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Música contra as constipações

Oggy et les Cafards.

A música mexida é recomendada contra as constipações. Os vírus dançam, abanam o capacete, cansam-se e desaparecem. Seguem quatro celebridades musicais de há algumas décadas atrás.

Electric Light Orchestra. Don’t bring me down.1979.
Survivor. Eye of the tiger. 1982.
Quiet Riot. Cum on feel the noize. 1983.
Primal Scream. Jailbird. 2003.

Suicídio

Émile Durkheim

Na Irlanda, os suicídios não interessam a ninguém, as pessoas não querem falar nisso. Receiam que uma simples menção no jornal inspire mais dez mortes similares. É uma epidemia silenciosa. Cada geração tem o seu tabú (Dermot Bolger, A Second Life, 1994).

Esta curta-metragem espanhola, dedicada ao suicídio, intitula-se Émile em homenagem ao sociólogo Émile Durkheim (O suicídio, 1897). “Um assunto espinhoso e tabú”. O vídeo convoca uma crença várias vezes abordada no Tendências do Imaginário: no momento da morte, o moribundo revê num instante toda a sua vida. Mas, pelos vistos, o suicídio não é uma porta, não é uma promessa. Segue a nota de informação que acompanha o anúncio:

Émile (the name of the campaign is a tribute to Émile Durkheim, a pioneer in social research with his work: “Le suicide”) is a campaign to show people who are thinking about killing themselves that it is worth living. It is a campaign that makes people reflect. And he does it through a content, a short film that tells a story that deals with two fundamental themes through the main character. The first is his situation: he lives in Costa Rica, the happiest country in the world, in a luxury house, with a great car, because he has succeeded in his career, but still he is not happy and wants to commit suicide. The second is his age, with more than 40 years, it may seem that his life is no longer able to change. But it can, it can always. And that is the importance of the message, on the one hand it shows you that there is always time for things to change and improve. On the other hand that although from outside it is not understood many people who do not expect it, maybe thinking about commit suicide and you have to realize. And all this is done in a different way, speaking of what is usually said that before we die, you see your life before your eyes like flashes, but if you commit suicide, everything is different. A message of hope on a hard and taboo subject (https://www.adsoftheworld.com/media/film/emile).

Título: Émile. Agência: Jorge M. Rodrigo Ad Studio, Sevilla, Spain. Realizador: Jorge M. Rodrigo. Espanha, Setembro 2019.

Amor à distância

John Lewis. The man on the moon. 2015.

“A solidão desola-me; a companhia oprime-me” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego).

Inserido no artigo O Homem na Lua (https://tendimag.com/2015/11/07/o-homem-na-lua/), o anúncio Man on the Moon, da John Lewis, foi varrido por ventos adversos. Nada como recolocar o anúncio.

Marca: John Lewis. Título: Man on the Moon. Agência: Adam & Eve DDB (London). Reino Unido, Novembro 2015.

The Economist/KFF findings add to a wave of recent research showing high levels of loneliness. A recent Cigna survey revealed that nearly half of Americans always or sometimes feel alone (46%) or left out (47%). Fully 54% said they always or sometimes feel that no one knows them well. Loneliness isn’t just a U.S. phenomenon. In a nationwide survey released in October from the BBC, a third of Britons said that they often or very often feel lonely. Nearly half of Britons over 65 consider the television or a pet their main source of company. In Japan, there are more than half a million people under 40 who haven’t left their house or interacted with anyone for at least six months. In Canada, the share of solo households is now 28%. Across the European Union, it’s 34% (Millenials And The Loneliness Epidemic, Forbes: https://www.forbes.com/sites/neilhowe/2019/05/03/millennials-and-the-loneliness-epidemic/#77e649ac7676

A solidão remete para a ausência de laços sociais. Émile Durkheim assume-o no ensaio sobre o suicídio (1897). Dizer ausência é pouco. Para haver solidão, não é necessário que os laços se quebrem, basta que afrouxem. Como sublinha Zygmunt Bauman (Liquid Love, 2003), a modernidade é caracterizada pelo afrouxamento dos laços sociais. Para além de laços sociais frouxos, existem laços sociais incómodos ou deteriorados, que convém controlar. A arte social é fértil neste tipo de comportamento: por exemplo, convidar sem nunca concretizar. Vivemos rodeados por dispositivos contra a intrusão, que lembram escudos sociais.

