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Homofobia na Rússia

No dia 1 de Julho, ocorrerá um referendo na Rússia, com várias propostas a votação. A mais notória é a possibilidade de o presidente (Vladimir Putin) poder renovar mais dois mandatos. Entre as demais propostas, consta o princípio de um casamento apenas entre um homem e uma mulher. Enquadrado nesta perspectiva, o anúncio russo Adopção, da Agência da Informação Federal, posiciona-se contra a adopção de crianças pelos homossexuais. Para aceder ao anúncio, carregue na imagem ou utilize o seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/agence-d-information-federale-adoption-2/.

Agência de Informação Federal. Adopção. Rússia, 2020.

Sem asas. A paixão do risco

Comecei a escrever esta obra de um modo intermitente a partir de 1985; estava então abalado com a importância crescente das condutas de risco e a mitologia emergente da aventura nas sociedades ocidentais que, no entanto, não paravam de valorizar a segurança. Senti, depressa, a necessidade de compreender a significação destas acções dispersas cujo denominador comum era uma relação imaginária ou real com a morte. Jogar por um instante a sua segurança ou a sua vida, com o risco de a perder, para ganhar, enfim, a legitimidade da sua presença no mundo ou, simplesmente, arrancar da força do instante o sentimento de existir, logo sentir-se fisicamente envolvido, seguro da sua identidade. Esta situação lembrava os anos sessenta, período da grande vaga proveniente dos Estados-Unidos, início de uma crise da juventude, que se exprimia na demanda dos “caminhos de Catmandu” ou na droga, no empenhamento político nas posições extremas e se resolvia, por vezes, com a morte. Assim foi a minha geração. Vi desaparecer amigos. Eu próprio parti para o Brasil pensando nunca mais regressar a França. Resta-me, hoje, o sentimento de ser um “sobrevivente”, uma certa culpabilidade de estar ainda aqui e de ter escapado, sem sempre o desejar, às armadilhas que se erguiam na minha estrada. Não esqueço alguns rostos. E a perturbação de outrora regressa, às vezes, para me assombrar e recordar o preço da existência presente. A consciência da precariedade e da incompletude é uma garantia do fervor de quem teve a sorte de ter regressado da viagem” (David Le Breton, Passions du risque. Paris, Éditions Métailié. 1991, p. 9. Minha tradução).

Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Clarins. The ad you can feel. Rússia, Maio 2020.

O parkour nos rebordos dos tectos das cidades assume-se como uma das paixões actuais do risco. A pós-produção do anúncio russo The ad that you can feel, da Clarins, é soberba. Mostrei o anúncio ao meu rapaz mais novo.

  • Já vi essas imagens há muito tempo.
  • Como? Saíram há três dias.

Mostra-me um vídeo datado de 2017. Não há razão para fabricar o extraordinário quando este está disponível. Adquire-se! O resultado é um desfile de arrepios.

Oleg Cricket Remix (Extreme Parkour). Scoreback. Rússia, 2017 (?)

O David Le Breton teve a gentileza de participar no seminário “o trágico e grotesco no mundo contemporâneo”, que organizei, em 2005, no Mosteiro de Tibães. No mesmo ano, nas minhas provas de agregação, um membro do júri criticou a escrita: “tudo parece simples, até as soluções parecem fáceis”. Sou um indigente da complicação. O Tendências do Imaginário enferma do mesmo vício: tudo aparece tão simples que até parece simples. A alta sabedoria acredita que reunir informação e apresentá-la com clareza é falta de profundidade ou pobreza de espírito. O conhecimento quer-se como um mistério medieval: reservado e aflitivo.

Intervalo

Sergei Rachmaninoff.

Chegaram as flores, como de costume. Está um belo dia para teletrabalhar. Numa redoma, como aconselha a saúde. O lazer faz falta. Tempera o espírito. Rachmaninoff pode ajudar.

Rachmaninoff Prelude Op. 23 No. 5 g minor. Piano: Valentina Lisitsa.

