Archive | Março 2017

O post da meia noite

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Meia noite, na parvónia voam em vassouras as teclas de mau agoiro. No ecrã, surge, repescado e apressado, um mini-post.

A citröen é uma referência na publicidade. O povo francês tem sentido de humor, excelentes mimos (e.g. Marcel Marceau), cineastas (e.g. Jacques Tati) e actores (e.g. Fernandel). Este anúncio não renega a tradição.

Marca: Citroen. Título: Bip bip. Agência: H. Direcção: Thorsten Herken. França, 2011.

 

De que são feitas as raparigas?

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What are girls made of?, da Nike, é mais um anúncio polarizado pelo Dia Internacional da Mulher. De algum modo, pensamento e sentimento acontecem por agenda e por medida. Um anúncio assumido e sedutor. Particularmente feliz a aposta na juventude, na música e na poesia. É, por acréscimo, um anúncio russo! Faltam anúncios russos no Tendências do Imaginário.

Marca: Nike. Título: What are girls made of? Agência: Wieden + Kennedy (Amsterdam). Rússia, Março 2017.

 

Silêncio, que quero falar!

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O anúncio da Woman Interrupted sustenta que as mulheres são vítimas de interrupção nas trocas verbais com homens. Carece investigação: as mulheres interrompidas pelos homens, as mulheres pelas mulheres, os homens pelas mulheres e os homens pelos homens. Aguardo os resultados. Confesso que, neste capítulo, acontece-me interromper as pessoas, não sei se mais as mulheres ou os homens. Deve ser uma questão de ansiedade. Mas o meu maior pecado não é esse: normalmente, não interrompo, desligo! Desligo com assiduidade e com boa consciência, sem discriminação de género.

Anunciante: Woman Interrupted. Título: An app that detects manterruption. Agência: BETC São Paulo. Brasil, Março 2017.

Se eu morrer

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“Não há, aparentemente, representação, por estranha que seja, em que os homens não se apressem a acreditar com fervor, por pouco que os alivie do facto de saberem que um dia deixarão de existir, desde que lhes dê a esperança de uma forma qualquer de eternidade” Elias, Norbert (1988), La société des mourants, Paris, Christian Bourgois, p. 16-17).

Propus, recentemente, a noção de vida social do morto. Existem rituais de celebração e memória dos falecidos. Em alguns casos, até se comunica com o morto. Os anúncios da ifidie acenam com uma promessa de “vida para além da morte”. Ifidie é uma entidade, com página na Internet (http://ifidie.net/) e no Facebook (https://www.facebook.com/pg/IFiDieApp/about/?ref=page_internal), que disponibiliza uma aplicação que permite a criação de um vídeo ou de uma mensagem de texto que serão tornados públicos após a morte da pessoa. O vídeo ou a mensagem podem conter uma história de vida, um testemunho, a última vontade ou um segredo nunca antes partilhado. Graças a ifidie, a pessoa conquista um momento de protagonismo após a morte. É certo que esta proposta é vaga e vulgar, porventura um negócio suspeito. Mas não deixa de ser na banalidade que costuma brilhar o imaginário.

Marca: ifidie. Título: What you will leave behind. USA, Março 2011.

Marca: ifidie. Título: Your message after you die. USA, Dezembro 2011.

Marca: ifidie. Título: Your chance to world fame, after you die. USA, Agosto 2012.

Liberdade excêntrica

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O anúncio mexicano “Vamos a hablar”, da Cerveza Sol”, é um despertador de vontades. Atropelam-se imagens e palavras, ao som de um ritmo heróico. A inversão dos preconceitos e dos chavões desenha um espaço de liberdade. Ser livre é ser diferente? “Um bicho raro”. Mas os outros existem! Não param de contar, avaliar e constranger. Será a excentricidade, e, de algum modo, a solidão, a condição da liberdade? Somos livres sem os outros? Livres de quê? Vem-me à memória, a contracorrente, uma frase de André Malraux (Les chaînes qu’on abat, 1971): “A liberdade consiste em poder escolher as cadeias”. O anúncio “Vamos a hablar” é romântico. Nada de estranho. Observa-se alguma reincidência romântica na pós-modernidade.

