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Guerras a brincar

Raul SolnadoEstamos mal de balas cá em Ranholas. Tanto que nas últimas manobras já tivemos que disparar com supositórios. Não, é que os supositórios além de não matar ainda curam por cima (Raul Solnado, Chamada para Washington, 1966).

No anúncio Trench, a guerra era, afinal, de faz de conta! E nós tão imersos a ouvir a morte nas trincheiras. A técnica ilude-nos, a nós, amadores de realidades técnicas.

Marca: Cinemex. Título: Trench. Agência: CDMX, Épica, Mexico. Direcção: Rodrigo Garcia. México, Junho 2016.

De guerras a brincar ocupou-se Raul Solnado. Recorde-se A Guerra de 1908 (1962) e É do Inimigo (1963). Segue Chamada para Washington (1966).

Raul Solnado. Chamada para Washington. 1966.

Descomplicar

O Anúncio Simple makes sense, da Aegon Life Insurance, não é simples, mas faz sentido. Alinha, uma a uma, várias ilusões ao jeito de Escher e Arcimboldo. Mas ilusões descomplicadas. O anúncio aposta numa equação inversa à usual: não desconstrói uma realidade para construir uma irrealidade, desconstrói uma irrealidade para construir uma realidade (ver https://tendimag.com/2013/11/24/nao-ha-dois-sem-tres/). Cada ilusão alude a uma vertente simplificadora do acesso à Aegon Life Insurance: o labirinto, por exemplo, deixa de ser um labirinto para os funcionários da seguradora: “Simple says you don’t have to care about insurance, your insurance should care about you”.
Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Labirinto segurosMarca: Aegon Life Insurance. Título: Simple makes sense. Agência: DDB Mudra Group. Direcção: Arun Gopalan. Índia, Janeiro 2016.

Ilusão e nonsense

Regina Spektor FarFui à cave revisitar relíquias com sintomas de arte. No sótão, não há nada. É tão apertadinho que nem a inteligência cabe. Anda sem abrigo. Encontrei alguns videoclips apostados na ilusão e no nonsense. Por exemplo, Regina Spektor e a sua simpatia por Escher e Magritte. Atente-se neste “Laughing With” (2009).

 

Sociologia sem palavras 4. À americana

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Há Festa na Aldeia é o primeiro filme de Jacques Tati (1949). Com a festa, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. As pessoas mergulham numa metamorfose efémera. O carteiro é, neste filme, um caso extremo. Ludibriado por dois malandros, com a cumplicidade dos conterrâneos, o carteiro persegue a ilusão de ser carteiro à americana, num filme pautado pela diversidade de tempos e de ritmos sociais.
Jacques Tati promove, com subtileza, uma crítica acutilante à sociedade moderna. A última cena do vídeo é uma farpa feroz à irracionalidade da racionalidade técnica: um homem está no fundo de um poço; o carteiro envia-lhe a carta num balde; e prossegue o giro…
O filme dedica vinte minutos ao giro do carteiro à americana. A alucinação acaba com um mergulho em profunda água fria. Foi-se o “sonho americano”, resta “todo o tempo do mundo”, um tempo plural, descontraído e distraído.
Uma pequena nota: a estreia do filme foi adiada quase um ano devido aos protestos dos carteiros franceses.

Jacques Tati. Jour de Fête. França. 1949.

Lorpalândia

Hieronymus Bosch. The Conjurer. 1596-1520

Hieronymus Bosch. The Conjurer. 1496-1520

Este anúncio espanhol, Fotografias Perfeitas para um Mundo Imperfeito, mostra como para criar uma ilusão não é preciso muito. Bastam alguns enxertos à realidade para encobrir as nódoas indesejáveis. O ilusionismo na sociedade é, no entanto, mais abrangente. Dissimula relações de poder, privação e alienação.

Uma ilusão desmascarada deixa de ser uma ilusão. Ficamos, assim, alertas para as ilusões que já não o são. As demais compõem o nosso carnaval quotidiano. A Lorpalândia. A “desilusão” não é o fim do poder, este é capaz de impor a vontade por outros meios, embora com menos legitimidade, autoridade e eficácia simbólica.

Este anúncio da Fotoprix, estreado em 2002, obteve vários prémios, incluindo o Leão de Cannes. Com um bom conceito, é criterioso nos casos escolhidos e comedido nos efeitos.

Marca: Fotoprix. Título: Fotografias Perfeitas para um Mundo Imperfeito. Agência: The Farm. Direcção: Xavier Rosello. Espanha, 2002.