Chegaram as flores, como de costume. Está um belo dia para teletrabalhar. Numa redoma sanitária. O lazer faz falta. Quando é obrigatório deixa de ser lazer. Uma boa dose de lazer tempera o espírito. Rachmaninoff pode ajudar.

O violino, o génio e o virtuoso

Niccolò Paganini

Niccolò Paganini (1782-1840), o “violinista demoníaco”, compositor e intérprete, é considerado por muitos “o melhor violinista de todos os tempos”. Culmina uma tradição de séculos de violino italiano: Marini, Corelli, Vivaldi, Tartini… O russo Leonid Kogan (1924-1982) foi um dos melhores violinistas do século XX. Assistir, contanto em vídeo, a Leonid Kogan a interpretar Niccolò Paganini é um privilégio. Nel cor più non mi sento é uma composição de Paganini particularmente difícil de interpretar.

Albertino e Fernando

Paganini. Nel cor più non mi sento. 1821. Interpretação de: Leonid Kogan.

Quadros de uma exposição

Viktor Hartmann. Il Vecchio Castello – The Old Castle .

Costumo propor aos alunos de Sociologia da Arte como trabalho prático abordar a relação entre, pelo menos, dois autores, correntes ou obras de géneros distintos. Todos os anos recebo, sobretudo na licenciatura em música, pelo menos um trabalho sobre a suite Quadros de uma exposição (1874), de Modest Mussorgsky (1839-1881), composição inspirada numa mostra póstuma de pinturas do amigo arquitecto e pintor Viktor Hartmann (1834-1873). A exposição foi inaugurada em São Petersburgo em Fevereiro de 1874, um ano após a sua morte. Impressionado, Mussorgsky escolheu dez desenhos e compôs, a título de homenagem, a série para piano Quadros de uma exposição, com uma música por quadro.

A maioria dos desenhos desapareceu. Mesmo assim, foi possível recuperar sete dos dez desenhos escolhidos por Mussorgsky (ver galeria de imagens; a numeração das imagens condiz com a numeração dos episódios da suite Quadros de uma exposição).

O que exige mais tempo na criação de um artigo costuma ser a selecção dos vídeos, das imagens e, sobretudo, das músicas. O caminho é longo e sinuoso. Encontrar uma obra, eleger um excerto e escolher uma interpretação constitui um desafio. No caso de Mussorgsky, antes de reter o episódio, O Castelo Velho, impôs-se ouvir a composição no seu conjunto. A eleição da orquestra, e do director, exigiu a audição de cerca de uma dúzia de interpretações. Frequentemente, as interpretações retidas apresentam um número reduzido de visualizações (neste caso, 15 343 e 1 338). Atravessa-se a floresta para encontrar a árvore. Por último, aguarda-nos a indecisão. A relevância das diferenças mínimas. Como o burro de Buridan (1300-1358), hesito, no meio da ponte, entre duas interpretações: da Escola Filarmónica de Moscovo, mais clássica, e da Orquestra Antonio Vivaldi, mais solta. Aprecio, nesta última, o destaque atribuído ao saxofone.

Modest Mussorgsky, Pictures at an Exhibition, Promenade 2, Old Castle. Moscow Philharmonic Orchestra. Maestro Yuri Botnari.
Modest Mussorgsky – The Old Castle” (Il Vecchio Castello) from “Pictures at an Exhibition”. Orchestra Antonio Vivaldi. Dir. Lorenzo Passerini.

O nariz

The giant tap dancing noses

Dmitri Shostakovich. The Nose (1928). The Royal Opera.

O nariz é um órgão injustiçado. Abaixo dos olhos (ai os olhos!), acima dos lábios (ai os lábios!), o nariz (ui o nariz!) fica entre as orelhas (ui as orelhas!). O nariz é um órgão simbolicamente menosprezado. Não fosse Cleópatra e a humanidade nunca teria um nose turning. Graças ao anúncio da companhia de seguros Geico, deparamo-nos com narizes músicos, o que já se previa. Abusando da imaginação, as trompetas de Jericó foram, na realidade, narizes. No anúncio, o avô adormecido toca com o nariz o Flight of the Bumblebee, de  Rimsky-Korsakov (ver https://tendimag.com/2018/06/12/chuva-dissolvente/). Mas que tem este concerto nasal a ver com uma companhia de seguros? Assim como os cirugiões seguram as mãos, urge meter no seguro o nariz do avô e do cão.

