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Verde que te quero verde

A morte de um jardineiro não lesa a árvore. Mas se ameaçares a árvore, então o jardineiro morre duas vezes (Antoine de Saint-Exupéry, Citadelle, 1948)

A presente onda de calor lembra-me três anúncios dedicados aos riscos de desflorestação. O primeiro, “Refugee Tree”, brasileiro, é promovido por organismos estatais (The Climate Reality Project Brasil, GT.INFRA e ENGAJAMUNDO), o segundo, “Weird Search Requests”, internacional, pela plataforma privada Ecosia, e o terceiro, “EcoAlarm”, pela parceria público privada entre a fundação argentina Banco de Bostes e a Spotify.

Total de incêndios em Portugal. Fonte – FOGOS.pt

Segundo a FAO, entre 2010 e 2020, o planeta sofreu uma perda líquida cerca de 4,7 milhões de hectares de floresta por ano. Em contrapartida, no mesmo período, a Europa, incluindo a Rússia, conheceu um aumento líquido da área florestal de cerca de 0,3 milhões de hectares por ano. Em Portugal, a cobertura não está a diminuir significativamente, mas a qualidade e a resiliência dos ecossistemas florestais estão a degradar-se, devido, sobretudo, aos incêndios e à expansão da monocultura, designadamente, do eucalipto.      

Anunciante: The Climate Reality Project. Título: Refugee Tree. Agência: Africa DDB Sao Paulo. Brasil, 2021
Anunciante: Ecosia. Título: Weird Search Requests. Produção: Filmacademy Baden-Württemberg. Direção: Sandro Rados. Internacional, 2021
Anunciante: Banco de Bostes / Spotify. Título: EcoAlarm. Argentina, 2017

Troncalidade

À direita, tronco seco de árvore ancestral. Mosteiro de Fiães. Melgaço, entre o Minho e a Serra

O Alberto e o Eduardo descobriram em Melgaço o Bar das Termas (Peso), a Tasquinha da Portela (Paderne), o bar de vinhos Contrabando (Praça da República, na Vila), o Mosteiro de Fiães, onde beneficiámos da hospitalidade do Padre Rogério Rodrigues, e, por último, o Café Jardim (Penso). O percurso terminou em Moledo, no restaurante O Trem. No que me respeita, tive a felicidade de ficar a conhecer a voz do Edson Cordeiro.

Edson Cordeiro & Cássia Eller – A Rainha Da Noite (I Can’t Get No) Satisfaction. MTV Brasil, 1993
Edson Cordeiro – Coming. Zorongo Gitano, 1995
Edson Cordeiro – Paranóia. Zorongo Gitano, 1995
Edson Cordeiro – I Feel Love. Disco Clubbing 2 Mestre De Cerimônia, 1999
Zeca Baleiro ft. Edson Cordeiro – Mambo Só (clipe oficial). Zeca Baleiro. Mambo Só, 2022

Edson Cordeiro nasceu em 09 de fevereiro de 1967, em Santo André, grande ABC. Frequentou a igreja do Evangelho Quadrangular, onde começou a cantar no coral. Na adolescência, trabalhou com teatro infantil, como parte da companhia teatral da Turma da Mônica. Em meados dos anos 1980, teve uma exitosa carreira teatral participando da ópera rock “Amapola” (1985), da terceira montagem brasileira do musical “Hair” (1988) e da peça “O doente imaginário” (1989). Em 1990, realizou seus primeiros shows solos no Rio de Janeiro e em São Paulo. O sucesso de suas apresentações resultou em um contrato com a gravadora Sony, lançando em 1992 seu primeiro disco “Edson Cordeiro”. No final dos anos 1990, lançou as coletâneas “Disco Clubbing – Ao vivo” e “Disco Clubbing 2 – Mestre de Cerimônia”, com regravações de clássicos da Disco Music internacional. Em 2010, mudou-se para a Alemanha, onde vive. (https://memorialdaresistenciasp.org.br/pessoas/edson-cordeiro/)

Registo Civil Vegetal e Limoeiro

Deforestation – Diário de Pernambuco (BRA) – Jarbas. World Press Cartoon exhibition at the Museum of Modern Art in Sintra, Portugal, 2008

O limoeiro é muito bonito e a flor do limão é doce
Mas o fruto do pobre limão é impossível de comer
(Peter, Paul & Mary, Lemon Tree, 1962)
A árvore torna-se forte com o vento (Séneca, 4 a.C. – 65 d.C.)