A causa e a coisa

CadburyFazer de conta que o mundo começou ontem ou recomeça hoje é um erro. Um erro de miopia. O recurso a causas para vender coisas é um subterfúgio tão antigo quanto a própria publicidade. Lançado em 1940, o anúncio Le Colis Africain, da marca Artic, pode ser encarado como um protótipo:

“Por tudo quanto é mundo, os belgas enviaram testemunhos da sua generosidade”; o Comité “para o bem-estar dos indígenas da nossa colónia” assume como “objectivo enviar a cada um dos pobres negros o que de melhor existe na Bélgica para refresco sadio: um chocolate gelado Artic”.

Não obstante a antiguidade do dispositivo, os anúncios que vendem coisas com causas não deixaram de inovar. Evoluiu a técnica, bem como a arte do eufemismo e da embalagem, capaz de sublimar o acto de vender coisas com causas em gesto magnânimo de responsabilidade social. Aderimos, hoje, a coisas com causas com refrescado gosto e grata vontade.

Marca: Artic. Título: Le Colis Africain. Bélgica (Luxemburgo?). 1940.

Imagens do impossível

Honda Illusions

“Estes anúncios apresentam‐nos, ao jeito de Escher, mundos impossíveis. Impossíveis, mas convincentes: “Tudo ali nos parece muito estranho e, no entanto, é bastante convincente” (Ernst, 2007: 51). Trocam‐nos os olhos e até nos causam um impacto físico. “Falam‐nos ao corpo” (Kerckhove, 1997: 38). Mexem connosco e, sobretudo, conduzem‐nos a experienciar o impossível. Eis a principal razão para o tamanho do quadro ter que ser maior do que o tamanho do mundo. Para se pintar, além das paisagens e das histórias previstas por Alberti, o sonho e o impossível”,
Albertino Gonçalves, “Como nunca ninguém viu”, Martins, Moisés de Lemos et alii (2011), Imagem e Pensamento, Coimbra, Grácio Ed., pp. 139-165.

“Como nunca ninguém viu” (ver pdf) aborda o papel da ilusão nos anúncios publicitários. O novo anúncio da Honda, Illusions (vídeo 1), teve o condão de ressuscitar este texto entre páginas amortalhado (por sinal, um dos meus preferidos). O anúncio da Honda não é de todo original. O Illusions do Audi A6 (vídeo 3) abriu caminho há quase dez anos. Já os conteúdos, inspirados na arte de rua, têm assinatura própria: oito ilusões ópticas de belo efeito.
Pdf: Albertino Gonçalves. Como nunca ninguém viu. Imagem e Pensamento

Marca: Honda. Título: Illusions. Agência: Mcgarrybowen, London. Direção: Chris Palmer. Reino Unido, Outubro 2013.

The Making of of Honda Illusions.

Marca: Audi. Título: Illusions. Agência: Bartle Bogle Hegarty.  Direção:  Anthony Atanasio. Alemanha, Junho 2004.

Anúncios de outro mundo

Pelephone. Train.

Saiu, há semanas, um novo anúncio da Pelephone, uma empresa de telecomunicações israelita. Já publicámos alguns anúncios desta marca (https://tendimag.com/?s=pelephone). Este Speed Makes all Difference inscreve-se no mesmo estilo criativo: surrealismo, contos de encantar e, sobretudo, sonho. Aproveita-se o ensejo para recordar um anúncio mais antigo (2011) mas que tem pixéis de arte quanto baste: Train.

Marca: Pelephone. Título: Speed  Makes all Difference. Agência:  Mulla Productions Adler Chomski & Warshavsky Grey. Direção: Eli Sverdlov. Israel, Março 2012.

Marca: Perlephone. Título: Train. Agência: Adler Chomski Group/ Grey Israel. Direção: : Eli Sverdlov. Israel, 2011 (?)

Equívoco

New-York-Lotterys-Powerball-Invasion-2O equívoco é uma das principais fontes de humor. Quanto maior for o engano (do observador, do observado ou de ambos), maior for o aparato e maior for o disparate, maior o efeito cómico. Assim acontece nos seguintes anúncios.

Um casal holandês acidentado é socorrido com toda a eficiência pelos serviços de urgência helvéticos. Mas o pescoço dobrado não estava partido, segurava, apenas, um telemóvel…

Marca: Ohra. Título: Neck. Agência: Joe Public Amsterdam. Direção: Bart Timmer. Holanda, Janeiro 2013.

Um enorme dispositivo bélico extra-terrestre resume-se  a uma mera artimanha de fotógrafo, a uma farsa.