Marca: Geico. Título: Grandpa´s Nose Solo. Estados Unidos, Outubro 2018.

O anúncio Grandpa’s Nose Solo lembra a ópera O Nariz (1928), de Dmitri Shostakovich, inspirada no conto homónimo de Nicolai Gogol, publicado em 1836. Na Metamorfose (1915), de Franz Kafka, Gregor Samsa acorda transformado em insecto. Na ópera de Shostakovich, o Major Kovaliov acorda sem nariz. Para não tentar a desgraça, convém desligar os pesadelos ao acordar.

Dmitri Shostakovich. The giant tap-dancing noses scene. The Nose (1928). The Royal Opera.

Dançar nas alturas

Geenpeace

Ça fait plaisir voir une bonne cause associée à une belle chose (Dá prazer ver uma boa causa associada a uma coisa bela).

Anunciante: Greenpeace. Título: Air dance. Agência: Decembrist. Direcção: Ivan Egorov. Rússia, Agosto 2017.

De que são feitas as raparigas?

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What are girls made of?, da Nike, é mais um anúncio polarizado pelo Dia Internacional da Mulher. De algum modo, pensamento e sentimento acontecem por agenda e por medida. Um anúncio assumido e sedutor. Particularmente feliz a aposta na juventude, na música e na poesia. É, por acréscimo, um anúncio russo! Faltam anúncios russos no Tendências do Imaginário.

Marca: Nike. Título: What are girls made of? Agência: Wieden + Kennedy (Amsterdam). Rússia, Março 2017.

 

Em verdade vos digo

“Nós conhecemos a verdade não só pela razão mas também pelo coração” (Blaise Pascal, Pensées).

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House of Fabergé. Gatchina Palace. 1901.

Existem as verdades comprovadas pela ciência e pelos tribunais. Mas também existem verdades assentes, não na prova, mas na fé. Ambas são reais nas suas consequências (William I. Thomas). Quando uma criança assume uma fantasia em que acredita, não mente, partilha. “If you believe is real”. Nestes casos, os polígrafos resultam inúteis. A fé e a crença não se esgotam nos arabescos mecânicos. Quando acredito na mentira, não minto, quando muito estou iludido. “O coração tem razões que a razão desconhece” (Blaise Pascal, Pensées).

Há anúncios que são geniais. Pela ideia e pelo modo. O Polígrafo, da Unicenter, é um ovo de Colombo russo, um ovo de Fabergé.

Marca: Unicenter. Título: Polygraph. Agência: TBWA  (Buenos Aires). Direcção: Javier Nir, Pablo Fisherman. Argentina, Novembro 2016.

Os gatos e os automóveis

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O que há de comum entre um gato e um automóvel? Ambos dão voltas. Segundo o anúncio russo Cats, o Smart fourfour dá voltas mais apertadas. É recordista na classe. Se o anúncio ao Smart pendura objectos nas caudas dos gatos, a Kotex cola-lhes fitas adesivas em diversas partes do corpo. O resultado é estranho (ver https://tendimag.com/2016/10/14/o-periodo/). Pobres gatos! E o pior ainda está para vir. No anúncio Funny Cat, o gato fica perdido de amores por um Toyota Corolla. Para andar no automóvel, repete acidente após acidente. Assim, desfruta do carro a caminho da clínica veterinária. As desventuras do gato fisgado provoca um misto de humor e compaixão. Que os gatos têm sete vidas atesta-o a parte final do anúncio: a pata do gato irrompe da sepultura.

Marca: Smart. Título : Cats. Agência : Decembrist. Direcção : Ivan Egorov. Rússia, Novembro 2016.

Marca: Toyota Corolla. Título: Cat. Agência: Saatchi & Saatchi New Zealand. Direcção: Hamish Rothwell. Nova Zelândia, Outubro 2012.