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Roberta Flack

Roberta Flack.

Vacinado ou não, continuo vulnerável.

Roberta Flack. The First Time Ever I Saw Your Face. First Take. 1969.
Roberta Flack. Killing me softly with his song. 1973.

Motivem-se uns aos outros

Caravaggio. Conversão de São Paulo. 1600-1601.

Lunar é uma instituição/aplicação financeira que se propõe aumentar o rendimento dos clientes sem prescindir do antigo banco. Como motivação, o anúncio Your Other Bank recorre a uma sequência excitante de uma relação heterossexual, combustível que já conheceu melhores dias na publicidade. A geometria sexual complica-se com a alusão ao “bánkage à trois” no lema e na letra da canção do belga Plastic Bertrand:  o cliente, o novo e o antigo banco. Importa ser criativo para seduzir o consumidor! A motivação ergue-se como palavra-chave da transição de milénio. É tão miraculosa que faz andar os cegos e ver os coxos. Uma alavanca do corpo e da alma. Sem motivação, nada, nem sequer um piscar-de-olho! Os casais carecem um do outro rumo à boda de prata, os idosos, para envelhecer, as crianças, para brincar, os operários, para trabalhar… No ensino à distância, os alunos precisam de motivação. Os pais, seguidores domésticos das aulas dos filhos, diagnosticam: “o professor não presta nenhuma atenção ao meu Filipe”; e “à minha filha Susana só pergunta o que ela não sabe”. Um vórtice de desmotivação.

Uma pausa para desconversar. A noção de motivação aqui utilizada é, naturalmente, parcial. Cinge-se a uma ação externa, de fora para dentro, como a conversão de São Paulo. A pessoa resume-se a uma espécie de “tábua rasa” onde caem pingos coloridos que esboçam retratos impressionistas. Para motivar os alunos na escola têm que se saber aquilo que os move. A noção vulgar de motivação tende a equacionar as pessoas como seres hétero-determinados, carentes de autonomia, responsabilidade, iniciativa, vontade e vocação.

Marca: Lunar. Título: Your Other Bank. Agência: Åkestam Holst Noa. Direção: Filip Nilsson. Suécia, fevereiro 2021.

No meio não está a virtude

M.C. Escher. Day and Night, 1938.

“Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem veem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado” (Fernando Pessoa. Livro do Desassossego).

“No meio é que está a virtude”. Frase cunhada e gasta. Demasiado óbvia para não ser oca. No meio não está a virtude. Talvez de um lado, ou do outro. Quem está em ambos os lados é incerto, impuro, “traidor” (André Gorz, Le Traître, Paris: Seuil, 1958). Não é digno de confiança.

O meio pode aspirar a centro de confluências. As forças revêem-se e reforçam-se, aproximando-se e afastando-se. Creio ser esta a inspiração do anúncio The Middle, da Jeep: encontrar um centro conciliador dos Estados-Unidos. Mas o centro é uma miragem que muda, inconstante, de lugar. O mundo é “uma esfera infinita cujo centro se encontra em toda parte e cuja circunferência não se acha em nenhuma” (Blaise Pascal, Pensamentos, Fragmento 72).

Marca: Jeep – The Middle Super Bowl LV Ad ft. Bruce Springsteen. Agência: Doner. Thom Zimny. Estados-Unidos, fevereiro 2021.

Daqui ninguém nos tira

Fridays Future climate change protest Lausanne. 2019.

“Fugir para Marte ou salvar a Terra?”. Esta é a mensagem de um cartaz de uma manifestação em Lausanne em 2019. É também o tema do anúncio 1%, de Fridays For Future, um movimento global fundado por Greta Thunberg. Um anúncio irónico. Marte é promessa de um recomeço, para os pioneiros, mas a Terra ainda não chegou ao fim, para os resilientes. A canção Space Oddity, de David Bowie, tem uma pegada espacial: acompanhou reportagens dedicadas a momentos marcantes de viagens espaciais. A canção Life on Mars, apesar do título, não vem muito a propósito.

Anunciante: Fridays For Future. Título: 1%. Agência: FRED & FARID Los Angeles. Estados-Unidos, fevereiro 2021.
David Bowie. Space Oddity. David Bowie. 1969.
David Bowie. Life on Mars. Hunky Dory. 1971.

Aspirar a solidão

Edward Hopper. At the window. 1940.