Marca: New York Lottery’s. Título: Invasion. Agência: DDB New York. Direção: Jim Jenkins. EUA, Fevereiro 2012.

No deserto, a visão de uma garrafa gigante não passa de uma miragem. Mais precisamente, de um letreiro.

Marca: Coca-Cola. Título: Mirage. Agência: Wieden + Kennedy Portland. Direção: Bryan Buckley. EUA, Fevereiro 2012.

A ilusão: Da iluminura ao postal ilustrado

No postal publicado pela Catarina Miranda, colega de equipa de investigação, publicado no blogue Postais Ilustrados (http://postaisilustrados.blogspot.pt/, 14 de Outubro), a página do Commercio do Minho é enrugada pelos “dous rasgões irregulares” que parecem irromper da superfície do postal (ver figura).

Postal ilustrado do Commercio do Minho, circulado em 1903

Postais com relevo já circulavam no início do séc. XX. Atente-se, por exemplo, neste Mappa do Coração, postado em 1914 a bordo do navio Congo. Mas não, a ideia não era fazer um postal com relevo mas um postal que proporcionasse a sensação de uma terceira dimensão. Mais ou menos como algumas imagens medievais. Recordo três que tinha ciosamente reservadas para um texto que nunca mais acaba sobre a desgravitação (ausência ou distorção da gravidade) nas iluminuras medievais e nos media actuais.

Mappa do Coracao. Postal com relevo. Postado a bordo do navio Congo, em 1904

O livro de horas de Gian Galiazzo Visconti, duque de Milão, foi feito no final do séc. XIV por dois ilustradores: Giovannino dei Grassi e, após a sua morte, Belbello da Pavia. Está depositado na Biblioteca Nacional de Florença.  Concentrêmo-nos na seguinte página (L’eterno e gli eremiti):

Visconti Hours. L’eterno e gli eremiti. Finais séc. XIV

Parte da imagem condiz com o esquem visual a a que estamos habituados: as torres e os veados “pesam” no sentido do fundo da página. Mas o recorte com a divindade e com os demónios lembra os rasgões do postal do Commercio do Minho; em relação à superfície da página, sobressai, por um lado, o arco com os raios de fogo e afunda-se, por outro, o círculo reservado à divindade. Os insectos, por sua vez, desempenham um papel deveras curioso. A disposição, aliada à minúcia da pintura, dá a impressão que os insectos  transitam sobre a página fora da imagem. Em suma, numa parte da imagem o eixo de gravidade remete, normalmente, para o fundo de página e noutra parte o eixo de gravidade remete, deliberadamente, para a superfície da página.

Os ilustradores da Idade Média eram exímios na criação de ilusões. Algumas artes foram sucessivamente apuradas. É o caso das seguintes imagens do Da Costa Hours, um livro de horas português, concluído cerca de 1515, da autoria de  Simon Bening. Vendido a estrangeiros em finais do século XIX, destaca-se como um dos manuscritos mais preciosos da Morgan Library, de Nova Iorque.

Da Costa Hours, São Jerónimo em Penitência, ca 1515

Neste livro de horas, “São Jerónimo em penitência” é emoldurado por flores que dão a impressão de terem sido pousadas sobre a imagem. Mais complexa resulta a disposição das flores no fundo da página: nascem na imagem para logo (sobres)sair dela. Registe-se, por último, que, volvido um século, aparece, na parte inferior da página, uma abelha a assumir a função das moscas do Livro de Horas de Visconti.

Da Costa Hours. Flagelação de Cristo. Cerca 1515

Os recursos para obter um efeito de relevo abundavam na Idade Média. Na “Flagelação de Cristo”, no Livro de Horas de Da Costa, as voltas dos colares apelam a uma focagem tacteante que dificulta qualquer veleidade de achatamento da imagem. O colar vermelho, pendurado na própria moldura da cena da flagelação, parece oscilar para dentro e para fora da imagem.

O que têm os livros de horas a ver com os postais ilustrados? Muito pouco. Uns são de devoção, os outros nem por isso. Os livros de horas eram caríssimos, os postais são acessíveis. Os livros de horas eram bens familiares de luxo transmitidos ciosamente de geração em geração, facto que explica terem sobrevivido milhares de exemplares. Mas há algumas características que os aproximam. Destinam-se ao prazer do olhar, bem como à intimidade do toque. São portáteis e para uso individual, senão privado. São praticamente do mesmo tamanho. Partilham, também, alguns traços de estilo. Por último, ambos surgem em momentos excepcionais de explosão social da imagem: por volta do século XIV e finais do século XIX.