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O último suspiro

Este artigo deu trabalho. Filhos de Gutenberg, ainda não enxergamos o poder da imagem. Continuamos convencidos que os atributos de um artigo alinham pelo texto. Neste caso, o protagonismo cabe às iluminuras medievais, a imagens da morte após a morte. Difíceis de descobrir,  estas imagens constituem, como ilustração, recurso e objecto, um desafio exigente mas precioso.

01. Diabo levando a alma de um amane. Matfre Ermengaud. Breviari d'Amor. França. Início do séc. XIV. British Library

01. Diabo levando a alma de um amante. Matfre Ermengaud. Breviari d’Amor. França. Início do séc. XIV. British Library

Omar Calabrese chama a atenção para a “irrepresentabilidade da morte”, a impossibilidade de “representar precisamente a passagem entre a vida e a morte” (Calabrese, Omar, Como se lê uma obra de arte, 1997, Lisboa, Edições 70, p. 88). A Idade Média focaliza-se no suspiro da morte, na exalação da alma no momento em que se despede do corpo rumo ao paraíso, ao purgatório ou ao inferno.

02. Diabo recebendo a alma de um rei. França, c. 1475-1525

02. Diabo recebe a alma de um rei. França, c. 1475-1525

Muitas almas não têm salvação. Condenadas, são recebidas, apenas, pelos demónios que as transportam para a boca do inferno (figuras 1 a 2; ver A caminho do inferno).

04. 'Miniature of a battle for a soul, with God in heaven above.' Book of Hours, use of Sarum. Bruges, c. 1500. British Library.

03. ‘Miniature of a battle for a soul, with God in heaven above.’ Book of Hours, use of Sarum. Bruges, c. 1500. British Library.

05. Miniature painting, Koninklijke Bibliotheek National Library of the Netherlands.

04. Miniature painting, Koninklijke Bibliotheek National Library of the Netherlands.

Almas há cuja salvação ainda é possível. São motivo de disputa entre anjos e demónios (figuras 3 a 5). Se os anjos e os demónios lutam, após a morte, pelas almas, então a salvação não depende exclusivamente deste mundo, da vida terrena. Há margem para resgate no outro mundo. São almas polémicas, talhadas para o recém-inventado purgatório, entendido como o terceiro lugar do além (Goff, Jacques Le, 1981, La Naissance du Purgatoire, Paris, Gallimard).

06. Geert Groote, auteur. Vlaamse Meester, illustrator, 1480. Utrecht, Museum Catharijneconvent.

05. Geert Groote, auteur. Vlaamse Meester, illustrator, 1480. Utrecht, Museum Catharijneconvent.

Há almas ditosas, eleitas, conduzidas por anjos, num tecido branco, para o céu. Nestes casos de salvação, o morto, lendário ou real, pode ser apostrofado, identificado. Na figura 6, o morto é Rolando, pretenso sobrinho do Imperador Carlos Magno, herói do célebre romance La Chanson de Roland. Numa versão do século XII (Pseudo-Turpin), o arcebispo Turpin tem uma visão: o rei Marsiliun é transportado por demónios e a alma de Rolando por anjos. (Merwin, W. S., 2001, Song of Roland, New York / Toronto, Modern Library Paperback Edition, p. XIV).

07. Roland’s soul carried off by angels BNF Fr 10135, fol. 144r Grandes Chroniques de France . Séc. XIV.

06. Roland’s soul carried off by angels BNF Fr 10135, fol. 144r Grandes Chroniques de France . Séc. XIV.

No rolo mortuário da figura 7, a pessoa morta (em baixo) é Lucy, fundadora e primeira prioresa do convento beneditino de Castle Hedingham, em Essex. Na imagem central, Lucy é elevada por dois anjos. Na parte superior, aparecem Cristo e Nossa Senhora com o Menino. O rolo mortuário, mandado fazer pela sucessora, foi enviado a 122 entidades religiosas. A mensagem é clara.

08.Mortuary roll of Lucy, foundress and first prioress of the Benedictine nunnery of Castle Hedingham. Essex. C 1225-1230.