A profusão de laços sociais não obsta à solidão. Num lar de idosos, a exposição ao outro é máxima, mas a solidão predomina. Que os laços sociais se quebrem é natural. Que os laços sociais se afrouxem faz parte da nossa modernidade líquida. Que os laços sociais sejam indesejados é um novo problema, um problema que envolve a confiança.

A nossa veia estruturalista induz-nos a focar as redes e os laços. Mas as redes e os laços não são a única realidade que comove o homem. Subsistem minudências, porventura, fortuitas, que fazem dançar a vida. Aquém e além, ocorrem pequenos milagres e pequenas epifanias que nos despertam e nos abraçam. O anúncio opera uma dupla magia: a relação à distância entre a menina e o homem na lua e a relação empática com o público. Uma centelha de amor que passa pelo ecrã. Uma palpitação electrónica.

Acrobacia e dança

Kami-Lynne Bruin .

Já coloquei a música Porz Goret, de Yann Tiersen (https://tendimag.com/2018/12/12/cavalo-cansado/). Mas não com este vídeo: uma dança acrobática de Tarek Rammo & Kami-Lynne Bruin, que já foram membros do Cirque du Soleil. O ritmo, a melodia e o sentimento da música de Yann Tiersen prestam-se à dança.

Yann Tiersen. Porz Goret. EUSA. 2016. Acrobatas: Tarek Rammo & Kami-Lynne Bruin.

Na tua cabeça

Samsung Galaxy. Alpaca. 2019.

Quand on est couronné,
On a toujours le nez bien fait ( Charles Perrault, Les souhaits ridicules. Contes de ma Mère l’Oye (1697).

A Samsung (Galaxy) aprecia pescoços altos. Gosta, também, de penas e de pelos fofos. No anúncio O Voo do Avestruz, de 2017, um avestruz consegue voar graças à realidade aumentada (ver https://tendimag.com/2017/04/04/o-voo-do-avestruz/ ). No anúncio recente Alpaca, as alpacas, tosquiadas, estilizadas e coloridas pela mão da moda, conquistam as passerelles e andam nas cabeças do mundo.

El encuentro casual de una mujer con las hermosas (y ciertamente tontas) criaturas durante un viaje a Sudamérica le inspira una decisión precipitada. De esta manera se empieza a producir una extraña combinación de moda, arte y cría de animales, dando como resultado un fenómeno global.
Para permitir su visión creativa, esta artista emprendedora utiliza todas las funciones convenientes de su teléfono y su stylus: tomar fotos, grabar videos, dibujar maquetas y crear un plan de negocios (Adlatina, https://www.adlatina.com/publicidad/para-ver:-bbh-nueva-york-y-samsung-pasaron-de-los-avestruces-a-las-alpacas-sudamericanas).

Voar é a nossa ambição; uma coroa na cabeça, a nossa perdição. Dois anúncios da Samsung, dois delírios, duas palmas de ouro do Tendências do Imaginário. Um bom pretexto para recordar a música Zombie, dos Cranberries. Because it’s in your head.

Samsung – Galaxy note 10. Título: Alpaca. Agência: BBH New York. Nicolai Fuglsig. Estados Unidos, Setembro 2019.
Music video by The Cranberries performing Zombie. No Need to Argue. 1994.

A asneira como vocação

Já tinha saudades de asneiras. Asneiras colectivas, democráticas, com vocação burocrática. Das boas, com efeito insensato. Uma asneira é como um elefante francês: ça trompe énormément. A asneira tem uma conjugação sui generis: não fui eu, fomos nós; não fomos nós, fostes vós; não fostes vós, foram os alienígenas. A asneira é catártica. As consequências? Que interessam as consequências? Errámos de boa-fé. Com convicção! As asneiras são uma ternura. São congénitas. Acompanham-nos desde o berço. Como dizia o vizinho: o mundo é só aritmética; quem asneira sem saber asneira a dobrar. Mas tudo tem limites. O prejuízo alheio é um limite da irresponsabilidade.

Carregar na imagem para aceder ao primeiro anúncio.

Marca: The Strategic Milk Alliance. Título: Fun. Agência: DDB Canada. Canadá, 2013.
Marca: The Strategic Milk Alliance. Título: Every Moment. Canadá, 2014.

Música da Mongólia

Daiqing Tana.

