Archive | Março 2018

O sucesso do talento

HP. Faro

“Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras” (Heráclito de Éfeso). Heráclito não leu o Principezinho, caso contrário saberia que a água que se afeiçoa a uma ponte não procura outra.

Alguém, porventura uma criança, tem um talento, presumivelmente por geração espontânea, um talento desconhecido. Alguém, habitualmente um professor, um padre, um assistente social ou um psicólogo, um “especialista do humano”, descobre, quase sempre acidentalmente, o talento. Os especialistas do humano costumam ser mediadores: comunicam a descoberta ao poder. O poder consagra e o público venera. Esta narrativa do sucesso é amplamente partilhada. Uma partilha ingénua.

Marca: Hewlett Packard. Título: Paro. Agência: HP Studios. Direcção: Oni Sen. Índia, Março 2018.

Não sou um caso isolado

Não sou o único

Não, não sou um caso isolado. Não sou o único inadaptado da banalidade técnica.Os filhos brindam-nos com reforços positivos. Consolação que faltou ao Don Quixote, ao Charlot e ao Mr. Hulot.

Slivki Show. All your life in one video. Março 2018.

 

Reflexos

Apple

Hoje é Dia da Mulher. No anúncio, da Apple, uma mulher descobre  a  faculdade de alterar o espaço. E dança, não para de dançar. Só ou consigo mesma. Abre, simultaneamente, as janelas do espírito. E continua a dançar. A música e as imagens são notáveis. Eva? Maria? Madalena? Não, Alice, Super-Alice! O realizador é Spike Jonze. Ganhou o Óscar para o melhor roteiro original com o filme Her, de 2004. Foi considerado, com Chris Cunningham e Michel Gondry, um dos melhores realizadores de vídeos musicais. Cantora e bailarina, FKA Twigs enche o ecrã.

Acrescento três músicas de Francis Lai, dos filmes Un Homme et une Femme (1966), Love Story (1970 e Bilitis (1977).

Francis Lai, 124 Miles an Hour. Un Home et une Femme.1966.

Francis Lai. Theme from Love Story (Finale). Love Story. 1970.

Francis Lai. L’arbre. Bilitis. 1977.

Marca: Apple. Título: Welcome Home. Direcção: Spike Jonze. Estados Unidos, Março de 2018.

 

Pompa e Circunstância 1

edward elgar

Edward Elgar (1857-1934)

Cansado. Até dar aulas cansa. Dispenso letras e números. Talvez música. Um concerto de música clássica que pareça um concerto de música popular. Edward Elgar? A Marcha de Pompa e Circunstância nº 1 (Terra de Esperança e Glória), de 1901. Os ingleses têm destes arrebatamentos com carga nacionalista. Não desligue antes do segundo minuto.

Elgar. Marcha de Pompa e Circunstância nº 1 (Terra de Esperança e Glória). Proms 2012. BBC Synphony Orchestra. Royal Albert Hall, 8 de Setembro de 2012.

Volta a Portugal

Existem fenómenos insólitos no País? As fotografias assombrosas do livro Volta a Portugal, de Álvaro Domingues, ilustram esta estranheza. Existem discursos que tornam familiares, e entranham, as identidades nacionais e territoriais? Hoje, como ontem. Álvaro Domingues cita-os, escrupulosamente, sem complacência. Página a página, etapa após etapa, familiarizamos o estranho e estranhamos o familiar. Portugal não cabe nos seus mitos. Um livro para ver e ler. Para nos pensar.

O texto que segue foi extraído da notícia da livraria Centésima Página (http://www.centesima.com/content.asp?startAt=4&categoryID=15&newsID=839)

“Apresentação do livro Volta a Portugal , Álvaro Domingues, Contraponto Editora

Dia 9 de Março, sexta, às 18:30, na Livraria Centésima Página.

Apresentação do livro Volta a Portugal de Álvaro Domingues (FAUP). Contraponto Editora,

Apresentação a cargo de Albertino Gonçalves, do Departamento Sociologia- Instituto de Ciências Sociais_UMinho.

“De bicicleta ou de Google Earth, dar voltas em Portugal constitui um modo de (re)conhecimento perfeito para preencher curiosidades ou estranhamentos acerca da exótica geografia da terra dos portugueses. Dizem-nos e demonstram-no de maneira variada que tal terra existe mesmo, que tem um certificado de nascimento, um corpo, uma alma, uma identidade. Não tem nem tem de ter. Muito se insistiu no Portugal dos marinheiros, dos fados ou da bola no jardim à beira mar plantado – um território, o nevoeiro dos antepassados, os mitos, o império, a língua, a saudade e a ruína, aquele que os deuses amam e visitam, o bom povo cosmopolita ou burro de trabalho repartido pelo mundo. Pode ser tudo isso e muito mais e mudar no dia a seguir ou perder-se no caminho; pode dar um execrável programa na televisão, um elaboradíssimo ensaio, um solene discurso patriótico ou uma frenética crepitação nas redes socias.
Não há um fio condutor, um roteiro. Vai-se pela terra fora. Convocam-se palavras de muitas vozes e tempos. Alguma lhe servirá melhor que outras.
A pretexto desta sua última publicação, teremos a oportunidade em revisitar os seus anteriores livros.”

