Archive | Fevereiro 2021

Flor de cheiro

Jacques Brel

Há tufos de plantas aromáticas que dominam olfativamente o jardim. Existe um poder do cheiro. De quem as plantas aromáticas não gostam é das abelhas. Não têm o sentido das hierarquias. Pousam onde há pólen, independentemente do cheiro. Pousam sem vénias. Esta fidalguia do cheiro lembra algumas organizações e associações, órgãos da verdade, do sentimento, da reputação e da água benta. Críticos incriticáveis prenhes de direitos. São os anjos da modernidade. Inevitáveis, ronronam no regaço do Estado.

Passei a tarde a ouvir Jacques Brel. Admiro-o com prazer. O Tendências do Imaginário inclui sete canções de Jacques Brel. Acrescento três.

Jacques Brel. Le Plat Pays. C’est comme ça. 1962.
Jacquel Brel. La Chanson des Vieux Amants. Jacques Brel 67. 1967
Jacques Brel. Orly. Les Marquises. 1977.

Mãos de tesouras

Cadillac. ScissorHandsFree. 2021.

O anúncio Super Bowl ScissorHandsFree, da Cadillac, inspira-se, assumidamente, na figura do Eduardo Mãos de Tesoura, de Tim Burton (1990). O novo Mãos de Tesoura é, seja qual for o contexto, um desastre. Ressalve-se o All-Electric Cadillac LYRIQ, um automóvel sem mãos. Mais uma fábula.

Marca: Cadillac. Título: ScissorHandsFree. Agência: Leo Burnet Detroit. Direção: David Shane. USA, Fevereiro 2021.

Carnaval magro.

Pieter Bruegel. A Luta entre o Carnaval e a Quaresma. 1559.

Este Carnaval foi cabisbaixo. A Quaresma começou mais cedo. Espero que haja Ressurreição. Jane Monheit interpreta The Girl from Ipanema (A Garota de Ipanema), de António Carlos Jobim e Vinicius de Morais (1967). Acrescento If (2001), também de Jane Monheit.

Jane Monheit. The Girl from Ipanema (A Garota de Ipanema), de António Carlos Jobim e Vinicius de Moraes. 1967. Ao vivo no Jazz Open Stuttgart. Alemanha. 2003.
Jane Monheit. If. Come dream with me. 2001.

Os Farrangalheiros

Farrangalheiros. Entrudo. Castro Laboreiro. Melgaço.

Faço parte de uma equipa que está a estudar os Farrangalheiros de Castro Laboreiro. Segue uma série precoce de apontamentos. Ainda estamos no início da investigação. Mas os apontamentos não servem apenas para registar o que foi feito mas também para antever o que falta fazer. Abrem janelas.

“Desanimado, meti para Castro Laboreiro à procura dum Minho com menos milho, menos couves, menos erva, menos videiras de enforcado e mais meu. Um Minho que o não fosse, afinal. Encontrei-o logo dois passos adiante, severo, de curcelo e carapuça.
A relva dera finalmente lugar à terra nua que, parda como o burel, tinha ossos e chagas. O colmo de centeio, curtido pelos nevões, perdera o riso alvar das malhadas. Identificara-se com o panorama humano, e cobria pudicamente a dor do frio e da fome. Um rebanho de ovelhas silenciosas retouçava as pedras da fortaleza desmantelada. E uma velha muito velha, desmemoriada como uma coruja das catacumbas, vigiava a porta do baluarte, a fiar o tempo. Era a pré-história ao natural, à espera da neta.
Ó castrejinha do monte,
Que deitas no teu cabelo?
Deito-lhe água da fonte
E rama de tormentelo.
Bonita, esbofeteada do frio, a cachopa vinha à frente dum carro de bois carregado de canhotas. Preparava a casa de inverno para quando chegasse a hora da transumância e toda a família —pais, irmãos, gados, pulgas e percevejos— descesse dos cortelhos da montanha para os cortelhos do vale, abrigados das neves (…) Pisava, realmente, a alta e livre terra dos pastores, dos contrabandistas e das urzes.
Miguel Torga. Portugal. 1950.

