Archive by Author | tendências do imaginário

A Bela e o Velho

Kersting, Der Geiger Nicolo Paganini. 1830-1831.

Músico velho: Victor Borge, 80 anos, mais célebre pelas peças de humor do que pelas teclas de piano. Música bela, Esther Abrami, francesa, uma promessa no domínio do violino.

Victor Borge. Octogésimo aniversário. Tivoli Concert Hall, Copenhaga, 1989. Com Michala Petri. Música: Czardas, de Vittorio Monti, 1904.
Esther Abrami interpreta Niccolò Paganini (Cantabile, 1822-24). Royal College of Music. 2017.

O robot emocionado

As alegorias são, no reino dos pensamentos, o que as ruínas são no reino das coisas (Walter Benjamin, Origem do Drama Trágico Alemão, 1928)

Perante o anúncio Robot, da Cinemark Hoyts, não hesito em repetir-me: por que motivo no mundo das imagens, sobretudo no que respeita à comunicação emocional, se observa uma propensão para o recurso a máquinas, animais, desenhos animados ou bebés? A repetição parece perda de tempo, mas talvez não seja. Repetir não é pensar o mesmo, repetir é voltar a pensar, ou seja, repensar. Na arte, por exemplo, o papel da repetição é desmedido e criativo.

O espectáculo mediático global tem particular apetência por duas formas estilísticas: o fetiche e a alegoria. Por pouco, escrevia “fetichismo alegórico”.

Por que nos acontece adorar mais a fotografia do que o fotografado? A relíquia do que o santo? Ou, recordando, Freud, a lingerie do que a mulher? No domínio dos símbolos, somos perversos. Os caminhos que nos comovem são desvios obscuros.

O robot do anúncio tem uma paleta expressiva ínfima. Uma espécie de “expressionismo minimalista” ao jeito dos Emoticons.

A par do fetichismo e da alegoria, a focagem afirma-se como uma forma de abordar a realidade. Por aproximação, como no microscópio; por desbaste marginal, como na floresta amazónica. Elimina-se tudo aquilo que, para além da pauta, faz ruído. O rosto humano irradia, a cada instante, uma infinidade de significações; a cabeça de um robot, muito poucas. Importa, pelos vistos, reduzir, ou especializar, os estímulos e convergir para o alvo.

A focagem da parte, em vez do todo, lembra as ruínas. Um pormenor que enferma, à primeira vista, de uma orfandade de sentido. Falta o resto, quase tudo. Mas, paradoxalmente, enquanto partes à deriva, os pormenores afirmam-se como oásis semióticos, mananciais inesgotáveis de sentido. As ruínas falam, por vezes, mais do que o todo. Sentimo-nos desapossados quando uma ruína é restaurada. Na ruína, cavalgam os nossos fantasmas, na obra redonda, acabada, perfeita, pastam, em visita guiada, os olhos de um boi pasmado.

Marca: Cinemark & Hoyts. Título: Robot. Agência: Geometry. Direcção: CLAN. Argentina, Julho 2019.

PS: Não tenho nada contra os robots, tão pouco contra os seus fabricantes e utilizadores. Por sinal, o meu rapaz mais novo está a construir um robot. Dispenso, contudo, que façam de nós robots. Quando termino um texto mais refratário, gosto de o trocar por música. Por exemplo, o Al lis full of love, da Bjork ou o cover, não do The robots, mas do The model (1978), dos Kraftwerk, pelo Balanescu Quartet, ao vivo, em Praga, no ano 2017.

Björk. All is full of love. Homogenic. 1999.
Balanescu Quartet. Cover de The Model, dos Kraftwerk (1978). Mute 2011.

Vozes

Shell Shock, A Requiem of War. Ópera. Compositor: Nicholas Lens. Livret: Nick Cave, 2014.

As músicas Flamma Flamma – The Fire Requiem (1994) e Was Hast Du Mit Meinem Herz Getan (Orrori Dell’ Amore, 1995), compostas pelo belga Nicholas Lens, surpreendem: vozes mágicas, estranhas, excessivas, do outro mundo. Acrescento o teaser da ópera, também de Nicholas Lens, Shell Shok – A Requiem of War (2014), em memória da Primeira Grande Guerra. Meus amores, meus horrores!