Este anúncio lembra-me várias canções dedicadas à liberdade. “Libre” (1972), de Nino Bravo, é uma canção que alcançou um enorme sucesso nos anos setenta. Enferrujou com os anos. Mesmo assim, num único site ultrapassa 5 milhões de visualizações. Nino Bravo faleceu, com 28 anos, vítima de um acidente rodoviário.

Marca: Cerveza Sol. Título: Vamos a hablar. Agência: Talent Comunicação e Planejamento Lda. Direcção: Cisma. México, 2016-2017.

Nino Bravo. Libre. Mi Tierra. 1972.

Milagres esféricos

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Raras são as realidades que nos mobilizam tanto como o futebol. Mobiliza o corpo, a alma e o resto. Uma comunhão prodigiosa. A bola faz milagres, inspira os apóstolos e consagra as estrelas, como Pauleta. Nem sequer falta “a mãozinha de Deus”. Devolver a memória a um amnésico é a menor das proezas.

Marca: Canal +. Título: L’amnésique. Agência: BETC Paris. França, Fevereiro 2017.

Transformação

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Multiplicam-se os anúncios com pessoas LGBT. O Paul’s Journey, da SJ Swedish Railways, é especial. Como diria Edgar Morin (1967, Commune en France, Paris, Fayard), é stendhaliano: tem o sentido do detalhe. Durante uma viagem de comboio, gesto a gesto, assiste-se a uma transformação da aparência identitária.

 

Marca: SJ Swedish Railways. Título: Paul’s Journey. Agência: TBWA Stokholm. Direcção: Anders Hallberg. Suécia, Março 2017.

“A (re)construção da figura do emigrante”

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José Malhoa. O emigrante. 1918.

O jornal Público de hoje (05.03.2017; online 04.03.2017) inclui o artigo “A (re)construção da figura do emigrante”, da autoria de Ana Cristina Pereira. Também estou na fotografia. Ninguém como a Ana Cristina Pereira para nos estimular a falar. É uma jornalista amiga do tempo. As coisas acontecem quando estão prontas para acontecer. Mais do que discorrer sobre pessoas, gosta de aprender com as pessoas, de as sentir no mundo. O resultado traduz-se em livros e artigos inconfundíveis.

Para aceder ao artigo, carregar no seguinte endereço: https://www.publico.pt/2017/03/04/sociedade/noticia/a-re-construcao-da-figura-do-emigrante-1763881.

 

Saudades

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Braccelli, Giovanni Battista (1624). Bizzarie di Varie Figure. Livorno. p. 42.

“Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram! O que eu sinto quando penso no passado, que tive no tempo real, quando choro sobre o cadáver da vida da minha infância ida…, isso mesmo não atinge o fervor doloroso e trémulo com que choro sobre não serem reais as figuras humildes dos meus sonhos” (Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. Lisboa, Ática, 1982).

“Insiste-se no sentimento de falta a propósito da saudade. Às vezes, o motivo também é o excesso, a imensa vontade de dar e não ter quem receba” (Albertino Gonçalves).

Andrea Bocelli. Con te Partiro. 2015.

Maus tratos

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Francisco Goya. Capricho 25. Si quebró el Cantaro. 1797-1799.

Na era da velocidade, dezoito anos significam, paradoxalmente, muito tempo. Em 1999, poucas empresas se aventuravam na publicidade de consciencialização e a campanha contra os maus tratos a crianças ainda estava a aquecer. Sin Cinturón, da Solido Khakis, é um anúncio duro. Desentranha-se. São imagens que molestam os valores e os símbolos instituídos: a paternidade, a infância, o caixão, o túmulo, o morto e a morte. Espanhol, o anúncio lembra Goya. Uma criança é vítima de maus tratos, com um cinto, por parte do pai. Falecido o pai, a criança não resiste a dar umas cinturadas no caixão. O cinto perdura, de geração em geração. Sin Cinturón é um anúncio ousado: foi proibido em muitos países.

Marca: Sólido Khakis. Título: Sin Cinturón. Agência: Ruiz Nicoli. Direcção: Sebastian Grosset. Espanha, 1999.