O confinamento altera as rotinas. As pequenas e as grandes. Presta-se ao desempoeiramento dos objetos: filmes, discos, fotografias, entrevistas gravadas… Alguns aguardam uma infinidade por um gesto de atenção. Poderiam continuar esquecidos? A televisão é uma alternativa, mas irrita. O telemóvel? Nunca lhe apanhei o jeito. Despacho as pessoas, e elas ressentem-se. Entrego-me, portanto, às minhas coisas, como o Principezinho à rosa.

Sem o confinamento, os objetos são belas adormecidas à espera de animação.  Passo os dias só. A solidão não me larga. Também ganho pó. O Tendências do Imaginário é uma face deste isolamento. A solidão não é boa nem má. É um estado com que se convive bem ou mal. A música é uma companheira. Aspira o pó da solidão.

Joe Cocker. You are so beautiful. I Can Stand a Little Rain. 1974.
Joe Cocker. Up where we belong. An Officer and a Gentleman. 1982.

Beijos

O amor é a invenção de tudo, uma originalidade inesgotável (Fernando Namora).

Gustav Klimt. Girlfriends. 1916-1917.

O título do anúncio da Nettflix é L’Amour. C’est Tout. O amor é tudo, para todos, sem apropriação, nem discriminação positiva ou negativa. Não é? A canção La Vie en Rose é uma escolha acertada.

Marca: Nettflix. L’amour c’est tout. França, fevereiro 2021.

A estetização dos alimentos

Still-life. Mosaic, Roman artwork, 2nd century CE. From a villa at Tor Marancia, near the Catacombs of Domitilla.

A culinária é uma arte efémera? Existe uma estetização dos alimentos? Isto condiz com a febre de partilha de fotografias de comida na Internet? A pintura de alimentos é antiga (ver imagem). Atesta-o a quantidade de quadros com naturezas mortas. Existem excelentes anúncios com comida. O anúncio Sushi, da Sony, destaca-se. Vale a pena espreitar!

Marca: #Sony #4k Real 4k demo Sony. Título: Sushi. 2019.

Flor de cheiro

Jacques Brel

Há tufos de plantas aromáticas que dominam olfativamente o jardim. Existe um poder do cheiro. De quem as plantas aromáticas não gostam é das abelhas. Não têm o sentido das hierarquias. Pousam onde há pólen, independentemente do cheiro. Pousam sem vénias. Esta fidalguia do cheiro lembra algumas organizações e associações, órgãos da verdade, do sentimento, da reputação e da água benta. Críticos incriticáveis prenhes de direitos. São os anjos da modernidade. Inevitáveis, ronronam no regaço do Estado.

Passei a tarde a ouvir Jacques Brel. Admiro-o com prazer. O Tendências do Imaginário inclui sete canções de Jacques Brel. Acrescento três.

Jacques Brel. Le Plat Pays. C’est comme ça. 1962.
Jacquel Brel. La Chanson des Vieux Amants. Jacques Brel 67. 1967
Jacques Brel. Orly. Les Marquises. 1977.

Mãos de tesouras

Cadillac. ScissorHandsFree. 2021.

O anúncio Super Bowl ScissorHandsFree, da Cadillac, inspira-se, assumidamente, na figura do Eduardo Mãos de Tesoura, de Tim Burton (1990). O novo Mãos de Tesoura é, seja qual for o contexto, um desastre. Ressalve-se o All-Electric Cadillac LYRIQ, um automóvel sem mãos. Mais uma fábula.

Marca: Cadillac. Título: ScissorHandsFree. Agência: Leo Burnet Detroit. Direção: David Shane. USA, Fevereiro 2021.

Carnaval magro.

Pieter Bruegel. A Luta entre o Carnaval e a Quaresma. 1559.

Este Carnaval foi cabisbaixo. A Quaresma começou mais cedo. Espero que haja Ressurreição. Jane Monheit interpreta The Girl from Ipanema (A Garota de Ipanema), de António Carlos Jobim e Vinicius de Morais (1967). Acrescento If (2001), também de Jane Monheit.

Jane Monheit. The Girl from Ipanema (A Garota de Ipanema), de António Carlos Jobim e Vinicius de Moraes. 1967. Ao vivo no Jazz Open Stuttgart. Alemanha. 2003.
Jane Monheit. If. Come dream with me. 2001.