Álvaro Domingues (Melgaço, 1959) é geógrafo e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde também é investigador no CEAU-Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo. Para além das suas funções docentes na Universidade do Porto e noutras universidades publica com regularidade sobre temáticas relacionadas com a geografia urbana, o urbanismo e a paisagem.”

 

Ecologia do Espírito

Screenshot

A originalidade é uma raridade. Um descuido dos deuses. Tanta criação antes de nós. Esta dificuldade em ser original sobressai, curiosamente, no universo da magia e da fantasia. Por isso, há tanta reciclagem da Alice, da Capuchinho Vermelho e da Cinderela. E do Pinóquio, do Peter Pan e do Aladino. A imaginação não é tão infinita quanto nos apressamos a acreditar. Daqui não advém mal ao mundo. As ideias coçadas podem ser brilhantes. São artes e manhas da “ecologia do espírito”. Nos anúncios Choose  Go, da Nike, e Rewind City, da Orange, a repetição dos gestos concorre para a mudança desejada.

Marca: Nike. Título: Choose Go. Agência: Must Be Something. Direcção: Edgar Wright. Estados Unidos, Fevereiro 2018.

Marca: Orange. Titulo: Rewind City. Agência: Publicis Conseil, Paris. Direção: Ringan Ledwidge. França, Maio 2008.

Sublimação da pedra

René Magritte. Le Château des Pyreénées, 1959

René Magritte. Le Château des Pyreénées, 1959.

Chove! As ideias pingam. Acontece-me desconversar:

– Devíamos fazer mais exames médicos. Conhecíamo-nos melhor. Se ando meio torto, não é por causa do computador, mas por causa da pedra na vesícula. Inclina-me para a direita.

Reacção pronta do meu rapaz mais novo:

– A tua sorte é não fazeres exames à cabeça!

Só uma música invulgar dos anos setenta me pode recuperar.

Steve Harley & Cockney Rebel. Sebastian. The Human Menagerie. 1973. A montagem do vídeo não é da minha autoria.

Podia ser pior

Circle of Giuseppe Arcimboldo. Housewife. An Anthropomorphic Still Life With Pots Pans Cutlery A Loom And Tools

Circle of Giuseppe Arcimboldo. Housewife. An Anthropomorphic Still Life With Pots Pans Cutlery A Loom And Tools.

“Eu é um outro” (Arthur Rimbaud. Carta a Paul Demeny, 15 de Maio de 1871).

Usamos máscaras; somos máscaras. Fragmentados, somos um puzzle desencaixado e instável. Tudo se decompõe, tudo se move, menos as doenças de estimação. Hoje, fiz uma ecografia. Temia um problema, afinal tenho dois: fígado gordo e calhau na vesícula! Apetece-me celebrar! Por exemplo, com vídeos musicais focados na miscelânea de cacos que nunca deixamos de ser. Os dois primeiros são suaves, o terceiro é cáustico.

Antes de passar aos vídeos, uma anedota que o meu avô gostava de contar.

Dois amigos conversam.

  • Ontem um comboio atropelou uma procissão que atravessava a passagem de nível.
  • Podia ser pior…
  • Como podia ser pior?
  • Se o comboio viesse atravessado…
  • Ontem, Fulano matou um homem que estava com a mulher no quarto.
  • Podia ser pior…
  • Como podia ser pior?
  • Se fosse na noite anterior, o morto era eu.

Katie Melua. I Cried For You. Piece by Piece. 2009.

Damien Rice. 9 Crimes. 9. 2006.

Pearl Jam. Life Wasted. Pearl Jam. 2006.

Alice e o chocolate

Nestlé Alice

Trás e frente, dentro e fora, mole e duro, constituem alguns dos tópicos cardeais do nosso imaginário, nomeadamente no que respeita à nossa relação com o corpo e com o mundo. Destacam-se, contudo, a altura, subir e descer, e o volume, crescer e diminuir. Por exemplo, numa contenda, diz-se que fulano se agigantou, cresceu para o outro, e que sicrano se encolheu, ficou de rastos.

À semelhança da Alice de Lewis Carrol, a Alice do anúncio da Nestlé também muda de tamanho. Entre bebes, comes e leques, a Alice de Carrol vai crescendo e diminuindo, até estabilizar. A Alice da Nestlé apenas cresce. Regressa à estatura normal graças às artes mágicas do chocolate. A Alice de Carrol reduz-se até ficar muito pequena, a Alice da Nestlé apenas cresce. “A vida faz a gente crescer”. Sinais dos tempos. Os tempos da bolha.

Marca: Nestlé. Título: Alice. Agência: David Brasil. Direcção: Marcelo Burgos & Giancarlo Barone. Brasil, Fevereiro 2018.

Tori Amos. Strange little girl. Strange little girls. 2002.