07.Mortuary roll of Lucy, foundress and first prioress of the Benedictine nunnery of Castle Hedingham. Essex. C 1225-1230.

Estas representações da passagem para o outro mundo continuam pelos séculos seguintes. No Mosteiro de Tibães, em Braga, existe um azulejo com a morte de São Bento. Vê-se o santo morto, de pé, e a ascensão da alma numa espécie de “tapete voador” rodeado por anjos. O tapete é o pormenor que mais intriga o meu colega e amigo Paulo Oliveira. Convenha-se, no entanto, que para subir ao céu, a diferença entre um “lençol” e um “tapete” não é intransponível.

09. Miracles de Notre Dame, 13e s. (troisième quart). Ange redonnant son âme au moine de Saint-Pierre de Cologne, Besançon, BM, ms. 0551, f. 047v

08. Miracles de Notre Dame, 13e s. (troisième quart). Ange redonnant son âme au moine de Saint-Pierre de Cologne, Besançon, BM, ms. 0551, f. 047v

A última iluminura (figura 8) é, a meu ver, a mais fascinante. O anjo não está a pegar na alma, uma réplica do morto, para a levar para o céu. Está a devolver a alma ao monge Saint-Pierre de Cologne, de Besançon (França), está a devolver a vida a um “não morto” (Omar Calabrese). Que a “passagem entre a vida e a morte” é reversível sabe-o a Igreja. A alma do monge Saint-Pierre não vai para o céu, nem para o inferno, nem para o purgatório. Nem sequer vai, vem! Transita em sentido inverso.

São histórias de outros tempos. Entretanto, o inferno mudou; outrora, no outro mundo, agora faz parte deste. Está no meio de nós. Quanto aos não mortos e ao trânsito inverso, encontraram guarida, por exemplo, nos videojogos.

O Natal de São José

Livre d'heures de Béatrice de Rieux - La Nativité. 1390.

Livre d’heures de Béatrice de Rieux – La Nativité. 1390.

É véspera de Natal. Apetece-me celebrar São José. Em muitas iluminuras medievais aparece afastado de Maria e do Menino, à margem, encolhido, fatigado, quase alheado. Mais espectador do que actor, ao contrário de Maria e dos reis magos, São José não tem direito a coroa nem, por vezes, a auréola. Desde o episódio da vara florida até ao nascimento de Jesus, tamanha passividade comove-me.

Adoration of the Magi, from a Medieval manuscript in the Bodleian Library, Oxford, 15th c.

Adoration of the Magi, from a Medieval manuscript in the Bodleian Library, Oxford, 15th c.

Para além destas duas iluminuras, dos séculos XIV e XV, acrescento um anúncio português, História do Natal Digital, produzido em Dezembro de 2010 pela agência Excentric, de Lisboa.

Votos de um feliz Natal e de um ano novo atento aos vossos méritos e desejos.

In Vino Veritas

02 Baco e o Vesúvio. Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. Fresco. Pormenor.  Séc. I.

Baco e o Vesúvio. Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. Fresco. Pormenor. Séc. I.

No inverno, entre São Martinho e São Nicolau, castanhas e vinho! Num fresco de Pompeia, do século I, Baco aparece todo vestido com uvas (figuras 1 e 2). O vinho,  apreciado pelos antigos egípcios, gregos e romanos (figuras 3 e 4), conhece na Idade Média um franco recrudescimento. Graças, sobretudo, aos monges e aos mosteiros (figura 5). Existem muitas iluminuras e tapeçarias medievais alusivas ao vinho. Selecionei uma pequena mão cheia.

Nas Très Riches Heures du Duc de Berry (1400), uma vindima ilustra o mês de Setembro (figura 6). Nas Grandes Heures de Rohan (1415), uma iluminura contempla o ciclo do vinho: vindima; transporte; pisar das uvas; introdução do vinho nas pipas (figura 7). A tapeçaria exposta no museu de Cluny, do início do séc. XVI, acrescenta a imagem de uma prensa mecânica, a lembrar uma lagareta (figura 8). Dá o cacho de uvas tantas voltas para um dia transbordar das taças, bebido em companhia (figura 9), e, por vezes, em demasia (figura 10).

