Jorge Palma – A gente vai continuar. Só, 1991. Ao vivo na Quinta de Valbom, EA LIVE Évora, 2018

Pelas alturas

Por mais alto que algo seja lançado é à terra que regressa (provérbio africano)

Ando saído, surpreendendo-me atraído pelas alturas. O que dá que pensar… Depois do planalto de Castro Laboreiro, a subida ao cume do Monte de Santa Tecla. Seja qual for o ponto cardeal, surpreendem-nos paisagens fantásticas sobre o vale e o estuário do rio Minho e a orla marítima a perder de vista, tanto para o lado de Moledo como de Laguardia. Acompanhado pela Rosa, pelo Agostinho e pelo Daniel Noversa, as fotografias são da autoria deste último.
Aproveito para acrescentar uma dezena de fotografias da viagem a Castro Laboreiro, desta vez da autoria do Américo Rodrigues e do José Domingues.

Imagem: Monte de Santa Tecla visto de Moledo

Galeria 1: Vistas a partir do Monte de Santa Tecla

Galeria 2: Castro Laboreiro

Vangelis – Ask the mountains. Voices, 1995
Manfred Mann’s Earth Band – Visionary Mountains. Nightingales & Bombers, 1975

Extravagâncias surrealistas da idade avançada

Ao Moisés

“É preciso chegar a velho de boa hora para permanecer velho mais tempo” (atribuído a Catão, o Velho, 234 – 149 a.C.; provérbio milenar bastante atual)

André Masson. Don Quixote and the Chariot of Death. 1935. The Cleveland Museum of Art

“65 anos de estar vivo”! Que quereis que vos diga? Está-me a saber bem a velhice! Mais do que as quatro décadas de atividade profissional e a meia dúzia de anos tóxicos que a antecedeu. Enquanto for possível, houver “saúde, dinheiro e amor” suficientes, entregar-me-ei ao que quero e não ao que os outros requerem. A velhice, além dos netos, tem proveitos e potencialidades apreciáveis. Mais árvore que ruína, encaro-a como um tempo, uma oportunidade, de libertação e esperança. Quem diria?! Efeitos do sol de Moledo, provavelmente…

Afeiçoo-me à velhice tal como adotei a morte como interlocutora (ando a adiar desde 2017 a edição do livro A morte na arte, porventura, para não terminar o namoro). Assim, escutar músicas dedicadas ao envelhecimento releva menos do exorcismo ou da lamentação e mais do encanto ou da celebração. Obtuso? Talvez se assevere um sentimento mais partilhado do que se pressupõe.

Octavio Ocampo. Visions of Quixote. 1989

De qualquer modo, esta espécie de “proclamação” traduz um estado de alma prenhe de visões quixotescas acalentadas por um aniversariante mimado… Não sendo a vida constante, outros seguirão. Tão certo como, agora, estas cinco velhas e belas canções castelhanas.

Violeta Parra – Volver a los 17. De 1962. Las últimas composiciones, 1966
Fagner (c/ Mercedes Sosa)  – Años. Traduzir-se. 1981
Piero – Mi Viejo. Mi Viejo, 1969
 Inés Cuello y Quinteto Leopoldo Federico – Volver (de Carlos Gardel). Segundo Festival Internacional de Tango del Teatro Colsubsidio (Bogotá), 2024
María Cristina Plata – Caballo viejo (de Simón Díaz). ANCIENNE POSTE des Planches, Montreux, setembro 2018

Ecologia do espírito

É um consolo ouvir a neerlandesa Mei-Ian (e o paquistanês Ali Pervez Mehd) com o chilrear dos pássaros e o murmúrio do mar como único fundo. Acresce uma sensação de estar bem consigo mesmo (nem por isso com o mundo). Uma prioridade que vinga há décadas. O resto… o resto pode passar, pode esperar. Misticismo, religiosidade ou ética singela? Uma espécie de “ecologia do espírito”, que nada tem a ver com egoísmos ou altruísmos.

Gregory Bateson. Steps to an Ecology of Mind. 1ª ed. 1972

Mei-Ian – Song for a Pure Heart. In Light. 2023
Mei-lan – Eternal Soul ( with Ali Pervez Mehdi). Eternal. 2021