O mundo tem muitos lados. É poliédrico. Da Mongólia, caiu um pedacinho de música: A cantora Daiqing Tana e o grupo Haya. Duas músicas, Silent Sky e Ongmanibamai, do álbum Silent Sky (2009). A segunda música, Ogmanibamai, precedida por uma parte instrumental, é digna de especial atenção. É uma pena Daiqing Tana não pertencer ao lado mais global da globalização.

Daiqing Tana. Silent Sky. Silent Sky. 2009.
Daiqing Tana & Haya Band. Ongmanibamai. Silent Sky. 2009.

Delírio

G2A. 2019.

De regresso a Braga, reencontro o Delírio. Tem bom aspecto! Fomos amigos. O delírio mais requintado é o delírio da intelligentsia. Com ou sem laços. Com uma varinha mágica na mão, o “intelectual” delira o mundo. No essencial, nada tenho a opor ao delírio. Não gosto, porém, quando o delírio alheio salpica a minha realidade.

Delirantes e vertiginosos, os videojogos ligam mundos: o nosso e o dos outros, dentro e fora do ecrã. A publicidade não hesita em reforçar esta propensão.

Marca: G2A. Título: You loose when you overpay. Agência: Change Serviceplan. Direcção: Szymon Pawlik. Polónia, Julho 2019.

Philip Glass versão harpa

Lavinia Meijer.

Setembro! Cresce o trabalho, diminuem as festas. As castanhas esperam-nos aconchegadas em espinhos. As reuniões, também. Pois, ouça-se música. Agrada-me esta versão do Philip Glass (Metamorphosis Two), tocada pela harpa da sul-coreana Lavinia Meijer.

Philip Glass. Metamorphosis Two. 1989. Interpretação de Lavinia Meijer.

Lição de género

Benetton. United By Half.

O espírito de missão turva a reflexividade (Albertino Gonçalves).

É insensato publicar um texto como este. Escrever expõe-nos a asneiras íntimas, sem nenhum ganho. Mas, não obstante René Descartes, a doidice está mais bem distribuída do que a razão. Insistir num acto que nos vai prejudicar é estupidez de luxo.

Em sentido lato, discriminar é distinguir. Faculdade indispensável à acção. Num sentido corrente na sociologia, discriminar é avaliar preconceituosamente o outro.

Tu seras un homme, mon fils, da Fondation Des Femmes, prima pela qualidade. Uma sensibilização bem conseguida em torno das relações de género. Merece um comentário detalhado.

Nas últimas cinco décadas, na publicidade, as imagens de género alteraram-se. A supremacia masculina, outrora ostensiva, torna-se mais discreta. O homem sujeito aproxima-se do objecto e a mulher objecto, do sujeito. A submissão feminina já não é o que era. Emerge, entretanto, um novo tipo de anúncio publicitário: a proclamação de género. A moldura das manifestações e das efemérides transita para os anúncios. Seguem dois exemplos desta “nova vaga” (ver, também, Género e Publicidade: https://tendimag.com/2019/08/23/genero-e-publicidade/). Estas mudanças não significam que a publicidade deixou de sustentar o poder masculino garantindo, por fim, a igualdade. O homem não carece aparecer para que o sexismo se insinue. As vias da comunicação são travessas e insuspeitas. Quando os objectos falam, o homem pode saborear o silêncio.

Anunciante: OSFAM GB. Título: #wolmenUnlimited. International Women’s Day. Reino Unido, Março 2017.
Marca: United Colors of Benetton. Título: United By Half. Índia, Março 2017.

O anúncio Tu Seras Un Homme Mon Fils, da Fondation des Femmes, inspira-se no poema de Rudyard Kipling És Um Homem, Se… (If…, ca 1895; ver tradução na parte final do artigo). Uma voz masculina sublinha o modo como um pai deve educar um filho.

“Se em vez de te exaltares, souberes respeitar, escutar, partilhar; se, apesar da derrota, continuas a avançar, tu serás um homem, meu filho; se souberes apoiar sem querer dominar, ser forte sem ser violento; se és capaz de encarar uma mulher sem que ela tenha a temer o teu olhar, tu serás um homem, meu filho; se lutares por todo o lado contra as desigualdades e a violência e tiveres a coragem de quebrar a incidência (?), se recusas que incomodem a tua mãe, a tua irmã ou os teus amigos, bem como todas as mulheres que cruzares na tua vida, então, nesse dia, tu serás verdadeiramente um homem, meu filho! / O assédio e a violência contra as mulheres não dizem apenas respeito às mulheres”.