Imaginação e irreverência

1. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

Fig 1. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

Fig 2. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

Fig 2. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

Nas margens dos livros medievais existem imagens de uma criatividade e de um atrevimento extremos. No fólio 18v do manuscrito Voeux du Paon (figuras 1 e 2), concluído cerca de 1350, “na margem esquerda, um animal híbrido, com cabeça humana coroada e corpo de serpente, toca gaita-de-foles com o ânus. Um animal híbrido, com cabeça humana, equilibra uma espada com a face” (Pierpont Morgan Library). O tema da gaita-de-foles é várias vezes retomado ao longo do livro.

 

Fig 3. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

Fig 3. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

Na margem esquerda do fólio 28v, “um homem nu segura a cabeça e a perna amputadas. No fundo da página (bas-de-page), uma serpente engole um homem, do qual se vê apenas a cabeça. Na margem direita, um homem, com o rosto visível, espreita do interior de uma construção, provavelmente uma prisão ou um forno” (Pierpont Morgan Library).

Ambas as páginas nos apresentam híbridos disformes, desmontados e remontados em função da imaginação, mas também do imaginário. Muitas destas imagens eram escrupulosamente codificadas.

Fig 4. Fig 3. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

Fig 4. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

Fig 5. Fig 4. Fig 3. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

Fig 5. Voeux du paon. Northern France or Belgium, possibly Tournai, ca. 1350.

O beijo da imagem

Hours of Joanna the Mad, Bruges 1486-1506.

Hours of Joanna the Mad, Bruges 1486-1506.

Lindo, o beijo da imagem.
Lindo, dois caracóis a fazer amor.

Jan Swammerdam. “De respiratione”, 1667. Pormenor da capa.

Jan Swammerdam. “De respiratione”, 1667. Pormenor da capa.

Lindo, uma mulher com treze braços a mostrar o caminho a um monge.

Fortuna. Giovanni Boccaccio, Des cas des nobles hommes et femmes. Paris ca. 1410.

Fortuna. Giovanni Boccaccio, Des cas des nobles hommes et femmes. Paris ca. 1410.

Lindo, um bando de demónios a banhar-se no rio.

Pierre Salmon, Réponses à Charles VI et Lamentation au roi sur son état, Paris ca. 1408.

Pierre Salmon, Réponses à Charles VI et Lamentation au roi sur son état, Paris ca. 1408.

Lindo, uma árvore de falos num convento.

Roman de la Rose, France 14th century.

Roman de la Rose, France 14th century.

Lindo, o heróico e minúsculo pecado.

Missale Romanum of Amiens illuminated by Pierre de Raimbaucourt”. 1323.

Missale Romanum of Amiens illuminated by Pierre de Raimbaucourt”. 1323.

Lindo, um bispo montado de costas a caminho da missa do burro.

Le livre de Lancelot du Lac & other Arthurian Romances, Northern France 13th century.

Le livre de Lancelot du Lac & other Arthurian Romances, Northern France 13th century.

Lindo, um porco a andar de bengala depois da festa do presunto.

'L'Ystoire du tres sainct Charlesmayne, empereur et confesseur', France ca. 1475-1500.

‘L’Ystoire du tres sainct Charlesmayne, empereur et confesseur’, France ca. 1475-1500.

Calemo-nos, pois! Para acolher o beijo da imagem. Calemo-nos, de preferência, em inglês, para melhor forma e maior efeito.

OVMI (Objecto Voador Mal Identificado)

À memória de Raphael Pividal

Por estranho que pareça, na Idade Média a sexualidade era mais liberta, menos inibida e menos censurada do que nos nossos dias.

“Entre a maneira de falar sobre relações sexuais representada por Erasmo e a representada aqui por Von Raumer, é visível uma curva de civilização semelhante à mostrada em mais detalhe na manifestação de outros impulsos. No processo civilizador, a sexualidade, também, é cada vez mais transferida para trás de cena da vida social e isolada em um enclave particular, a família nuclear. De maneira idêntica, as relações entre os sexos são segregadas, colocadas atrás de paredes da consciência. Uma aura de embaraço, a manifestação de um medo sociogenético, cerca essa esfera da vida. Mesmo entre adultos é referida apenas com cautela e circunlóquios” (Norbert Elias, O processo civilizador, vol. I, Rio de Janheiro, Zahard Ed., 1994, p. 180).