Uma ideia genial preside ao anúncio “Árvore”, da rádio e TV brasileira Jovem Pan, qualidade que compensa a fraca resolução do vídeo. Um caso ímpar de minimalismo perspicaz e eloquente, Leão do Festival de Cannes de 1998. As versões inglesa e portuguesa são acompanhadas por dois cartoons deveras sugestivos e pela canção Lemon Tree.

Cartoon: Alireza Karimi Moghaddam, iraniano

Anunciante: Jovem Pan FM. Título: Tree. Agência: AlmapBBDO. Direcção: Sérgio Amon. Brasil, 1998
Anunciante: Jovem Pan FM. Título: Árvore. Agência: AlmapBBDO. Direcção: Sérgio Amon. Brasil, 1998.
Peter, Paul and Mary – Lemon Tree. Peter, Paul and Mary. 1962

Continuar a andar

Acabei um texto, “Quando a esmola é grande. A industrialização do interior”, para um jornal e estou a acabar a revisão de outro, “A melancolia académica na viragem do milénio”, para o prefácio de um livro. Andavam atravessados a desviar-me. Para já, retomo o meu andar. Devagar, não obstante o futuro não esperar.

Marca: Johnnie Walker. Título: Human (The Android). Agência: BBH London. Direção: Dante Ariola. Reino Unido, 2006.

Marca: Johnnie Walker. Título: Astronaut / 200 Years. Agência: ALMAP/BBDO (Sao Paulo). Direção: Ian Ruschel. Brasil, 2021

A Origem de Tudo

Show Rural Coopavel. A Origem de Tudo. Brasil, 2023

O anúncio brasileiro A Origem de Tudo, para a exposição Show Rural Coopavel, ilustra à saciedade um provérbio elementar: “Tudo vem da terra e a ela retorna” [eventualmente, intragável].

Aconselho o artigo Atribulações das Almas: https://margens.blog/2023/01/15/atribulacoes-das-almas-em-transito/

Anunciante: Show Rural Coopavel. Título: A Origem de Tudo. Agência: Fosbury. Brasil, janeiro 2023

Chorar veneno

Zeca Baleiro. Vô Imbola. 1999.

Zeca Baleiro, nascido em 1966, é um compositor e cantor brasileiro. Desde 1997, editou 14 álbuns. O último, Canções d’Além-mar, de 2020, contempla, exclusivamente, músicas de cantores portugueses, de Sérgio Godinho e Pedro Abrunhosa a Jorge Palma e José Cid, passando, por exemplo, por José Afonso, António Variações e Rui Veloso. Seguem quatro canções de Zeca Baleiro: Bandeira; Lenha; Meu amor meu bem me ame; e Tem que acontecer. A primeira do álbum Por Onde Andará Stephen Fry? (1997) e as três restantes do álbum Vô Imbola (1999). Todas interpretadas ao vivo (álbum Líricas Ao Vivo, 2020).

Zeca Baleiro. Bandeira. Por Onde Andará Stephen Fry?. 1997 / Líricas Ao Vivo. 2020.
Zeca Baleiro. Lenha. Vô Imbola. 1999. / Líricas Ao Vivo. 2020.
Zeca Baleiro. Meu amor meu bem me ame. Vô Imbola. 1999. / Líricas Ao Vivo. 2020.
Zeca Baleiro. Tem que acontecer. Vô Imbola. 1999. / Líricas Ao Vivo. 2020.

Música mecânica

Existem anúncios em que pelo menos parte da banda sonora “musical” provém dos conteúdos. Seguem dois exemplos da Honda: The Motor Song e The Cog. Este último afirma-se como um marco na história da publicidade.

Marca: Honda. Título: The Motor Song. Agência: Publicis. Direção: Carina Mazarotto, Ricardo Sant ‘Anna. Brasil, julho 2021.
Marca: Honda. Título: The Cog. Agência: Wieden + Kennedy. Direção: Antoine Bardou-Jacquet. Reino Unido, 2003.

Escutar Brasil

Quem visita, nem que seja online, o Brasil, regressa encantado com a música.

Vinicius de Moraes. Pela Luz dos Olhos Teus. 1960.
Antonio Carlos Jobim. Wave. Wave. 1967.