Anunciante: Fondation des Femmes. Título : Tu seras un homme mon fils. França, Maio 2018.

O anúncio sensibiliza contra o assédio e a violência de que sofrem as mulheres:

“L’idée de cette campagne : adresser les hommes et “futurs hommes” sur les valeurs propices à favoriser l’égalité femmes – hommes dans la société et in fine, mettre un terme à toutes les violences faites aux femmes. Décliné du poème de Rudyard Kipling, le film met en scène des instants de vie entre pères et fils de tous âges, milieux et origines. #TuSerasUnHommeMonFils aborde l’importance de l’éducation aux plus jeunes, au cœur de l’évolution des comportements des hommes envers les femmes » (https://fondationdesfemmes.org/tu-seras-un-homme-mon-fils/).

Para que um filho se torne “verdadeiramente um homem », que posturas e valores deve o pai promover? Colocar-se no lugar do outro é um exercício de reciprocidade recomendável. Troquemos o foco: “que personalidade e que valores deve a mãe promover na relação com a filha para que esta se converta verdadeiramente numa mulher”? Qual o efeito deste desígnio? No mínimo, incómodo. Uma verdadeira mulher? Criada através da relação mãe-filha?

Nós somos animais centrados. Satisfaz-nos, às vezes, enxergar a “metade”. Cantor, homem, filho… O problema é meramente masculino? A mãe não educa os filhos? Não tem influência na respectiva personalidade? Não perfilha preconceitos, incluindo de género? A percepção do mundo por metades pode comportar consequências desastrosas. Recordo a implementação da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima). “Predestinada” a mulheres, quando os homens, vítimas de violência doméstica, começaram a demandar a APAV, foi uma vergonha de Estado.

Fonte: Christine Mateus. TuSerasUnHommeMonFils : une campagne pour ne pas en faire un macho. Le Parisien ( http://www.leparisien.fr/societe/tuserasunhommemonfils-une-campagne-pour-ne-pas-en-faire-un-macho-29-05-2018-7742571.php).

Este retrato da boa masculinidade convoca o binómio, polémico, protector/vítima. O que me intriga. Intriga-me, também, as qualidades do “verdadeiro homem”, que, preconizadas no anúncio, quase coincidem com os atributos associados pela população francesa a “ser homem”, segundo os resultados do inquérito online promovido pela própria Fondation des Femmes http://www.leparisien.fr/societe/tuserasunhommemonfils-une-campagne-pour-ne-pas-en-faire-un-macho-29-05-2018-7742571.php). Não imagino o que esta correspondência significa. Já me perdi em demasia. Pelo caminho, dispenso a noção de “verdadeiro homem”, cujo cadastro histórico é tremendo.

És Um HOMEM, Se… (Rudyard Kiplin, tradução)
Se és capaz de conservar o teu bom senso e a calma,
Quando os outros os perdem, e te acusam disso,
Se és capaz de confiar em ti, quando te ti duvidam
E, no entanto, perdoares que duvidem,
Se és capaz de esperar, sem perderes a esperança
E não caluniares os que te caluniam,
Se és capaz de sonhar, sem que o sonho te domine,
E pensar, sem reduzir o pensamento a vício,
Se és capaz de enfrentar o Triunfo e o Desastre,
Sem fazer distinção entre estes dois impostores,
Se és capaz de ouvir a verdade que disseste,
Transformada por canalhas em armadilhas aos tolos,
Se és capaz de ver destruído o ideal da vida inteira
E construí-lo outra vez com ferramentas gastas,
Se és capaz de arriscar todos os teus haveres
Num lance corajoso, alheio ao resultado,
E perder e começar de novo o teu caminho,
Sem que ouça um suspiro quem seguir ao teu lado,
Se és capaz de forçar os teus músculos e nervos
E fazê-los servir se já quase não servem,
Sustentando-te a ti, quando nada em ti resta,
A não ser a vontade que diz: Enfrenta!
Se és capaz de falar ao povo e ficar digno
Ou de passear com reis conservando-te o mesmo,
Se não pode abalar-te amigo ou inimigo
E não sofrem decepção os que contam contigo,
Se podes preencher todo minuto que passa
Com sessenta segundos de tarefa acertada,
Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,
Será teu tudo que nela existe
E não receies que te o tomem,
Mas (ainda melhor que tudo isto)
Se assim fores, serás um HOMEM.
Rudyard Kipling (ca 1895).