É costume encarar Castro Laboreiro como uma povoação isolada, num extremo do País, cercada pela Espanha. Com acessos difíceis até meados do século XX. Em verdade, não é uma população isolada. Outrora, a maioria dos homens migrava sazonalmente para o Douro, para as Beiras ou para a Galiza. A partir da Segunda Guerra, a emigração castreja para a Europa foi pioneira. Outras atividades contribuíram para a abertura de Castro Laboreiro. Por exemplo, a mineração do volfrâmio e o contrabando, que mobilizou homens e mulheres. Castro Laboreiro não é o fim do mundo. É, antes pelo contrário, “princípio do mundo” (Manoel de Oliveira, Viagem ao princípio do mundo, 1997). Quem se encontra com um castrejo, arrisca-se a conversar com um cidadão do mundo. Num recanto nas alturas, o cosmopolitismo prevalece. A saída massiva dos homens constrange as mulheres a substituir os pais e os maridos ausentes. Cumpre-lhes a responsabilidade do governo da casa, das propriedades, dos animais, dos pais e dos filhos. Conservam e criam o mundo, ao nível económico, social e cultural.

Castro Laboreiro localiza-se na serra da Peneda. A aldeia do Curral do Gonçalo ergue-se a 1 166 metros de altitude. Esta inscrição geográfica não isola, nem repele. Cedendo à poesia, aproxima do céu. Castro Laboreiro é rico em tradições antigas e originais. Os Farrangalheiros (esfarrapados) do Entrudo representam um exemplo.

Traje. Entrudo. Farrangalheiro. Mulher. Castro Laboreiro.

O entrudo castrejo (entroido na língua local), que inclui os Farrangalheiros, é um ritual carnavalesco comunitário. Não há memória da sua origem. As mulheres solteiras destacam-se como os principais protagonistas. Vestem um traje específico (ver fotografias). O saiote vermelho pertence à roupa interior, que, retirada a saia escura, fica, por um tempo, exposta. Na cabeça, os “garruços” são enfeitados com fitas coloridas. A cobrir a face, um bordado de renda serve como máscara. É feito pelas próprias portadoras. Como calçado, umas socas; na mão, um pau, um animal ou outro elemento provocador. Excetuando o “lenço franjon, todas as participantes usam o mesmo traje. Percorrem, neste preparo, os largos, os caminhos e as casas, a “meter-se” com as pessoas, achincalhando-as com humor. O ritual culmina, no último dia, terça-feira, com a queima do Entrudo. Um boneco de palha envolto em roupas velhas é queimado em local alto para ser visto ao longe pelos lugares vizinhos.

“A  palavra Entrudo provém do latim introitus, que significa «acto de entrar, entrada, acesso, introdução, começo». Nos textos medievais, aparecem registados os termos entruido e entroydo. Mais tarde, o termo apresenta a grafia com i: Intrudo. O Entrudo começou por designar a noite de terça-feira, que era a entrada da Quaresma; depois a própria terça-feira e, finalmente, os três dias que precedem imediatamente a entrada da Quaresma” (Ciberdúvidas da língua portuguesa: https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/entrudo-novamente/26236).

O Entrudo é uma passagem, uma transição entre dois mundos, entre dois tempos. O antes e o depois. O interior e o exterior. A vida e a morte. O Entrudo despede-se do Inverno, do “velho”, rumo à Primavera. Para trás fica a escassez, o sono dos campos e a hibernação social. O Entrudo é um prenúncio, que se projeta para além da Quaresma. Crescem os dias, amanha-se a terra e rasgam-se os horizontes. O colorido exuberante dos “garruços” ofusca a escuridão invernal. Nesta perspetiva, o Entrudo é uma premonição mágica. Os rituais querem-se promessa. O banquete, por exemplo, é uma antecipação da abundância. Simula-se agora para garantir depois. Sobre as cinzas do passado, semeia-se o futuro.

Existe uma mudança cíclica na vida de Castro Laboreiro. Provavelmente, não se prende com o Entrudo. Não resisto, porém, a mencioná-la. Trata-se da “transumância”. Em muitas aldeias, os castrejos passavam o Inverno nas inverneiras, situadas nos vales, para onde descem no início do Outono. Em março, por altura do Entrudo, subiam, pessoas, animais e mobília, para as brandas, no planalto. A proximidade da data do Entrudo e da deslocação para as brandas resume-se, presumo, a uma mera coincidência. Não obstante, convém verificar.

O Entrudo encena e regenera a comunidade. Momentos como o banquete ou a queima do Entrudo propiciam uma comunhão emocional. O rebaixamento e a crítica revitalizam a sociedade numa espécie de caldo reparador. O mal é denunciado e Judas queimado. A fogueira é ambivalente: queima, ilumina e aquece. O fogo dizima mas também purifica. Ilumina a noite. A fogueira ameaça mas também aquece e redime o corpo, a alma e a comunidade. À volta da fogueira, a sociedade expõe-se e recompõe-se. A potência simbólica do fogo é universal (Bachelard, Gaston, La Psychanalyse du Feu, 1938; Durand, Gilbert, Les Structures Anthropologiques de l’Imaginaire, 1960).