Decretum Gratiani with the commentary of Bartolomeo da Brescia, Italy 1340-1345.

Decretum Gratiani with the commentary of Bartolomeo da Brescia, Italy 1340-1345.

Os manuscritos e as imagens medievais evidenciam esta “curva civilizacional” ao nível do controlo e da expressão da sexualidade. As aventuras de Panurgo no Pantagruel, de François Rabelais, fornecem uma amostra. Nas iluminuras, multiplicam-se, explícitas, as cenas de sexualidade, ora realistas, ora caricatas: árvores que dão falos, coitos, exibicionismos, sodomia… Não as mostro porque estamos no século XXI e este blogue é para todas as idades. A maioria pertence a cópias do Romance da Rosa (1230-1280).  Subsiste, no entanto, uma imagem que não resisto a partilhar. Considero-a a mais extraordinária. Pintada entre 1340 e 1345, representa um objeto voador mal identificado (OVMI).

Hieronymus Bosch. As Tentações de Sto Antão.  Pormenor. 1495-1500. Lisboa.

Hieronymus Bosch. As Tentações de Sto Antão. Pormenor. 1495-1500. Lisboa.

Será um peixe voador como aqueles que Hieronymus Bosch pintou 150 anos mais tarde no tríptico de Lisboa (As Tentações de Santo Antão, entre 1495 e 1500)? Ambos transportam pessoas, mas ao OVMI, o que falta em barbatanas sobra em orelhas. Ressalve-se a existência de uma associação simbólica entre o peixe e o OVMI, por exemplo, na mitologia maia (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, Paris, Robert Laffont, 1982).

Illustrations depicting Waldensians as witches in Le champion des dames, by Martin Le France, 1451.

Illustrations depicting Waldensians as witches in Le champion des dames, by Martin Le France, 1451.

Será o OVMI uma vassoura montada por uma bruxa? A nudez confere, mas o dispositivo voador pode ter cabo, mas não tem feixe para varrer. Ora, as bruxas eram muito ciosas das suas vassouras… Não varriam e ainda menos voavam em vassouras amputadas.

Será um pão, um cacete, como o “pão catalão” de Salvador Dali (1932)? Um pão voador? Nada de pasmar, há vários registos do fenómeno. Um restaurante em Singapura chama-se The Flying Bread. Tratar-se-ia, neste caso, de um OVMI pasteleiro surrealista.

Salvador Dali. Catalan Bread. 1932.

Salvador Dali. Catalan Bread. 1932.

O peixe, a vassoura e o pão constituem três hipóteses plausíveis. Acrescento uma quarta: o OVMI é o fruto de uma faleira que tem como propriedade levar a mulher que o colhe aos céus.

Subsistem, contudo, muitas dúvidas e algumas insuficiências metodológicas. Quer-me parecer que tamanho enigma só pode ser resolvido mediante uma investigação sistemática e aprofundada, conduzida por uma equipa interdisciplinar internacional, com acesso a alta tecnologia, apoiada por uma ou várias fundações mecenas, com publicação dos resultados numa revista estrangeira com factor de impacto.

Gatos Músicos

01 From a French Book of Hours, c. 1470.

01 From a French Book of Hours, c. 1470.

À minha gata, que tem quatro patas e um rabo.

Esfíngico, o gato é um misto de sabedoria, astúcia e mistério. A exemplo de Garfield, é um especialista em sonho e hedonismo. Mascote predilecta do poder, o gato é associado ao oculto, à bruxaria e à superstição. Maléfico, chega a ser temível  (e.g. “O Gato Preto” de Edgar Allan Poe). Do ponto de vista simbólico, o gato é complexo e ambivalente. Acrescente-se, para complicar, a figura do gato músico, tão comum e apreciada nas iluminuras medievais. Tendências do Imaginário já contemplou o burro músico (http://tendimag.com/2012/11/20/o-burro-e-a-harpa/). É  a vez do gato!