Nicholas Lens. Flamma Flamma – The Fire Requiem. 1994.
Nicholas Lens. Was Hast Du Mit Meinem Herz Getan. Orrori Dell’ Amore. 1995.
Teaser. Shell Shock – A Requiem of War. Ópera. Compositor : Nicholas Lens. Livret : Nick Cave, 2014.

Simplesmente só

Edward Hopper. Sunday. 1926.

Não existe pior solidão do que aquela que nasce da indiferença dos outros (Martin Gray, Le livre de la vie, 1973).

Não desgosto da solidão. Preencho-a com tudo e com nada. Bem cuidada, a solidão seduz. O meu luxo é estar só no meio da multidão. A minha solidão é uma alternativa, não é uma fatalidade. Mas a maioria das pessoas sós não consegue escapar à solidão. Um inquérito promovido, em 2014, pela Fondation France, revela o seguinte:

«Um em cada oito franceses está só: em 2014, a solidão afecta 5 milhões de pessoas, um fenómeno que se agravou sobretudo entre os mais idosos, embora já não poupe os mais jovens (…) Existe mais um milhão de franceses do que em 2010 a não ter relações sociais no âmbito das cinco redes de sociabilidade (familiar, profissional, de amigos, de afinidade ou de vizinhança) (…) Se um em cada oito franceses se encontra hoje só, um em cada três corre o risco de ficar só (https://www.lemonde.fr/societe/article/2014/07/07/la-solitude-progresse-en-france_4452108_3224.html).

Em Inglaterra, a solidão é encarada como causa de morte precoce. Em Janeiro de 2018, foi criado o Ministério da Solidão. Portugal já tem um Observatório da Solidão (Obsolidão, no ISCET). Os portugueses não se podem queixar de falta de observação.

Marca: Age UK. Título: Just Another Day. Agência: Drum. Direcção: Phillippe Andre. Reino Unido, Dezembro 2017.

Do Reino Unido, vem, também, o anúncio Just Another Day, da Age UK. Incisivo! Um idoso, de boa condição social, autónomo e rodeado de pessoas, vive numa solidão despojada, sem assistência robótica nem companhia à distância. Repare-se na opção do realizador pela repetição das situações e dos gestos, repetição que enfatiza o peso da rotina e da circularidade na experiência da solidão.

Gosto de, alheio às regras da boa argumentação, alinhar disparidades. A ópera Madama Butterfly (1904), de Giacomo Puccini, aborda a solidão. Butterfly é uma jovem japonesa que casa com Pinkerton, oficial da marinha norte-americana. Pinkerton parte para os Estados Unidos, onde permanece vários anos sem dar notícias. Regressa um dia, acompanhado pela esposa americana. Butterfly suicida-se. “Com honra morre quem em honra não pode viver””. O “coro à boca fechada” embala esta tragédia.

Madama Butterfly. Coro à boca fechada. G. Puccini. Concierto Voces para la Paz 2010. Director: Miguel Roa. Madrid, Junho 2010.

Hoje, estou mais só. O gato desapareceu há quatro dias. Sente-se a sua falta nas mais pequenas coisas. Não podia, por exemplo, trabalhar no escritório com a porta aberta. O gato cultivava uma atracção pelos papéis e pelos fios. Sempre que o expulsava, esboçava um movimento para sair, mas reconsiderava e enfiava-se, majestoso, no cesto do lixo. O ritual era sempre o mesmo: pegava no caixote com sua excelência e colocava-o no exterior. Às vezes, volvidos alguns minutos, o gato continuava a ronronar no seu berço de palha. Dedico este artigo ao meu gato.

SAD. Solidão Acompanhada à Distância.

A solidão é uma realidade em crescimento. Um inquérito realizado em França, no ano de 2014, revela o alcance e as formas da solidão no País (https://www.lemonde.fr/societe/article/2014/07/07/la-solitude-progresse-en-france_4452108_3224.html). A economia da solidão expande-se e diversifica-se, bem como as soluções propostas. O anúncio Be Together More, da Amazon, é um exemplo. Aposta na companhia à distância.

Marca: Amazon. Título: Be Together More. Internacional, 2018.