“Queimas, há muitas! Do Judas, da velha, do velho, das bruxas, dos hereges, das fitas… Queima-se o frio no São Martinho e a noite no São João. Queima-se o galo em Barcelos. Tudo se queima, tudo se regenera, tudo se purifica. Queimamos tudo, queimamos tudo, e quase não deixamos nada. Mas as cinzas não são cinzas, não; são sementes, sementes da nossa condição” (Gonçalves, Albertino, A queima dos vampiros, https://tendimag.com/2019/05/25/a-queima-dos-vampiros/).

“Um pouco por todo o mundo, na noite de São João, acendem-se, nas praças e nos campos, fogueiras para dar mais dia à noite. Mas ninguém se ilude: amanhã, por artes do solstício, o dia será mais curto e a noite mais longa. Há algo de trágico e de glorioso nesta luta lúcida contra o inelutável (Gonçalves, Albertino, A bênção escatológica num mundo às avessas”. Os Serviços da Tarde na Festa de São João de Sobrado, https://tendimag.com/2017/12/14/a-bencao-escatologica-num-mundo-as-avessas-os-servicos-da-tarde-na-festa-de-sao-joao-de-sobrado/).

Nos Farrangalheiros do Entrudo castrejo, a participação feminina está confinada às mulheres solteiras. A roupa interior, o saiote vermelho, é exibida. Um pano de renda protege o rosto. Se fosse psicanalista, ao jeito de Sigmund Freud ou de Carl Jung, avançaria que são símbolos de fecundidade, ver de sexualidade. Os bailes e os animais transportados podem ser incluídos nesta leitura. É costume associar-se as manifestações carnavalescas à desordem, ao convívio, à liberdade, à crítica, à igualdade, à utopia e à folia. Na realidade, a fecundidade e a sexualidade rivalizam com estes tópicos (Bakhtin, Mikhail, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais, S. Paulo, Editora Hucitec, 1987). De Roma ao Brasil, passando pela Idade Média, a sexualidade palpita na experiência carnavalesca.

Numa sociedade pendurada no presente e omnívora, Castro Laboreiro guarda memórias e segredos.

Matar a música. Victor Jara

Victor Jara. Memória.

Há épocas e lugares em que a música e a política se aproximam. O canto politiza-se e a política canta. Aconteceu em Portugal nos anos sessenta e setenta. Esta relação pode degenerar, tornar-se trágica. Victor Jara foi torturado e assassinado em 1973 pelo governo chileno de Pinochet. O Tendências do Imaginário contém várias canções de Victor Jara. Acrescento duas.

Victor Jara. Manifiesto. Manifiesto. 1974. Póstumo.
Victor Jara. Duerme, Duerme Negrito. Pongo en tus manos abiertas. 1969.

O medo e o racismo

É difícil discorrer sobre o racismo sem incorrer em contradições.  René Gallissot fala de Misère de l’Antiracisme (Paris, Editions de l’Arcantère, 1985). O anúncio Démasquons la Peur, da associação Licra, merece particular atenção. Em primeiro lugar, o morphing permite revelar a diversidade e a plasticidade humanas. Em segundo lugar, o recurso ao preto e branco propicia o esbatimento das cores e a acentuação dos contrastes. O discurso lembra uma árvore de palavras: alia a abrangência troncal à especificação dos ramos. O tópico do medo é matricial: “O racismo é o medo da diferença” (Franck Ntasamara).

Anunciante: Licra. Título: Démasquons la Peur. Agência: Publicis Conseil. Direção: Akim Laouar. França, fevereiro 2021.

Excitação

Hugo Simberg.’The death and the girl. 1890s.

Nestes tempos de repetição ansiosa, uma pitada de excitação não é pecado. Seguem três exemplos de riffs de guitarra.

Led Zeppelin. Heartbraker. Led Zeppelin II. 1969. Ao vivo: Madison Square, 1973.
Creedence Clearwater Revival. Hey Tonight. Pendulum (40th Anniversary Edition). 1970. Ao vivo em 1972.
The Troggs. Wild Thing. From nowhere. 1966.

A árvore dos limões

Peter, Paul e Mary cantam Blowin ‘in the Wind, de Bob Dylan, nos degraus do Lincoln Memorial, onde, no dia 28 de Agosto de 1963, Martin Luther King proferirá, pouco depois, o discurso “I Have a Dream”.

No artigo precedente, foi questão de limões. Peter, Paul & Mary compõem um trio norte-americano de sucesso nos anos sessenta. Três vozes distintas, um coro único. Cantam The Lemon Tree (1962). Acrescento 500 Hundred Miles (1962) e Blowin’ in the Wind (1963).