Cristo estrábico

01. Aleijadinho, Detalhe de Jesus – Carregamento da cruz 2. Santuário do Bom Jesus de Matosinhos. 1796-1799. Congonhas do Campo.

Continuo perdido na procissão de imagens de Cristo que me tira do meu conforto. Uma autêntica peregrinação que me desvia para os lugares mais desencontrados. Por exemplo, o Brasil, menos pelo Cristo Redentor do Corcovado (figura 2) e mais pelo Cristo zarolho do  Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, esculpido por António Francisco Lisboa (1738-1814), o Aleijadinho (figura 1).

02. Cristo Redentor. Corcovado. Rio de Janeiro.

Trata-se de uma imagem particularmente notável e singular, porque comporta um misto de dois tipos de temas de Cristo: O Cristo Triunfante (Christus Triunfans) e o Cristo resignado (Chistus Patiens). O seu olho esquerdo fita em frente, fixo no infinito, ao jeito do Cristo triunfante, enquanto que o olho direito olha mais para baixo, tendendo a perder-se no solo, ao jeito das primeiras versões do Cristo resignado. Sobre esta combinação, e sobre o olhar de Cristo em geral, recomento o excelente artigo de Alexandre Ragazzi: “De olhos abertos, de olhos fechados: passado e presente da iconografia do Cristo crucificado”. MODOS. Revista de História da Arte. Campinas, v.4, n.2, p. 144-161, mai. 2020. Disponível em: https://www.publionline.iar.unicamp.br/index.php/mod/article/view/4324).

03. Cristo Articulado. Meados do séc. XII até ao 1.º quartel do séc. XIII. Museu Grão Vasco. Viseu.

Asseveram-se raras as figuras ambivalentes de Cristo. Encontra-se uma polivalente em Portugal, no Museu Grão Vasco, em Viseu: um cristo articulado, datado de meados do séc. XII até ao 1.º quartel do séc. XIII (ver figura 3). “Esta escultura de madeira em tamanho natural (…) tem a particularidade de ser articulada no pescoço, braços – ombros, cotovelos e pulsos –, joelhos, quadril esquerdo e dois pés (…) Com esta configuração, a escultura pode ser adaptada tanto a uma configuração estática de um Cristo na Cruz , com os braços e pernas esticados, quanto a cabeça levantada e voltada para a frente ; e da Deposição da Cruz , bem como a Deposição na Tumba,outras iconografias igualmente poderosas no mobiliário litúrgico das igrejas da Península Ibérica, Itália, França e Alemanha, desde o século X, com especial incidência nos séculos XII e XIII, prosseguidas pelos séculos seguintes, até à Contra-Reforma em algumas regiões” (Carla Varela Fernandes: PATHOS  – os corpos de Cristo na Cruz. Retórica do Sofrimento na Escultura em Madeira Encontrada em Portugal, Séculos XII-XIV. Alguns exemplos. Revista RIHA 0078 | 28 de novembro de 2013. Disponível em: https://journals.ub.uni-heidelberg.de/index.php/rihajournal/article/view/69842/67265).

Seria muita distração visitar as imagens de Cristo no Brasil e não recordar a canção Jesus Cristo, do Roberto Carlos, editada em 1970.

Roberto Carlos. Jesus Cristo. Ana. 1970. Ao Vivo 23 de outubro de 2004, no Estádio do Pacaembu, São Paulo, 23 de outubro de 2004.

Embarcados

Ícaro. Recipiente de terracota. Grécia. Século V a. C. The Metropolitan Museum of Art.

Estás embarcado (Blaise Pascal). Por inteiro. Não pasmes! Ousa! Aposta! Perde-te! Renova! Sê trágico! Sê insensato! Arranha as asas! Rasga as fraldas do mundo! Somos pequenos, somos de uma pequenez infinita (Blaise Pascal).

Segue uma interpretação, original, despojada, das Bachianas nº5, de Heitor Villa-Lobos. Adiciono um vídeo da canção Hey You, dos Pink Floyd.

Heitor Villa-Lobos: Bachianas brasileiras No. 5, W. 389, 1. Aria (Cantilena). Ao vivo em Borchardt, Berlim. 2018. Intérprete: Nadine Sierra.
Pink Floyd. Hey You. The Wall. 1979. Ao vivo no Eart’s Court, em Agosto de 1980.