Solidão assistida

Conheço a solidão. É uma amiga nem sempre desejada. Respeito-a! Solitário, dedicava-me à leitura de um livro ou a ver televisão. Nunca dancei com um robot, mas lutei com o travesseiro. Hoje, entrego-me ao computador ou ao telemóvel. Estranha forma de companhia. Por enquanto, não há máquina que substitua o ser humano. A este falta-lhe um botão para ligar e desligar. De qualquer modo, às vezes vale a pena “estar no computador”. O anúncio B.E.N., da Société de Saint Vincent de Paul, é uma obra de arte.

Anunciante: Société de Saint Vincent de Paul. Título: B.E.N. (Bionically Engineered Nursing). Agência: CLIM & BBDO. Direcção: David Wilson. França, Novembro 2016.

Ele e ela

Como enfrentar os abusos de poder no seio de um casal? Com um queijo. O queijo Jarlsberg. É milagroso. As cenas de humilhação do anúncio são dignas de registo.

Marca: Jarlsberg. Título: I Would Do Anuything For You (But I Won’t Do That. Agência: Try (Oslo). Direcção: Trond fausa Aurvag. Noruega, Maio 2019.
Marca: Jarlsberg. Título: I Would Do Anuything For You (But I Won’t Do That. Agência: Try (Oslo). Direcção: Trond fausa Aurvag. Noruega, Maio 2019.

Boas maneiras: os conselhos de Erasmo

Hans Holbein. Erasmus of Rotterdam. Detail, c.1532

“Homem inteligente não urina contra o vento” (Erasmo de Roterdão)

Hoje, nada de anúncios publicitários. Aprender com os antigos é humildade que não está no vento. Erasmo de Roterdão é o autor do Elogio da Loucura (1511). Mas escreveu mais obras, entre as quais a Civilidade Pueril (1530), manual de boas maneiras destinado às crianças. Norbert Elias cita-o, abundantemente, no Processo Civilizacional (1939). Trata-se de um livro pequeno organizado em tópicos. Seguem quatro: o riso, a urina, a flatulência e a bebida.

O riso

Rir de tudo o que se faz ou é dito eis coisa de bobalhão, mas, não rir de nada já é estupidez.

Rir de palavra ou gesto obsceno espelha um caráter malicioso.

A explosão de risada, aquela que mexe o corpo inteiro e que os gregos denominavam “sacudir”, não cabe bem em idade alguma e muito menos em criança.

Rir como imitando o relincho de cavalo não é decente. Igualmente indecoroso aquele que ri, escancarando a boca e arregaçando as faces com os dentes em amostra, a guisa de um esgar canino ou de sorriso sardônico.

A face deve irradiar alegria sem deformar os traços da boca nem sugerir devassidão. Somente os tolos exclamam: “Ah! Eu enlouqueço de tanto rir! Eu estou caindo de risada! Morro de rir!”.

Se calha mesmo algo de tão hilariante e irresistível, mesmo para os desinteressados, então que se cubra o rosto com um lenço ou com a mão.

Rir sozinho e sem motivo aparente é coisa tida como amostra de tolice e de desequilíbrio.

Se tal ocorrer, prescrevem os bons modos que se decline a razão da hilaridade. Na hipótese de não convir dar o motivo, necessário se faz inventar qualquer pretexto a fim de evitar a suspeita de que alguém está a rir da pessoa dele.

A urina

Reter a urina é prejudicial para a saúde. É de bom costume vertê-la em lugar reservado.

Flatulência

Há quem aconselha que a criança deve apertar as nádegas para reprimir a flatulência. Nada de educação nisso. Pode até parecer urbanidade, mas, estás a provocar uma disfunção.

Se for possível afastar-se um pouco, então alivie-se isoladamente. Caso contrário, de acordo com um antigo costume, dissimula, com a tosse, a crepitação. De outro lado, por que não preceituar que se esvazie o intestino, já que retardar tal situação é mais danoso que comprimir o ventre?

Bebida

Principiar a refeição bebendo é hábito dos alcoólatras que bebem não por sede e, sim, por impulso. Isso, além de inconveniente, prejudica a saúde.