Peter, Paul & Mary. The Lemon Tree. Single. 1962.
Peter, Paul & Mary. 500 miles. Debut Album plus – Peter, Paul and Mary. 1962.
Peter, Paul & Mary. Blowin’ in the Wind. Moving (Original Album Plus Bonus Tracks). 1963.

A Rosinha dos Limões

Estranho o cérebro que desconhece distâncias e proporções.  Hoje é dia de Super Bowl, com os anúncios mais caros do mundo. O anúncio Last Year’s Lemons, da Bud Light, lembra-me, deste lado do Atlântico, há mais de meio século, A Rosinha dos Limões, de Max. Lembrança tresmalhada.

Marca: Bud Light. Título: Last Year’s Lemons. Agência: Wieden + Kennedy (New York). Estados-Unidos, Janeiro 2021.
Max. A Rosinha dos Limões.

As estrelas do confinamento

Tchaikovsky

Proliferam os peritos de nada e os sábios de tudo. Um deslumbramento. O carnaval da ignorância certificada. A medida de tudo e a relevância de nada, os novos candelabros da razão. Tudo merece uma martelada da notícia. Sem hesitação. Abundam os convidados, os entrevistados e os comunicadores nos estúdios ou à distância. São centenas os génios e milhares as asneiras. Repetidas, cada uma se oferece mais certeira que a outra. Tanta gente sábia e experiente. Sabem tudo, sabem tudo e não deixam nada. Sabem, de qualquer modo, mais do que os responsáveis, os idiotas dos bastidores. Como diria Goscinny, parecem aspirantes a vizires no lugar do vizir. Ver televisão ultrapassa as expectativas do público. Emerge uma nova geração de jornalistas. Perguntam imediatamente ao entrevistada quais são os problemas de uma dada iniciativa. Os objetivos, os recursos, as estratégias e os resultados são dispensáveis. A reflexividade jornalística também se tem adaptado. Numa entrevista, o jornalista faz as perguntas e dá as respostas, o entrevistado resume-se a uma mera mediação ou pretexto. Zelo profissional? Assim como não me oponho à figura do sociólogo engajado, também não me oponho à figura do jornalista que toma posição. Dispenso, no entanto, a exposição ao espetáculo mediático.

A televisão apresenta-se como um templo da modernidade. Temos direito à reivindicação e ao protesto. A televisão assume-se como uma plataforma ou uma alavanca de desejos e vontades. Sem eufemismos! Um cidadão ou uma categoria social, presumivelmente injustiçados, recorrem à televisão. Parte substantiva da programação inclui este peditório com laivos de egoísmo. Existe um plano de vacinação? Melhor não existisse. Nós devíamos ser os primeiros. Nós somos os prioritários. O egoísmo anda à solta. Não chegam os dedos das mãos para contar as categorias socias que defenderam estas correções. Lembram as corporações renascentistas!

Perdi, nos últimos meses, alguma mobilidade. Vejo bastante televisão. Com alguma estranheza. O jornalismo sempre teve a tentação de contar as notícias. Esta propensão exacerbou-se com a pandemia. As telenovelas representam uma fatia importante da oferta televisiva. A própria informação também está a adotar o formato da telenovela.

Nestes dias de confinamento, quase sempre que vejo televisão, o assunto é a pandemia: hospitais, médicos, enfermeiros, ambulâncias, doentes, mortos, vacina, estatísticas, previsões, entrevistas, testemunhos… Um canal de televisão quase monopolizado pela epidemia revela-se um excesso. É muito ecrã pandémico para uma população confinada e fustigada pela epidemia. Pois a televisão quase só mostra pandemia. É muita pandemia! Sei que existem teóricos que sustentam que a melhor forma de tratar a fobia de uma pessoa é submete-la sistematicamente a condições dessa fobia. Não creio que seja o caso do novo coronavírus nem da epidemia em palavras e imagens.

O mais avisado é ouvir música. O Tendências do Imaginário não contempla nenhuma obra de Tchaikovsky. Seguem dois excertos: do Piano Concerto No 1 e do Lago dos Cisnes.

Piotr Ilyich Tchaikovsky. Piano Concerto No. 1 / Alexis Weissenberg, piano; Herbert von Karajan, conductor. Berliner Philharmoniker. Recorded at the Berlin Philharmonie, April 1967.
Piotr Ilyich Tchaikovsky. Swan Lake (Theme). Israel Philharmonic orchestra. Tel Aviv. 2001.