02. MELANCHOLY CAT Book of Hours, France 15th century. Beinecke, MS 662, fol. 21r

02. MELANCHOLY CAT Book of Hours, France 15th century. Beinecke, MS 662, fol. 21r.

03. Bagpipes cat book of hours, Paris ca. 1460 (NY, Morgan Library & Museum, MS M.282, fol. 133v).

03. Bagpipes cat book of hours, Paris ca. 1460 (NY, Morgan Library & Museum, MS M.282, fol. 133v).

04 From a Belgian Book of Hours, c. 1470.

04 From a Belgian Book of Hours, c. 1470.

05. 'Queen Mary Psalter', London 1310-1320 (British Library, Royal 2 B VII, fol. 194r)

05. ‘Queen Mary Psalter’, London 1310-1320 (British Library, Royal 2 B VII, fol. 194r)

06. Book of Hours, Cat beating cymbal, from a marginal cycle of images of the funeral of Renard the Fox, Walters Manuscript W.102, fol. 78v detail.

06. Book of Hours, Cat beating cymbal, from a marginal cycle of images of the funeral of Renard the Fox, Walters Manuscript W.102, fol. 78v detail.

 

Tansomania

The Geese Book

Geese Book. Nuremberga. Alemanha. Entre 1503 e 1510. Volume I – fol. 186r


Na Idade Média, sobretudo a partir do século XIII, multiplicam-se, nas margens dos manuscritos,  ilustrações alusivas a provérbios e anedotas. Lilian M. C. Randall sustenta que a maior parte destas imagens corresponde a exempla, tópicos de apoio à argumentação dos pregadores:

“Preaching in the vernacular, the Franciscans and, to an even greater extent, the Dominicans embellished their sermons with anecdotes, termed exempla. Intended to illustrate the doctrine in terms readily comprehensible to the general public, they were drawn from a host of literary sources as well as from popular tradition and contemporary events” (http://www.tepotech.com/Art_Bulletin/1957392JunRandall.pdf).

Cedendo ao anacronismo, estas iluminuras funcionariam como uma espécie de post-it da retórica e do imaginário medievais. Os livros de horas, os manuscritos de oração mais correntes, pertenciam a famílias. Destinavam-se à oração recatada. As ilustrações, mais do que exemplos, proporcionavam um deleite pessoal, associado ao prazer da imagem.

Geese Book. Nuremberga. Alemanha. Entre 1503 e 1510. Volume I – fol. 186r

O Geese Book (Nuremberga, Alemanha, 1503-510) é um livro, em dois volumes, com música litúrgica. Na figura 1, na margem inferior (Volume I – fol. 186r), um coro de gansos, dirigido por um lobo, é cobiçado por uma raposa (ver detalhe na figura 2). Este exemplo manifesta-se intemporal: os tansos, ingénuos, colocam-se entre os dentes do lobo e a boca da raposa, à mercê do poder e da astúcia. A esta propensão, passo a chamar tansomania.

Segue o cântico correspondente ao trecho com a imagem dos gansos (fol 186r):

Mass for ascension. Introitus Viri Galilei. The Geese Book. German Medieval Chant by Laszlo Dobszay, Janka Szendrei; Schola Hungarica. 2005

Estrelas medievais

As iluminuras medievais são uma floresta onde nos perdemos com prazer. O manuscrito do séc. IX com a Aratea, de Murcus Tullius Cícero, é um bom exemplo. Inclui uma vintena de desenhos de constelações. A astronomia era, então, um assunto sério; as figuras ainda agora nos tocam, falando uma linguagem que não nos é estranha. Uma boa inspiração para um designer…

Marcus Tullius Cicero, Aratea, illustrated with 22 constellation figures containing extracts from Hyginus, Astronomica. Reims, ca 820-850, The British Library, Manuscrito Harley MS 647.

Galeria de Imagens de Salvação

Há semanas, no artigo com o vídeo Imagens de Salvação (http://tendimag.com/2013/08/23/imagens-de-salvacao/),  não anexei a respectiva galeria de imagens. Faço-o agora.

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