Não há necessidade alguma de tomar líquido logo depois de ter tomado sopa ou bebido leite.

Aliás, beber mais de duas ou três vezes, no decorrer da refeição, não é elegante nem saudável para as crianças. Bebam uma única vez ao começar o segundo prato, principalmente se for um assado. Depois, no final da refeição, bebam, mas sorvendo o líquido com moderação, não engolindo de um sorvo nem fazendo aquele rumor típico de cavalo.

O vinho e a cerveja, que têm igual teor inebriante, prejudicam a saúde das crianças e depravam os costumes.

Preferível mesmo é que a juventude, por ser mais acalorada, beba apenas água.

De acordo com a idade dos menores é mais adequado tomar água ferventada. Se tal não se adequar ao clima e a outras coisas mais, então bebam cerveja menos forte ou vinho mais suave diluído em água.

Pelo mais, eis alguns dos prêmios que contemplam pessoas dadas ao vinho: dentes amarelados, pálpebras caídas, olhos embaciados, estupor mental, velhice prematura.

Antes de beber, engole a comida. Nunca aproximar o copo dos lábios sem, primeiro, tê-lo limpado com o guardanapo ou com o lenço, principalmente se um dos convivas te apresenta o próprio copo ou se todos bebem da mesma taça.

Erasmo de Roterdão. De civilitate morum puerilium (Civilidade pueril), 1530.

Variações

António Variações (1944-1984)

No anúncio Llegá, da empresa petrolífera YPF, as pessoas vão chegando animadas por emoções tranquilas. Trata-se de um anúncio de Pucho Mentasti, um dos melhores realizadores da América Latina.

Anunciante: YPF. Título: Llegá. Agência: Ogilvy Argentina. Direcção: Pucho Mentasti. Argentina, Jul 2011

Em Never Stop, da Universidade de Auckland, as pessoas avançam aceleradas rumo ao topo. O registo desta fábrica de sucessos é futurista. No anúncio Llegá, as pessoas chegam ao lugar desejado, um cais de sentidos e sentimentos. O tempo abranda. O registo é romântico.

Na canção Estou Além, do António Variações, nem se parte, nem se chega. Uma travessia sem ancoragem. O registo é, agora, trágico: “Vou continuar a procurar / A minha forma / O meu lugar / Porque até aqui eu só: / Estou bem onde eu não estou / Porque eu só quero ir / Aonde eu não vou” (António Variações, Estou Além”).

António Variações. Estou além. Anjo da Guarda. 1983.

António Variações. Estou além (letra)

Não consigo dominar
Este estado de ansiedade
A pressa de chegar
P’ra não chegar tarde
Não sei de que é que eu fujo
Será desta solidão
Mas porque é que eu recuso
Quem quer dar-me a mão
Vou continuar a procurar
A quem eu me quero dar
Porque até aqui eu só:
Quero quem quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi
Esta insatisfação
Não consigo compreender
Sempre esta sensação
Que estou a perder
Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P’ra outro lugar
Vou continuar a procurar
A minha forma
O meu lugar
Porque até aqui eu só:
Estou bem aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde eu nao estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou
Estou bem aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou.

À maneira grotesca

Andrés de Melgar. Grotesques, ca. 1545–60.

Há nove anos, interessava-me tanto pelos vídeos musicais como pela publicidade. Escrevi, em Julho de 2010, no Facebook, um artigo sobre a canção Lilac Wine, na versão dos The Cinematic Orchestra. Reproduzo o vídeo e o comentário:

The Cinematic Orchestra. Lilac Wine. Cover. 2010.

“Gosto de grotescos: linhas e figuras que se encadeiam e serpenteiam em caprichoso movimento e perpétua metamorfose. São fantásticos os grotescos do Vaticano, de Florença ou do palácio de Nero perto do Coliseu de Roma. Também há grotescos em Portugal… Na actualidade, continuamos a produzir grotescos. Na publicidade, por exemplo, mas também nos vídeos musicais. Lembro os U2 (Original of the Species) ou os Gnarls Barkley (Crazy). Gosto de Lilac Wine (na voz de Nina Simone, Jeff Buckley, Katie Melua, Jeff Beck…). Gosto dos The Cinematic Orchestra”.